14.4.10

Passatempo Agarra Aqui - Conclusão

Último comboio para lado nenhum – Epílogo

Toda a gente tinha ficado parada depois da sugestão de Mnemósine. Não pela sugestão em si, mas pelo facto de eu não ter escrito mais nada. Resolvido o problema, acharam todos que seria uma boa ideia, tendo Gui comentado que a achava extremamente sexy e Miúda-Mulher acrescentado que era do escafandro. Afinal de contas não é todos os dias que se apanha um comboio para Lado Nenhum.

Uma Besta qualquer decidiu avançar sem pensar, como é típico das bestas e, ao levantar-se, derramou o copo de gin e bagas de zimbro de Flávio, que não achou muita piada. Pelo menos até começar a lamber os estofos do banco da carruagem.

“Bem, a minha razão é simples – estou farto que me digam que, sendo uma besta, não vou a Lado Nenhum. Além disso, disseram-me que há lá um workshop de ninjas cinco estrelas...de ninja. Perceberam esta?”

Ninguém percebeu. Nem eu.
Miss Complicações foi a próxima a dar um passo em frente. Ainda bem que o fez, porque tinha desaparecido e, sem esse passo, ninguém a teria visto.

“Bem, creio que já devem ter percebido que tenho um problema. Estou sempre a desaparecer, sem perceber porquê.

Gui interrompeu “Mas isso é estranhamente se...”

Miss contra-interrompeu-o “Sexy, eu sei. Mas quando um dia tem apenas 24 horas não podes desaparecer por dá cá aquela palha”.
O comboio passou por um túnel e, quando saiu, Miss tinha aparentemente desaparecido.

Aproveitando uma pausa na lavagem do estofo, Flávio resolveu que bem podia contar agora a sua história “As pessoas dizerm que há quem beba para esquecer, eu bebo para lembrar. Em cada baga que migo está a amargura que não me largava por nunca ter visto a minha banda favorita ao vivo. Até que me disseram que os Zimbro, ao contrário do que os críticos diziam, ainda vão a Lado Nenhum. E, sendo assim....

“...Apita ó comboio, lá vai à apitar” Tal foi o coro em uníssono, que quem ouvisse não diria que ia a Lado Nenhum, tal a sua singularidade.

“Desculpem lá, mas eu não tinha acabado” Miss reapareceu, envergando agora um fato de treino com motivos florais. “É que não só desapareço sem saber porquê, como também apareço sem controlar o que trago vestido. Já fui a médicos, professores Bambos e outros que ficavam direitos e ninguém me sabe dizer o que tenho. Dizem que é uma variante de Sebastianismo, mas como nunca me dá para aparecer em manhãs de nevoeiro, deve ser uma estirpe diferente.
“Um xarope de nabo não cura?” Vera arriscou a pergunta, tentando passar por naba.

“Não, mas como me disseram que nunca ouviram falar disso em Lado Nenhum, é para lá que vou ver se isto desaparece. E por isto não me refiro a mim”. Fecharam todos os olhos, mas Miss não desapareceu desta vez.

“Conheci-o num museu” Começou Miúda-Mulher do nada, olhando pensativamente para a marioneta de um marreta que repousava nas mãos de Gata Escaldada, com ar sufocado.
“Era diferente dos que já tinha conhecido, até em museus. Não andava em busca de nada, limitava-se a deixar que os outros o encontrassem. E eu encontrei-o.”

Por esta altura, Outra Besta qualquer pode ter ressonado. Já Sophia esperava que a história desse em boda e RL escutava, coisa que lhe parecia dar alguma satisfação.

“Sorri-lhe, mas ele não me sorriu. Aproximei-me, mas ele não se aproximou. Era frio, mas ao mesmo tempo imponente, como se fosse de outro tempo. Ficámos sozinhos numa sala. Era o escafandro mais sedutor que conheci. Disseram-me que a nossa relação não ia a Lado Nenhum. Cá estou e lá está ele no compartimento das malas, a provar que o mundo também erra.”

Ariadne não resistiu a colher algumas lágrimas do seu rosto com um aparelhómetro. Mnemósine, algo nervosa, pediu-lhe um lencinho. Ariadne não gostou de ver gente a dar nomes aos seus aparelhómetros.

(a parte dois do fim já vem, é só para o choque não ser tão grande)

Eu sei o que isso é” Fausto tinha um ar sofredor, como se uma Besta qualquer lhe estivesse a dar murros nas costas. Mas, quando a Besta parou, o ar continuou.

“Eu também” atirou Gui “É sexy”.
“Não, não é” Fausto agarrafa o seu poster com uma girafa “É triste. Triste como ir ao Jardim Zoológico e cair no espaço das girafas a tentar apanhar uma moeda de 2€. Triste como depois tentar sair só para descobrir que há uma girafa que nos ama. E que o faz de forma tão intensa que já temos marcas dos cascos nas costas. Triste como passar dias no hospital a pensar no pêlo suave e no longo pescoço, só para depois ser proibido de voltar a entrar no Zoo. Triste como ter que ir a Lado Nenhum, o único lugar onde o amor entre homem e girafa é legal...”
Por esta altura, o número de bocas abertas e ares enojados deteve Fausto. Só Sophia esperava que o assunto desse em boda.

