23.3.10

O homem que se conhecia bem demais



Saiu à rua quando não devia. Já não era cedo, mas era supersticioso e se alguma mulher lhe sorria antes dele pôr os pés na rua, nesse dia o melhor era nem sair. Talvez por isso acordasse muitas vezes sozinho.
O problema é que ele não percebeu se ela sorriu. No elevador. Quando desciam, houve um momento em que pareceu que ela sorria, mas o momento foi mais rápido do que ele. Baixou os olhos, ela não era de confiança, tinha pinta de ser daquelas que sorriam com facilidade. E ele até gostava de mulheres que sorriam, mas nunca antes de sair de casa.

Na dúvida, saiu. Cada um para seu lado.
Foi a pé. Como se conhecia bem, sabia que assim não ia pensar naquele sorriso que podia não ter sido. Enquanto pensava naquilo em que não ia ter de pensar por ir a pé, meteu-se por uma rua sem olhar.

Era uma rua sombria, sem movimento. Parecia boa para assaltos e isso era coisa que não lhe agradava. Nunca tinha sido assaltado, tirando por dúvidas e pelas finanças, mas tal não era o caso. Ali, era uma rua onde podiam perfeitamente haver assaltos a sério.
A rua parecia não acabar, tal como os seus receios. Começava a ouvir barulhos em cada recanto e cada entrada de prédio parecia ocultar um tipo à espera de o assaltar. Como se conhecia bem, sabia que a tendência era para piorar e que estava algo para acontecer e não era bom.

Pensou em voltar para trás, mas rapidamente descartou a ideia. Sabia bem que, mal voltasse as costas, aumentava a probabilidade de ser assaltado. Não sabia bem porque pensava assim, mas na dúvida, resolveu continuar em frente. Os prédios pareciam estreitar a cada passo e estava agora a suar em bica. Para além deste assunto, também ele começava a cheirar mal.

Cada vez mais tenso, decidiu que estava na hora de pôr um ponto final nesta história. E, como se conhecia bem, sabia que só havia uma solução – Acabar com a incerteza e assaltar-se a si próprio.
Começou por surpreender-se imediatamente com um puxão na própria gravata. Desequilibrou-se, mas reagiu pontapeando a sua perna. Caiu, chamando nomes a si próprio.
Já no chão, com o braço direito no seu peito, empurrou-se contra a parede. O braço esquerdo tentava em vão soltar-se. Com uma chapada, enervou-se, mas ganhou a sua própria atenção.

“A carteira e o telemóvel” pediu a si mesmo. “Epá, fôdasse, só a mim” respondeu baixinho. Aplicou mais uma chapada em si, para aprender a estar calado. “Vá, vá, saca lá isso, não me fôdas”. Desagradado com o seu próprio tom e algo assustado, tirou a medo a carteira e o telemóvel.
“Isso”, disse com um sorriso porco que não conhecia, apesar de ser seu. E então desferiu na sua cara um soco no nariz. Foi outra vez ao chão, a sangrar, gritando ainda “Filho da puta, eu um dia apanho-te”. Depois desatou a fugir de si mesmo.

Como se conhecia muito bem, voltou para casa a pensar que não devia ter saído. E tudo por culpa do sorriso de uma mulher.

2 comentários:

  1. Auto-murro é muito mau! :o

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  2. Para uma inspiração tão fantástica imagino que o sorriso da mulher deve ter sido sublime.

    Os meus sinceros parabéns por esta pequena maravilha!

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