12.4.10

O Zé da esquina


Na minha rua (e eu chamo minha não à actual, mas à rua onde cresci) o Zé era bastante conhecido. A sua fama não se devia a qualquer tipo de actividade ilícita, factor que por norma confere fama a pessoas que passam a vida em esquinas. O Zé também não se tinha celebrizado por vender qualquer tipo de artigo naquele local, nem sequer por dirigir piropos de categoria às mulheres que por ali passavam.

O Zé era muito conhecido essencialmente por passar a vida na esquina e gostar de falar sobre isso. Na realidade, o Zé gostava de falar sobre tudo.

Muita gente daquela rua recorda, dada a proximidade geográfica, que quando o CCB foi construído o Zé foi dos primeiros a fazer ouvir a sua opinião. Na esquina, claro está.

“Ah, já fui lá e gosto muito, é muito bonito, muito espaçoso”. Apesar de o verem sempre na esquina, as pessoas sorriam e diziam ao chegar a casa “Olha, o Zé foi ver o CCB e gostou”. Uma vez mais, o Zé era referência.

Outros usavam o Zé como pêndulo dos transportes. Saindo de casa à pressa, mesmo de manhã cedo, perguntavam “Zé, o 32 já passou?”. E o Zé, do alto da sua esquina, logo dava o seu boletim “O 32 acho que não, passou foi um eléctrico e vinha a abrir, nem sequer parou. E olha, acho que deve vir aí um do Palácio”. E assim o Zé era também o tipo que ajudava a perceber quando estávamos atrasados para a escola ou para o trabalho.

Habituado a distinguir os locais dos visitantes, aproveitando-se do seu poiso privilegiado, o Zé era também pródigo a dar indicações. Fossem camones ou visitantes, o Zé dava indicações, sugeria caminhos e recomendava até locais de estacionamento na zona. Muitos daqueles que não o conheciam, olhavam-no com desconfiança, pouco decididos a seguir o seu conselho. Muitas vezes era um leve assentimento de cabeça de alguém da rua que passava perto do Zé que tranquilizava as pessoas e as punha no trilho recomendado por ele. O Zé nunca levava a mal e nem sequer comentava essa desconfiança. Para ele era tudo simples.

À noite, a rua era bastante mais calma. Depois do jantar, quase sem falha, lá vinha ele a subir a rua calmamente, cantarolando uma qualquer música tradicional. Tradicional, dele, já que nem toda a gente percebia o repertório do Zé. Chegando à esquina, normalmente a sua primeira frase vinha depois de acender um cigarro e era sobre o tempo. “ ’Tá fresquinho”, “ ´Tá abafado” ou um mais popular “Tá caloréu esta noite”.

Depois, tocava harmónica. Só dois ou três minutos. Felizmente. Porque apesar de dotar aquela esquina de uma peculiaridade única, no que à música diz respeito o Zé não era dotado.

Outro dia, não vivendo lá há já alguns anos, passei lá no bairro e não vi o Zé na esquina. Pensei, com um sorriso, que se calhar emigrara para esquinas com mais sol. Mas, eis que oiço o som característico que anunciava a proximidade do Zé. Uma voz conhecida.

“ ´Tá fresquinho hoje”. Voltei a cabeça e com a bengala no pulso, lá estava ele a acender um cigarro. Arrisquei “Então Zé, ´tás bom?”
“Vai-se andando, sabes como é”. Bastante mais grisalho com os seus óculos escuros, sorriu e lá continuou em direcção à esquina. Talvez me tivesse conhecido a voz.

É que, apesar de ser cego, a partir daquela esquina ninguém via o mundo como o Zé.

8 comentários:

  1. Muito bom:-) Gosto desse senhor:-) bj

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  2. Esse Zé não andava com uma Jibóia?

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  3. @Jibóia - Não sei como se chamava a mãe dele....

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  4. Arrepiei-me no fim. Tinha de dizer isto. Muito bem escrito.

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  5. Texto muito bom e bonito.

    AP

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  6. Pois é, também conheço o Zé e tenho algumas conversas de "esquina" com ele e há sempre uma pergunta que não falha: "como está o céu hoje?".
    Só não sou do tempo da harmónica, ainda não devia ser nascida... é que o Zé mora no meu prédio ;)

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