6.4.10

Crime no vale da secretária (conclusão)

(Não duvide, o autor desta prosa é mesmo alucinado. Mas, por descargo de consciência, leia os dois posts anteriores. Ou então faça a espargata, se for mais fácil).

- Para ti é tão fácil inventar histórias, não é minha cabra? – o agrafador não se conteve, quase soltando um agrafo – E o meu nome já cá faltava não é verdade. Mas, não é preciso ser cientista da NASA para perceber que eu fui usado nesta história.

- Ninguém te está a acusar de nada – o saco de papel tinha bom fundo e gostava de o mostrar – Todos temos o nosso papel nesta história. O teu é agrafar...

- Desculpa, mas eu sei como é – o agrafador tinha um tom metálico e frio na sua voz – aparecem folhas agrafadas e o culpado é o agrafador. É óbvio que os agrafos são meus, mas alguém me pressionou para que isto acontecesse. E também é óbvio que se aproximou de mim pelas costas, para eu não ter hipóteses de ver quem era.

- Gostava de dizer algo que é capaz de ajudar.

Todos se calaram, voltando-se para o pacote de açúcar. Parecia amarelo, mas feliz por ter a atenção dos companheiros.

- Vá, desembucha – os cabos dos headphones não tinham muita paciência para quem lhes dava música.

O pacote de açúcar pigarreou, aclarando a voz, antes de dizer:

- Um dia juntamos as escovas de dentes. Hoje é o dia.

Silêncio. O pacote tinha agora um ar sonhador.

- Mas tu és atrasado mental ou quê? – o agrafador já estava pelos arames – que merda foi essa com escova de dentes? O que é que isso tem a ver com alguma coisa do que se passou?

O pacote de açúcar chorava agora. Era muito sensível.

- Ah, meu caro agrafador – a garrafa de água vazia interviu com leveza – aí é que tu te enganas. Eu e a garrafa cheia estamos habituadas a situações em qua alguém mete água e o pacote de açúcar acabou de fazer isso.

E-e-e-e-u-u? – O pacote estava nitidamente agitado.

- Sim, tu – a voz da garrafa cheia tinha outro peso – Sabias bem que a relação entre aquelas folhas não estava bem e tu querias à força juntá-las.

- Mas há algum mal em querer ver folhas felizes? – o pacote estava agora na defensiva.

A garrafa continuou como se não o ouvisse. – Quando aquelas folhas lhe disseram para não se meter na vida delas e que fosse encontrar um café que o aturasse, este pacote rancoroso não aguentou. Apanhou o agrafador pelas costas e desferiu dois agrafos sem dó nem piedade, deixando as folhas mortas, mas juntas para sempre.

O pacote baixou os olhos – Eu só queria vê-los juntos. Para sempre.

- Nunca confiei nestes pacotes – concluiu o telemóvel ainda a tremer de SMS – sempre moralistas, sempre com sentenças, a quererem passar por inspiradores, quando na realidade acabam sempre vazios.

Os habitantes do tampo sabiam que a história iria chegar ao Grande Desarrumador, como chamavam ao ser que punha e dispunha da sua existência. E, quando assim fosse, não restaria ao pacote de açúcar senão acabar os seus dias na copa, sujeito a ser consumido por uma matrafona qualquer ou, se tivesse sorte, rasgando-se por acidente. O teclado sorriu, era altura de colocar um ponto final no assunto.

9 comentários:

  1. E eu pensava mesmo que só aconteciam estas coisas na minha secretária, afinal, acho que é geral...

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  2. Eu aconselhava-te a meter mais tabaco nisso que andas a fumar

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  3. @ Vera - Isto é apenas o que eu posso contar, porque tenho uma tesoura a vigiar-me agora e não posso falar.

    @ Miss - Imagina o que eu não poupo, por nem sequer ter que fumar para alucinar isto tudo...

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  4. O autor desta prosa é mesmo, mesmo alucinado mas muito engraçado.;)

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  5. Bates mesmo mesmo mal... ou então é só demasiado tempo livre. Mas deste-me a melhor gargalhada do dia! Para quando uma história em volta do tanque da loiça, ou do tambor da máquina de lavar roupa (quiçá a própria lavandaria)?
    Adorei

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  6. Nada de desperdiçar tempo, até porque preciso dele para não fazer nada. Daí que estes posts sejam feitos no menor tempo possível, com a maior alucinação possível.

    É mais ou menos o espaço entre tomar o comprimido e ele começar a fazer efeito.

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  7. Só tenho uma coisinha a dizer: genial! :)

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  8. Isto dava uma curta-metragem...

    Já te vejo no festival de Cannes, Mak!

    Aiquimbveija!

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