5.4.10

Crime no vale da secretária

(consulte o post anterior, para verificar que isto não se deve a falta de cuidados clínicos)

A secretária estava toda em alvoroço. Havia quem andasse aos papeis, que não eram poucos, mas o teclado tentava colocar ordem no tampo.

- Meus amigos - teclou ele ordeiramente – alguém agrafou aquelas duas folhas a sangue frio e ninguém sai daqui até se descobrir quem foi. Afinal de contas, SOMOS OBJECTOS A SÉRIO OU SOMOS RATOS?

- Isso é comigo? – Sempre susceptível neste tipo de afirmações, o rato deu dois clicks de fúria, pronto a abrir uma discussão.

- Desculpa, às vezes com o caps lock entusiasmo-me, foi sem intenção. – O teclado deu um Enter com calma, para amenizar.

O rato acalmou-se por instantes, mas a verdade é que continuava tudo muito nervoso. O telemóvel não parava de tremer e a caixa dos óculos até lhe ofereceu uma flanela para ele se aquecer. O telemóvel rejeitou a oferta, mas também a chamada que era na verdade o que o fazia vibrar.

- Podemos não ver muita coisa – avançaram os óculos escuros – mas já somos muito viajados e sabemos que isto não foi um acaso. Aquelas folhas foram agrafadas assim por uma razão que nos está a escapar. Se calhar fizeram-nas pagar por alguma coisa...

A carteira não se conteve – Tu irritas-me com essa conversa, primeiro com esse tique de falar de ti próprio no plural, depois com essa insinuação do pagar. Sabes bem, especialmente depois de todas as vezes que saímos juntos, que quem paga sempre sou eu. E, se te aparo os golpes as vezes todas em que ficas em cima da mesa a destilar estilinho e cagança, desta vez não sou eu a pagar por nada.

- Esse discurso foi um luxo, carteira – o post it não perdia ocasião para deixar a sua marca – posso tirar notas?

A carteira avançou para ele e teve de ser o guardanapo a separá-los.
- Calma, aqui ninguém se vai limpar de culpas, até porque se já o tivessem feito eu estaria todo sujo. Vamos lá ver se recapitulamos as coisas. Caneta, caderno, o que dizem os vossos apontamentos?

- Oh, as baboseiras do costume – o caderno já tinha visto tantas coisas que pouco o surpreendia – Umas quantas ideias sem nexo, um esforço de programação organizada que não leva a lado nenhum, jantar amanhã às 21h, ligar ao Rod por causa do fim de semana. Queres que vire a página?

- Não fala nada de agrafadelas suspeitas? – o guardanapo desdobrava-se em atenções, já que percebia que a caneta estava a roer-se para intervir.

- Bem... – a caneta parecia sempre incapaz de dizer tudo de uma vez só – Eu não queria fazer correr muita tinta com o assunto, mas vi uns rabiscos numa das folhas agrafadas que falava qualquer coisa com o agrafador precisar de agrafos...

(continua)

3 comentários:

  1. Com esta história toda os recibos das minhas despesas piraram-se. Se as vires por ai avisa, porque quem fica a arder sou eu e os cigarros.

    ResponderEliminar
  2. É então que entra o pacote de açúcar...o ataque de hipoglicémia esvai-se e Mak percebe que teve uma alucinação.

    ResponderEliminar
  3. OMG!! Esta adrenalina que que está a consumir! :o

    Vai demorar muito, o "continua"? Vai, vai, vai?

    Djizas, já não me sentia assim desde que vi aquele filme, The Departed.

    Arre!

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.