12.3.10

O deus das portas

Tudo começou quando não o deixaram entrar. Era um miúdo franzino e eles não o deixaram entrar na equipa da escola. “Não tens cabedal para isto, vai lá comer os teus cereais. Isto não é para meninos”.

Não era para meninos...eles iam ver.

O ginásio logo se tornou o seu melhor amigo. Máquinas, pesos, dores, suores e esforço eram a base da sua amizade. Havia outros lá, mas ele não ligava. De alto e magro, passou à categoria bisonte, depois de muito trabalho, proteínas e dedicação. “Raging Bull” era o que lhe chamavam os outros, quando pensavam que ele não estava a ouvir. Mas estava. E gostava, não porque conhecesse o filme, mas porque lhe parecia imponente, daquele tipo de imponência a que não se fecham portas.

Um dia abordaram-no, à saída do balneário. “Ouve lá, com esse cabedal, não queres dar uma ajudinha na porta de uma disco? Não te metes em drogas nem essas merdas pois não?” Não se metia. A oferta parecia-lhe irreal, ao mesmo tempo sedutora. Nunca tinha pensado no queria ser, tirando que queria ser forte. E agora ia poder decidir quem entrava ou não. Agora eles iam ver.

A sua voz tranquila aceitou o trabalho. O corpo gigante foi atrás. “Vê se vens bem vestido, nada de calças de ganga”. Ele foi e levou consigo uma expressão de marca. Era uma espécie de sorriso que, consoante quem o via tanto parecia afável, como parecia um esgar de raiva mal contido. Era melhor que qualquer dress code.
Durante meses tornou-se o guardião, o detentor da chave de acesso à disco. Sabia de cor quem eram os amigos do chefe e, especialmente, as amigas. A esse grupo dispensava apenas um aceno de cabeça como troco ao “Boa Noite” que lhe ofereciam. Não lhe interessavam.

Interessavam-lhe os comuns. Aqueles sobre os quais exercia o seu maior poder. Gajos que, do nada, eram os seus melhores amigos. Mulheres de toilette aprumada que gostavam de lhe falar de perto, deixá-lo cheirar o seu perfume e, ocasionalmente, lhe punham a mão no braço tratando-o por querido e fazendo beicinho.
“Lamento, terão que esperar”. Tal como uma senha mágica, essas palavras lavavam a onda de amizade, charme e glamour com que o banhavam. Dez minutos à espera e logo ouvia em surdina “Quem é que este anormal pensa que é?”. E lá vinha o seu sorriso.
Era inteligente o suficiente para não criar conflitos e deixar passar os habituais e os gastadores em número suficiente para não ter problemas com a casa. Todos os outros eram o seu rebanho e ele decidia onde pastavam.

Não havia corpo voluptuoso, nota acenada ou conversa fiada que o demovesse. A decisão do deus das portas era soberana. Mas, os envergonhados, os “ratinhos” como ele os chamava, contavam com a sua simpatia. Não raras vezes ele dizia:

“Aí atrás, por favor”. O braço enorme separava as águas. E, à primeira, lá vinha uma tipa dengosa ou um pintas com mais lata. O dedo dizia que não e o rapaz e a rapariga discretos, que nunca pensavam que era com eles, lá vinham a medo. “Boa Noite” e o sorriso, ainda que intimidador, abria-lhes as portas do seu reino.

Até que um dia eles apareceram. Os da escola. E da equipa na qual ele não podia entrar. Todos juntos, seriam talvez cinco. Talvez não o conhecessem.

“Boa Noite”

Conheceram-no.

“Olha quem é ele!!” aquela voz permanecia irritante “Bem, tens comido esses cereais como eu te disse”.

“Olha, somos estes e queremos entrar. Tudo na boa?”

O resto da fila parecia não existir. Permaneceu imóvel, como uma rocha.

2 comentários:

  1. Acho muito bem que não os deixe entrar. Gente má não entra.

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  2. Um texto comovente e a puxar para o gentil gigante...

    Mas não sei se os porteiros das discotecas são assim tão sensíveis no deixar entrar os "ratinhos". Parece-me que os "corpos voluptuosos" são bem mais eficazes ;)

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