26.3.10

A vida entre duas fatias de pão


Para muita gente, a vida é feita de episódios com encontros e desencontros, aproximações e afastamentos, avanços e recuos. A minha tem largos capítulos de histórias com sandes.

Algures no traçar do meu destino, ficou escrito (será conveniente ler esta parte com voz grossa e profunda): “Terás sempre muito para contar jovem e, ao longo da tua existência cruzar-te-às por diversas vezes com duas fatias de pão recheadas com algo para te lembrar disso”.

E assim foi.

Reza a lenda que um dia me fui encontrar bastante cedo com alguém numa zona pouco recomendável da cidade. Como o local do encontro era apenas uma zona de transição para irmos para outro lugar, esperei na rua. Visto o pequeno almoço não ter sido suficiente para aplacar um jovem do meu porte, dei por mim com uma certa fome enquanto esperava. Não tendo aprendido com este episódio, resolvi entrar no único café tascoso que vi aberto nas redondezas.

Os primeiros passos não auguravam nada de bom, em parte porque foram extremamente pegajosos. O facto de serem dados depois de passar uma cortina de franjas que tornava difícil distinguir sujidade de sombra também não ajudou.
Ninguém à vista e nem sequer um “Facha vôr” a medo resultou.
Resolvi tossir alto.

Uma porta por detrás do balcão abriu-se e foi assim que a conheci. Pouco mais de metro e meio, frondosa permanente loira com algumas raízes pintadas de preto, formas misteriosas em que era difícil perceber onde começava uma parte do corpo e acabava outra. A cintar essas mesmas formas, uma bata de trazer por casa com o elan que só as florzinhas estampadas e as nódoas conseguem conferir. Ia jurar que ainda vinha a ajeitar a cinta.

A sua voz fez-me sonhar, mais precisavamente com não ter de estar ali.

“’Tão, o que é?”

“Bom dia....olhe tem sandes de queijo?”

“Não.” Se o pão fosse tão seco como a resposta, podia desistir já.

“Ah... e de fiambre?”

“Também não” Já vi gárgulas com ar mais amistoso.

Nesta altura eu devia ter saído, mas não, achei que podia haver esperança.

“Pronto, sendo assim, o que é que tem que se coma?”

A disposição mudou e vi surgir aquilo que podia ser um sorriso, pelo meio da ausência de alguns dentes e a podridão de outros. Ajeitou novamente a cinta e a bata e isso arrepiou-me.

“Se quiseres, podes comer-me a mim”. E riu-se, com um riso de bruxa da casinha de chocolate.

E eu fiquei sem resposta, o que é raro em mim. Também fiquei sem pinga de sangue, mas isso não me preocupou muito. Meio sorriso amarelo, rotação rápida a 180 graus e corrida em passo acelerado para o exterior. O riso ainda ecoava na minha cabeça.

Durante o resto da manhã não falei muito. Também não tive muita fome.

18 comentários:

  1. MUUUUUUUUUUUUAAAAAAH AAAAAHHHH AAAAHHHHHH AAAAAAAAAAAHHHH!!! (riso maquiavélico!!)

    Devias ter pedido uma coisa de mach... tipo sandes de leitão... ou de panado!

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  2. Há que tirar o chapéu à senhora que ajeita a cinta. Admitiu ter mais fome que tu e isso são resmas de pontos a favor dela.

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  3. Que "senhora" tão directa!eh eh! E que sexy que ela devia ser!!:-) Bj

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  4. Tinhas resolvido logo a questão se pedisses uma sandes de "coirato"... Não devia andar muito longe do que te ofereceu!

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  5. Não vamos ofender os porcos com essas comparações hein :p

    E, acrescento, a senhora (termo usado no sentido lato) não marcou pontos. Deixou foi cicatrizes mentais profundas :D

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  6. Eu pensava que o facto de ser directa fazia dela uma gaja sexy. Não? Vocês são é difíceis de entender...

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  7. Se fosse uma jeitosa a fazer-te uma proposta dessas se calhar o final da história era diferente!:-) Só porque a senhora estava longe de ser uma beleza já é uma ordinareca! Coitada!eh eh!

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  8. @ pipoca -Em relação ao denominador de classe "vocês" Se tudo fosse fácil de entender, não se tinham escrito romances tão bons, nem feito filmes tão arrebatadores :p
    Em relação ao episódio em si, vou recorrer a uma metáfora que gosto sobremaneira:

    "Um porco, por usar óculos, não passa a ser doutor".


    @ Rita - De facto, há uma certa escassez de mulheres deslumbrantes atrás do balcão em tascas de zonas degredadas de Lisboa....

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  9. Estás a ser preconceituoso:-) Também não era de esperar que alguém como tu, um rapazote culto e inteligente ( e quiçá jeitoso)entrasse numa tasca! Ora porque é que não pode haver mulheres com um um aspecto decente numa tasca? ès mesmo mau!

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  10. Ninguém a pode acusar de não ser directa.

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  11. Se a gaja fosse podre de boa e igualmente directa tinhas achado piada. Continuo a achar que, e sem criticar teres fugido a sete pés, que ela marcou pontos, ou não terias escrito este ponto só po ela ser feia. O ter atitude ninguém lhe tira..

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  12. Se se parecesse mais com um filme de terror, não tinhas conseguido rodar os calcanhares e fugir... Muahhhhhahahahaha! :P

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  13. Se calhar era uma empregada da tasca, feia mas com sentido de humor :)
    Ou, pode ter sido amor a 1ª vista despertaste-lhe a vontade de ajeitar a cinta ! deverias sentir-te lisonjeado :)

    hehehe

    Salve-se quem puder!

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  14. Partindo do princípio que nada disto é ficcionado ;), a senhora marcou pontos, pelo inusitado da situação e por me deixar sem resposta (isso sim, o mais difícil :D).

    Fosse feia ou top model, eu ficaria sempre sem resposta pela abordagem directa, fosse ela no gozo ou não. De facto, os homens têm sempre mais dificuldade de processamento em situações que são como que opostas ao tradicional...

    No doubt about that.

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  15. Ah! Tu és dos esquisitinhos que diz que não gosta sem provar? :D

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  16. Nunca me atirei a um poço, mas tenho a sensação que não iria desfrutar muito qd chegasse lá abaixo :)

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