31.3.10

Pastéis de histórias de Belém


Para muita gente, os Pastéis de Belém estão para a gula, tal como Fátima está para o catolicismo nacional. De famílias em peregrinação, a gente que matará pelo seu cartucho de pastéis ou magotes de turistas entusiasmado, não falta quem veja nata, na massa folhada e no açucar e canela um momento divino. Ora eu, especialista na arte de desmanchar prazeres, tendo crescido a dez minutos a pé dos Pastéis, já não me excito com isso. É que há gente que não come na vida inteira os pastéis que eu comi até aos dez anos.

Tal não implica que não tenha uma boa história com Pastéis, como cromo de renome que sou. Na minha rua, havia um casal mais idoso, cujo marido era daqueles senhores que adora passar o dia a mexer no carro sem razão aparente. Sua esposa, infelizmente quase cega, ficava muitas vezes sentada no carro, enquanto ele operava o motor e a bagageira pela enésima vez. Certo dia, esperava eu por um amigo em frente a um café da rua, quando reparei no carro estacionado, com a senhora lá dentro e o homem cá fora.

Oiço a senhora “Ai, apetecia-me tanto um pastelinho de Belém. Bem podíamos passar por lá”. Não viu ela, mas vi eu o ar de desagrado do senhor que, suspirando, lá entrou no carro. Ligou o motor, esteve perto de dois minutos a fazer aceleradelas, ligou os piscas e deixou o carro ligado em ponto morto, tudo isto sem sair do sítio. Abre a porta, sai e vira-se para ela:

Pronto, já cá estamos. Se alguém perguntar, diz que eu volto já.

Percorre os dois metros do passeio e entra no café. Dois minutos depois sai, com um pires com dois pastéis de nata. Entrega-os à sua senhora, dizendo: “Estás com sorte, dois pastelinhos de Belém quentinhos e tudo”. E assim testemunhei o milagre dos pastéis de Belém que não o eram mas passaram a ser. Também aí aprendi uma ou duas coisas sobre a maleabilidade da verdade.

Para que não fiquem aí a remoer sobre as amarguras da vida e a minha faceta de escroque, deixo-vos duas pérolas de sabedoria local. Se são mesmo devotos a sério dos pastéis e, ainda por cima, caem no erro de lá ir parar ao fim de semana, experimentem comprar a vossa dose e irem comê-la para a Ermida de São Jerónimo. A vista é um mimo e, apesar de ser a cinco minutos de carro, é desconhecido da maralha em geral. Não se recomendam visitas nocturnas a não ser que não sejam pastéis o que vão lá comer. Se não gostam desses pastéis, mas são arrastados na maré até Belém, esperimentem os de cerveja. Não dão para afogar mágoas, mas sempre são diferentes.

Caso já conheçam isto tudo, deixem de snobismos e mostrem-se agradecidos à mesma.

13 comentários:

  1. Só comi dois na minha vida inteira. Não é triste? Uma pessoa chegar aos trinta e tal anos e só ter comido dois pastelinhos de Belém? Isto é coisa para deprimir o mais alegre dos seres.
    Quando voltar a Lisboa, vou com certeza lembrar-me deste post. Tenciono procurar os ditos e engolir uns bons dez de uma assentada. Vai ter de ser assim. Não há tempo a perder... afinal, ainda só comi dois durante a minha vida toda. Já tinha dito?

    *vai-se embora a chorar*

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  2. Essa dica da Ermida vem tarde...
    O ano passado, pelo Verão, passei uma tarde com uma Outra Besta Qualquer à procura de uma camisola do Belém pra dar a um amigo entrevadinho que mora pró norte e que por lá não encontra camisolas do seu clube de eleição (o palhaço não podia ser do SCP ou do SLB como pessoas normais?).
    Para fazer tempo enquanto o roupeiro da equipa de futebol amarfanhava a dita num saco preto do lixo fomos aos pastéis mas comemo-los à frente da Loja Azul. A vista é boa mas a Ermida deve ser melhor.

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  3. @ginger - Dez de uma vez? Mais vale saboreá-los calmamente, caso contrário mais do que recuperar o tempo perdido cheira-me a uma experiência com travo amargo.

    @jovem bestial - Os mistérios de belém não se esgotam no Estádio do Restelo (ao contrário das camisolas, essas sim facilmente esgotáveis...)

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  4. se fosses um gajo como deve ser mandavas-me uma caixinha de 6 que aqui o plebeu do século XVII nunca cheirou (quanto mais comeu) essas coisas de que falas e que estão para os lados de Belém...

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  5. Assim de repente até senti o cheirinho dos pastéis quentinhos acabados de fazer ... Mas desde há anos expatriada, não abundam as ocasiões em que posso saborear um pastel de nata de Belém!

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  6. Fome e lágrimas, eis o prato do dia nesta caixa de comentários.

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  7. Isto parece aquelas reportagens da TVI sobre miúdos de Sernancelhe que nunca viram o mar. Mas vocês só vêm a Lisboa para tratar do BI?

    De tempos a tempos lá estou para aviar pelo menos 2 pasteis cobertos de canela e açucar. Tá inscrito na lista dos meus pequenos prazeres da vida.

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  8. Creio que dois é a dose mínima...

    A não ser que sejas um anão de Sernancelhe.

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  9. Tb comi poucos pastéis de Belém em 32 anos de vida. Quando vivi em Lisboa estava perto da Gulbenkian, muito longe de tais delícias. E ainda bem, senão tinha voltado para o Alentejo bem mais pesadinha!! Bj:-)

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  10. Caríssimo Mak,

    Isto não se faz! Agora que fui lembrada do raio dos pastéis lá tenho eu que ir para a fila comprar uma caixa. E depois comê-la. E depois viver com os pasteis nas ancas! É o anti-serviço público.

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  11. Mak, esse local é quase tão fixe como o dos moinhos ali perto ;)

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  12. eu não sou da zona mas tenho por aí família.. quando era pequena, fui aí passar uma semana e adoeci logo no primeiro dia. compraram-me pastéis de belém mas eu não estava capaz de nada! quando melhorei, já não havia, pois claro.

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  13. eu vou à chique de belém mais à frente. pastéis igualmente bons e muito menos fila :)

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