“Bem, triste, triste era se esse fosse o meu caso. Mas eu...ehr, vou só lá visitar uma tia”. E sentou-se. Fez-se silêncio.

RL, que se levantava, foi detida por Gui que, em tom casual acrescentou “Eu sei que o silêncio é sexy e as girafas também. Já me disseram que, em termos de sexynez, não há como eu em Lado Nenhum. Eu não acredito e é por isso vou lá ver. Por isso e para assim poder participar nesta história, que é definitivamente sexy”.

RL escutou-o e, depois disso, escutou o silêncio. Resolveu então escutar as suas próprias palavras – “Desde pequena que tenho olho para a escuta, tanto que pensei entrar para os escutas, mas ninguém me deu ouvidos. Quando atravessava estradas, mais do que parar e olhar, antes de atravessar eu queria era escutar, o que por vezes fazia que me viessem tirar a cabeça do alcatrão na passadeira. Tenho ouvido das boas, outra vezes das más, mas o que eu queria mesmo era trabalhar na PJ a fazer escutas. Em verso, se fosse possível. Ouvi dizer que haviam vagas em Lado Nenhum. É para lá que vou, mas poderia ficar aqui para sempre, a escutar-vos”. E, dito isto, pôs-se à escuta.

“Olha, nunca escutes um nabo, é o que eu te digo” Vera parecia agora ter ressentimentos contra um vegetal o que, ao contrário dos mesmos, não é saudável. “Passei a minha vida rodeado dos mesmos, alguns deles plantados na terra, outros à minha porta e o que é que isso faz de mim?”

“Uma nabiça?” aparentemente, foi o marreta de Gata Escaldada que respondeu, mas foi também o esforço de ventriloquismo mais miserável de sempre, a par do tipo que molesta um pato nos programas da manhã.

“Talvez, mas gosto de pensar em mim mais como um molho de brócolos. O certo é que o meu fascínio por nabos já me levou até ao Entroncamento e daí a Lado Nenhum é um pulinho. Pelo menos foi o que me disse o nabo da estação”.

A viagem parecia aproximar-se do fim, nem que fosse pelo número de palavras gastas ao longo do percurso. Os passageiros desta viagem resolveram então dançar a Macarena, sem perceberem que isso tinha sido apenas uma maldade da minha parte. Só Miss se escapou a isso, essencialmente porque nem eu soube para onde ela tinha desaparecido desta vez.

Ainda a transpirar, depois de relembrar o seu passado nos Unidos da Kizomba, Outra Besta qualquer pigarreou, mostrando vontade de falar:
“O meu sonho sempre foi vender trivelas para o cinto”

“Fivelas” corrigiram os restantes.

“Não, não Tri-ve-las, como aquelas do Quaresma, só que para os cintos. Era juntar o melhor dos cintos e da bola”.

Ninguém achava que aquilo fazia muito sentido, tirando Flávio, que nitidamente já tinha abusado das bagas de zimbro.

“Olha, de aparelhómetros percebo eu” interveio Ariadne “E digo-te que não há trivelas para o cinto em Lado Nenhum”.
“Exacto” os olhos da Outra Besta brilharam “E por isso serei eu o primeiro a comercializá-las nessa bela localidade.

Era um plano bestial. Nos mais diversos sentidos.

(se pensam que isto já acabou, estão enganados, já vem aí mais uma parte, possivelmente a última no post que irá fazer a bíblia corar de vergonha)

A Gata Escaldada aproveitou que o seu marreta foi à casa de banho (também conhecida como o escafandro de Miúda-Mulher e disse de sua justiça – “Sabem, eu tenho uma cena com marretas e acho que me teria saído muito melhor que a Alexandra Lencastre na Rua Sésamo

“Dizem as más línguas que a gaja teve de fazer uns favorzinhos a metade dos bonecos só para lá chegar” Mnemósine era muito dada a parlapié de vão de escada “E depois de lá chegar aviou a outra metade, para não haver invejas no elenco” avançou uma Besta qualquer, refreando-se de fazer uma piada com a expressão “pacote de benefícios”.

“Pois” a Gata não se deixou abalar “mas eu sou mulher de um marreta só e fugi com o meu porque ele é menor e só em Lado Nenhum é que já se viu uma coisa assim. Eu sei que ele só tem olhos para mim, ainda que eles só estejam colados na cara...”

Ouviu-se uma marcha nupcial assobiada. Podia ser uma versão do “Apita o comboio” ou até o “Final Countdown” dos Europe, já ninguém percebia muito bem o que saía da boca de Flávio. Sophia e o marreta entraram de braço dado. “Eu não vos disse que ia haver uma boda. Porque raio viria eu numa viagem para Lado Nenhum se assim não fosse”.

