7.4.10

Gordo encornado pela mulher - o argumento

Ou, numa versão mais séria O culto das novelas vs As novelas dos cultos. Imagine-se o enredo:

Um tipo gordo anda a ser encornado pela mulher que, apesar de boa não é de Ermesinde. Outro artista, que trabalha com o marido, também se anda a fazer à febra mas é rejeitado pela mesma. Despeitado e portador de maldade para dar e vender, esse artista presencia um encontro entre a esposa adúltera e o seu amante efectivo, que a tenta convencer a fugirem juntos.
Maquinando uma vingança, o artista vai até à taberna, onde o marido encornado passa os seus tempos livres e diz-lhe que, se se despachar, ainda apanha a mulher a dar bónus tracks ao amante.

O encornado, acompanhado de um amigo, dirigem-se ao local e ainda apanham o amante com as calças na mão a fugir, sem lhe conseguirem no entanto ver as trombas. A mulher é também apanhada a gritar-lhe “Serei sempre tua”. O marido tenta resolver o imbróglio ordeiramente, recorrendo a uma navalha. O amigo impede-o, provavelmente porque não quer manchar a camisa nova e o marido, nem sequer sob ameaça de pancada consegue arrancar à esposa o nome do folião.

O problema é que trabalham todos juntos na mesma firma e têm uma apresentação importantíssima nesse dia. O gordo encornado chora enquanto se prepara, lamentando a vida e o facto de não ter um ginásio disponível por perto.

Com a apresentação prestes a começar, o marido pensa ouvir a mulher a dizer “Serei sempre tua” e grelha o fusível. Conhecido por ser um bonacheirão bem disposto, apanágio dos gordos, nenhum dos presentes leva muito a sério quando ele ameaça mulher com uma faca e lhe ordena que lhe diga o nome do amante. Deixam no entanto de rir quando a senhora começa a espichar sangue depois de levar umas quantas navalhadas.
Dando alguma razão aos que afirmam que as mulheres não sabem ficar caladas, antes de borregar a tipa chama o amante, que está na reunião.
O tipo levanta-se e corre contra a faca do gordo encornado. Sete ou oito vezes.
O marido chora novamente e diz “Bem, a apresentação fica por aqui”.

Tendo este exemplo em conta, o que é que diferencia uma novela de uma ópera?

Se o gordo for o Nicolau Breyner, é novela. Se for o Pavarotti, é ópera.
Se a banda sonora for do Toy, do Rui Veloso ou canastrão semelhante, é novela. Se for de um tipo com apelido italiano ou, no mínimo, estrangeiro, é opera.
Se não souberem falar, é novela. Se o fizerem cantando, é ópera.
Se a mulher tiver excesso de maquilhagem, é novela. Se não for a Alexandra Lencastre, é ópera.
Se a história tender a ser uma palhaçada, é novela. Se falarmos do meu exemplo, é ópera.

4 comentários:

  1. Vim cá ter pelo título do post e valeu a pena. genial.

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  2. Publicidade enganosa é o meu forte. Genialidade, nem por isso ;)

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  3. Excelente análise com um brilhante texto como é apanágio do autor.

    A ópera foi a "novela" dos séculos passados, onde o "povinho" ia às récitas.

    Hoje é a tal "novela dos cultos" mas todos os enredos/argumentos demonstram que era o "culto das novelas"...chame-se ela "Carmen" ou "Tosca".

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  4. Eu diria mais:

    Se envolver uma cega ou uma gémea e se tiver como banda sonora uma música do Toy, é novela da TVI. Se envolver uma gajas e uns gajos giros com enredos da vida real e, quiçá, um deficiente ou uma aleijada envolvidos numa história de amor impossível, é novela da SIC.

    Se for opera francesa envolve um tipo enfiado dentro de um maiô aos saltinhos como se tivesse uma baguette enfiada no rabo (visão do demónio). Se for opera Italiana, apresenta-se com um tipo gordo, com longas barbas que denunciam que o jantar terá sido Fettuccini com Molho de Courgette e Manjericão

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