27.4.10

Defeitios

Na História da Humanidade, a confusão entre o que são defeitos e o que é feitio tem tido contornos marcantes ao longo dos tempos. Senão vejamos citações retiradas do grande livro da sabedoria de Mak:

“Ah, o maior defeito do Nero é a curiosidade. É do feitio dele queimar coisas só pelo gozo científico conhecer melhor o efeito de combustão” – Mãe de Nero durante um barbecue, quando ele tinha 10 anos.

“Mania das grandezas? Não, o meu Napoleão é um homem de feitio equilibrado, sem problemas em relação à sua estatura.” - Josefina, ainda embeiçada pelo minorca.

“O meu Adolfo não é nada neurótico. É do feitio dele brincar com essa história da supremacia ariana” - Eva Braun, ao sair de uma imobiliária de bunkers para férias.

“O senhor Salazar não é um ditador. É do feitio dele gostar de ter a casa arrumada e o jantar pronto a horas” - Empregada do dito senhor, antes de ir levar as cadeiras a estofar.


Como vêem, a história ensina-nos que, onde uns viram defeitos, outros viram feitios, tornando a desculpabilização uma moda recorrente. Sendo eu uma referência para muitos jovens que me seguem (ainda hoje contei três no semáforo), evito por isso desculpabilizar-me com o feitio. Veja-se o caso do jantar de ontem, que me juntou a duas pessoas bem formadas.

Jovem bem formada – Bem, teria que dizer que o meu maior defeito é a ingenuidade, por acreditar sempre no melhor das coisas. Se calhar, ser optimista em demasia é um defeito, tendo em conta aquilo que anda à nossa volta.

Não tão jovem, mas igualmente bem formado – Epá, nem gosto muito de falar em defeitos. Custa-me assumir as minhas fraquezas e se calhar isso já é defeito. Isso e ser tão conciliador, amocho com muita coisa só por querer ver toda a gente mais satisfeita.

Rio-me. Eles olham para mim e esperam uma resposta. Bem podem esperar, estou a comer uma maçã assada e não tenho vergonha de o assumir. Além disso, uns segundos de interiorização fazem sempre bem. Limpo os beiços.

- Vocês são boas pessoas, eu sei – (curiosamente, não sorriem) – mas isto parecia uma entrevista de emprego, com o velho truque de vamos usar defeitos que possam parecer qualidades para mostrar que temos falhas, mas somos feitos de bom material, quando na realidade somos é manhosos.

Não gosto da forma como agaram os talheres com mais força. Podem ser de sobremesa mas ainda aleijam.

- Eu sou preguiçoso, mas não o pareço. Eu sou crítico em excesso, mas passo bem por perfeccionista. Eu posso ser demasiado racional, mas aparentar apenas ser ponderado. Sou hiper-irónico, mas ao longe pareço apenas bem humorado. Sou picuínhas, casmurro e teimoso, mas basta definir-me como empenhado. Eu sou...

Interrompido por duas pessoas bem formadas, que alternam estilo dupla sertaneja.

- Manipulador
- Pouco tolerante
- Arrogante
- Demasiado sarcástico
- Um bocado troll
- Mau perdedor...

Sorrio, com ar condescendente. É claramente um engano, tinha a ideia que estava a jantar com pessoas bem formadas. Agora, também já se riem.

- Estamos a brincar contigo pá. É claro que não és assim.

Aceno com a cabeça. Eles não têm culpa de ser cínicos e desprezíveis. É do feitio deles.

3 comentários:

  1. Eu acho que és só parvo.
    Claro que dentro desta categoria cabe o - Manipulador parvo pouco tolerante, parvo arrogante, parvo demasiado sarcástico, parvo um bocado trolle parvo mau perdedor.
    Contudo para mim és um mero parvo

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  2. Se fossem mesmo cínicos de verdade não se teriam acobardado com esse fraquinho "estamos a brincar". Toda a gente sabe que isso só reafirma a premissa anteriormente exposta. :p

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  3. Isto é, claramente, fruto da tua imaginação porque toda a gente sabe que tu, para além de não teres feitio para ter amigos, tens como principal defeito não te dares com pessoas bem formadas.

    és um wantlyt

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