Ariadne registou o momento com um aparelhómetro que tinha comprado a um bispo de Cracóvia. Gata Escaldada registou um punho, por engano em Gui, que se colocou no meio do caminho a dizer que toda aquela situação era muito sexy.
Ecoaram gritos de “Cabra” na carruagem. Fausto pensou que uma cabra não era solução. Queria mesmo uma girafa.

Mnemósine estava em êxtase, mas começou a hiperventilar. “Ai, que nervos, logo agora que eu ia contar que sou agarrada ao parlapié e com esta rambóia toda estou prestes a entrar em overdose”. Ninguém a ajudou, tirando outra Besta qualquer, embora a sua definição de ajuda fosse uma rasteira que a deixou estendida na carruagem.
“Ai, que nervos, parem com isso que senão não vou a Lado Nenhum”.

Eis que Ariadne, sacando de outro aparelhómetro a que alguns chamam bom senso, proferiu
“Tens toda a razão, estou aqui a verificar e já se viu que esta conversa é que não vai a Lado Nenhum. Nós nunca saímos do sítio”.

O desânimo instalou-se na face dos presentes. Foi mauzinho, havia lugares livres no fundo da carruagem.

“Embarquei nesta viagem para descobrir com os aparelhómetros mais avançados se era possível chegar a Lado Nenhum de comboio ou de conversa e este aparelhómetro comprova que não é” Acenou com algo na mão para o comprovar.

“Desculpa” interrompeu Miúda-mulher “mas houve um dia que me apresentaram isso que aí tens. Chama-se tampão”.

“Ops, não era esta aparatura, como se diz em polaco. Era isto” Ariadne foi à mala e tirou um quadro. Ao contrário do que ela própria pensava não era uma obra de Vanderlin, mas sim uma mancha de Rorschach.

Algures no seu escritório, enquanto comia uma dose de espargos, Pólo Norte não conseguia deixar de sorrir. Ela bem sabia que tinha arranjado maneira de lixar o fim da história.

19 comentários:

  1. Tinhas de falar do fato de treino com motivos florais? Não era suposto ser fixão. Não era um "suponhamos"?
    De resto está tudo muito bem...

    Já agora... não tens mais cogumelos? Dizem que são bons para estimular a criatividade.

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  2. Era tão fixe o fato de treino que ficou fixão na história. E, se saiu da minha cabeça, é de marca.

    Desde já, peço desculpa por qualquer agravamento de problemas oculares que este post possa ter causado aos leitores.

    Mas, como não tenho remorsos, ainda não acabou.

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  3. fixão??? hahaha
    Sim! Mas se quiseres que fiqeu ainda mais fixão podes recorrer à ficção hahaha

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  4. A Pólo Norte que não se metesse no comboio...
    Pois em termos de ventríloquos marretas, sou fã deste: http://www.youtube.com/watch?v=Q6yksaCcR4s

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  5. Consegui ler tudo!

    grande imaginação, gostei do último pormenor da polo-norte. ;)

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  6. Tens de passar a pensar nos posts em formato twitter...;)

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  7. Tou capaz de te dar um linguado! :P

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  8. Ah estás preocupado com os problemas oculares da malta? Atiras-me pró chão e depois é isso. Está bem.
    E afinal continuo sem ir a Lado Nenhum. O meu pai bem disso, quando eu fui prá Faculdade de Letras, que nunca havia de chegar a Lado Nenhum. Tinha tantas esperanças!
    Foi bom, quero mais!


    @Pólo Norte: mete a língua para dentro mulher! :)

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  9. ah e não faças posts formato twitter. Só no twitter mesmo. obrigada.

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  10. O que eu sei é que não vendi nenhuma trivela. Agora como é que pago os brincos?

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  11. Só agora me vim deparar com esta pérola! Qual Tim burton, qual quê, o Mak é que sabe! E eu bem disse que ía haver boda, não ligam ao que eu digo e depois dá nisto!

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  12. Clap! Clap! CLAP! CLAP!CLAP! CLAP! (Estou a bater palmas como aquelas pessoas que têm problemas com ditados ritmicos.)

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  13. O escafandro era a casa de banho?!
    Makluco... :-)

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  14. .......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... (sem palavras)

    Para quando um livro do blog? Para quando?

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  15. Aidna me falta ler prai 1/3, mas como é hora de almoço e nao gosto de enganar o patrao, continuo a ler à tarde.

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  16. @ Ene - Um livro do blog não é um livro. É um desperdício de papel. Mas ainda não desisti da ideia de o imprimir em papel higiénico.

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  17. Hora de almoço terminada e cá estive eu para ler o que faltava.
    Fiquei sem saber se posso abraçar girafas em lado nenhum!

    O zimbro do outro devia ter sido para todos e não só para ti, ó mak...

    Parabéns pela excelente imaginação e quando fores ao zoo, não te esqueças dos 2€ que estão no recinto das girafas.



    bytoisly e até já

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  18. Se quisesse fazer uma analise presunçosa, teria de dizer algo como "surrealismo no seu melhor". Mas vou só dizer que é humor de primeira qualidade. E muito portugues. Dá para matar saudades. Agora tenho de ir, que deixei o aparelhómetro ao lume.

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