6.4.10

Nem tudo do oposto que se atrai é bom



Sou daqueles tipos que acreditam que os opostos se atraem. Poderia agora explicar o sentido da vida, enunciar metáforas capazes de comover até o coração mais empedernido, e um ror de balelas sobre pássaros e flores, mas para isso existe o resto da blogosfera cor-de-rosa.

Interessa-me sobremaneira a capacidade das boas pessoas (e elas existem, acreditem) em atrairem para junto de si o que vulgarmente definimosmos como escumalha. Eis um exemplo simples: o meu amigo Abril (chamemos-lhe assim por causa do mês) é boa pessoa, longe do nível de biltrice deste que vos escreve estas linhas. Ora isto de ser boa pessoa nota-se ao longe mas, ao contrário do cheiro a sovaco nos transportes, não desaparece com um bom banho ou lavagem a 35ºC.

Sendo assim, o meu amigo Abril é um magneto para drogaminas, não por ser um dealer como seria de esperar de amigos meus, mas por parecer um bom alvo para cravar uns trocos. No entanto, apesar de ser meu amigo, o jovem Abril é inteligente o que resulta nestes diálogos numa Sexta-Feira Santa.

Tóxico – Epá, desculpa incomodar-te, mas nesta época do ano é triste, ninguém pára, ninguém tem um segundo para falar. Estão-se todos a cagar para o próximo.

Abril – Diz lá então.

Tóxico – Tenho fome pá. Não me podes dispensar uns trocos para ao menos poder comprar umas carcaças e umas latas de atum.

Abril – Não tenho trocos, mas também dinheiro não te dou, mas vou contigo ao supermercado ali ao lado e compro-te essas coisas.

Tóxico – Eeeehhr...pois, mais eu não posso entrar no supermercado.

Abril – Então porquê?

Tóxico – Por causa da fome. Da última vez que lá fui tinha tanta fome que comecei a comer coisas assim que entrei.

Abril (vê o alarme bullshit acender-se) – Pois...então ficas à porta e eu trago-te as coisas.

Tóxico – Epá, epá, não podes antes ir ao multibanco levantar notas e depois destrocar....

Abril – Já te disse, não te vou dar dinheiro. Queres as carcaças e as latas de atum ou não?

Tóxico – Eeehhrr...eu queria mesmo era um frango.

Abril – Um frango??!!! (até as boas pessoas se irritam) Mas porque é que estavas a dizer-me que querias pão e latas de atum?

Tóxico – Aaaa....Ehhr, é que as pessoas para o frango não dão. Além disso, eu já tenho pão aqui na mochila. Podes dar-me uns trocos para o frango então?

Abril – Não. Mas ali no supermercado vendem frangos, posso ir lá comprar...

Tóxico (afastando-se e em voz alta) – Epá, estamos na Páscoa e ninguém ajuda, é uma tristeza, ninguém tem tempo...

Abril (em 2 segundos de raiva) – Mas tu estás a brincar comigo, é?


Felizmente, não tinha um frango nas mãos ou poderíamos ter tido o primeiro homicídio com frango assado. Já eu, a última vez que fui abordado por um artista do género, que me queria vender um chapéu de chuva, consegui negociar até ele estar disposto a vender cinco chapéus de chuva pelo preço inicial que pedia para um. Princípios morais e o facto de estar Sol podem ter ajudado à não conclusão do negócio.

8 comentários:

  1. Ao ler isto, lembrei-me de uma situação que ocorreu há uns anos com um amigo meu. Estavamos os dois no carro, parados num semáforo vermelho, com as janelas abertas, porque era Verão e estava calor. Vem um homem pedir dinheiro, de aspecto duvidoso, com os olhos vermelhinhos que eu sei lá e com um cheirinho a álcool, que se sentia na China. O V. perguntou se era para a droga, ao que o pedinte respondeu "não, não, para a adroga não, que eu não me meto nisso." E o V.: "É que se fosse para a droga ainda lhe dava uns trocos." E nisto ficou verde e arrancou. É um exagero a quantidade de gente que anda pela rua a cravar outros. Não é pela dita crise, nem porque têm dificuldades. É principalmente porque se habituaram àquilo, a não ter que trabalhar e viver de sol a sol da generosidade alheia.

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  2. Daqui a pouco está a pedir caviar, em frente a uma loja gourmet.
    Como ninguém lhe ia dar caviar, até podia ser que realmente arranjasse uns trocos para a dose.

    Às vezes mais vale ser directo e pedir logo uma dose a gente com um ar duvidoso.

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  3. O Abril parece ser de facto boa pessoa.

    Manda-lhe cumprimentos meus*


    *

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  4. Não tenho paciência para tóxicos, arrumadores e afins...nenhum "Abril" os consegue ajudar porque há quem goste mesmo de passar pela vida só para "chular" os outros...

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  5. Eu também tenho um amigo desses. Normalmente encontro-o na bomba de gasolina onde me crava 0,50€ para o comboio. Já pensei em dar-lhe boleia mas prefiro manter o cheiro do carro, onde desconfio existir algo podre. Em alternativa comprei-lhe uma torta Dancake e uma Coca-Cola. Não resisto aquele olhar espelhado.

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  6. @ Mónica - acredito que, entre pedintes, existam várias categorias. O problema é que existem também muitos pedintes sem categoria alguma...

    @ Loira - Caviar e lojas gourmet não é coisa tanto de pedintes, mas mais de pedantes ;)

    @ Jiboia - E o que mais aborrece é a falta de sinceridade e/ou fraqueza da argumentação

    @ Ginger - Será feito. Ainda ontem jantei com ele, depois de inicialmente ter começado por apenas lhe pedir uns trocos.

    @ Rita - Não são todos assim. Eu quando arrumo carros mantenho a higiene e um tom cordato.

    @ Miss - É disfarçá-lo de pinheirinho e pô-lo em frente ao retrovisor. Do lado de fora do vidro, claro está...

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  7. Esta frase é tão boa que me apetece colocá-la no status do facebook: "É que as pessoas para o frango não dão"

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