20.4.10

Os assaltados estão assaltando o assaltante*



Não tenho um grande historial em relação a assaltos. Enquanto vítima, claro está. Tirando um ou outro episódio escolar, que resolvi rapidamente tornando-me amigo dos maiores meliantes da zona, creio que só fui assaltado uma vez depois de adulto. E aqui assalto deve ser visto no sentido lato da palavra.

Cenário: Rossio 22.41. Dizem que é de noite.

Intervenientes principais: Mak, jovem intrépido praticante de basket, que orça para aí 1,85m. Um amigo de Mak, praticante do mesmo desporto, mas que leva de acréscimo mais 10cm.

Interveniente secundário: carocho anão (ou muito perto disso).

Cena: Vindos de um jogo, Mak e o seu amigo dirigem-se à Praça da Figueira, onde o conforto de um eléctrico nº15 os levará até ao seu destino, já que são pelintras universitários. Falam do jogo, da vida e estudam paralelismos entre o Jogador de Dostoyevsky e Gambit, personagem da Marvel.

Visivelmente entretidos, não reparam que têm agora alguém atrás deles. Depois de pigarrear algumas vezes, finalmente o pequeno carocho diz alguma coisa, sem que nenhum dos intervenientes abrande a sua marcha.

- Não me orientam uns trocos?

Surpreendido pela nossa falta de disponibilidade, volta à carga 10 passos depois.

- Epá, preciso mesmo de uns trocos, como é?

Não era, já que nem troco lhe demos. De repente, acelerou o passo, o que no caso dele era o equivalente quase a um passo de trote. Tal como Jesus, estava no meio de nós.

- Vocês não estão a perceber, eu preciso mesmo de trocos. Já.

Não foi tanto a verve do pequenote que captou a atenção de Mak, também conhecido como “Olho de Lince” entre algumas tribos americanas. Foi o brilho de algo metálico na mão do artista. Mas, havia algo que não batia certo e foi isso que impediu Mak de dar rapidamente com o saco de desporto na tromba do vil pequenito.
Olhando de relance, Mak viu que o seu companheiro também já tinha mancado o cenário e ficou em standby, sem nunca pararem de andar. O gesto seguinte iria ditar o resto da história.

O pequenote esticou o braço e vimos um cabo verde alface fluorescente. Erro nº1. “Eu quero...” ia a começar, revelando falta de educação. Erro nº2. Tinha 1, 57m. Erro nº3. Nós perdemos o jogo. Não foi erro dele, mas aumentou a nossa azia.

- É melhor ires-te embora, antes que te aleijes. – Mak sempre quis fazer de good cop. O seu amigo, menos hollywoodesco, limitou-se a agarrar o pequenito pelo pulso e a puxar-lhe o braço para cima, quase que lhe tirando os pés do chão. “Eu...eeu”, a altitude estava a afectar-lhe o raciocínio. Ou isso, ou a falta de drogas.

- Tu nada. Ou vais agora ou isto vai ser complicado para ti, ouviste c#$!”%” – Mak sempre gostou de falar duro.

- Tá bem, tá bem, mas podem dar-me essa cena – referia-se ele ao seu objecto metálico que estava agora na posse do amigo de Mak.

- Não.

Ele não pareceu muito interessado em negociar, talvez porque estava focado em bater o recorde dos 100metros. Mais facilmente lhe encheríamos os bolsos de dinheiro do que iríamos devolver o objecto. Senão, que outra prova sobraria de que alguém nos tinha tentado assaltar utilizando um descascador de cenouras.



*este título também ficou para sempre no meu coração, tirado de um livro memorável do Peninha.

10 comentários:

  1. Nada é tão assustador como um descascador de cenouras, o próximo passo seria assaltar-vos com um ralador ou um abre latas.
    Já agora quem é que ficou com a recordação o good cop ou o bad cop?

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  2. Gostei principalmente da parte: "É melhor ires-te embora, antes que te aleijes.", de facto, com um descascador, ele poderia ter-se aleijado, nem precisava da Vossa colaboração.. rsrsrs

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  3. Isso não se faz. O descascador deve ter feito falta lá em casa.
    Com mais um bocado de azar ainda levou no lombo com o rolo da massa.




    Beefetro... isto é um bife hetero!??

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  4. Mak...definitivamente...e tal como lembrou a loira aqui em cima...o ralador ia ser muito mais complicado. Mas muito mais. A mim pelo menos mete-me um pouquinho mais de medo....

    (há gajos que nem para assaltar servem...porra...cambada de incompetentes que grassa neste país...)

    Abraçooooooo

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  5. Bom, ao menos o assaltante tem sentido fashion. Que pinta de descascador. E gosto da cor, bem escolhida.

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  6. Ah, o Gambit. Sempre achei que lhe davam pouca atenção mais às suas cartas explosivas. mas isto sou eu. Ainda tens o descascador de cenouras?

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  7. Ele devia pensar que vocês eram duas cenouras gigantes!

    É muito usual acontecer isso...

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  8. Acho que era o Pena Kid, não?

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  9. @ Loira - Creio que ele teria todo um trem de cozinha para assaltos. A recordação ficou com o bad cop, pelo menos até passar pelo contentor do lixo.

    @ Vera - Lamentavelmente, não inquirimos sobre os skills culinários do meliante...

    @ Fausto - Dá me ideia que a casa dele era logo ao virar da esquina ou, mais propriamente na própria da esquina.

    @ Sadeek - Bandidos incompetentes são uma praga. No entanto, bandidos competentes tb temos muitos por cá...

    @ Zigue - Certamente que roubou o mesmo no IKEA.

    @ - Leididi - Para mim, o problema é que o Gambit começou por ser marginal (literalmente e não só) e, quando ganhou protagonismo, acabou por ficar com falhas de história e aspectos um bocado martelados. E, se em vez de cartas, lhe tivessem dado um descascador de cenoura, teria todo um outro potencial.

    @ Ene - Dá-me ideia que o menu dele não era tanto de ácidos, mas...

    @ Jibóia - O kid dava pena, mas não sei se é a isso que te referes.

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  10. Temos de facto. Mas esses geralmente não o fazem à mão armada (seja a arma um descascador de cenouras, um ralador ou uma catana)..

    Abraçooooooo

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