16.3.10

O Deus das portas (conclusão)

Caso não tenha lido os dois posts anteriores, as linhas que se seguem poderão parecer-lhe absurdas caro leitor. Caso tenha lido, pode suceder-lhe exactamente o mesmo. Tal não se deve à ausência de medicação, pelo menos da sua parte, mas é sim sinónimo do chavascal que é apanágio deste espaço.

“Olha, somos estes e queremos entrar. Tudo na boa?”

O resto da fila parecia não existir. Permaneceu imóvel, como uma rocha.

De repente, sorriu como só ele sabia sorrir. Com um gesto pareceu abrir-lhes passagem com um braço. Erro crasso do primeiro que avançou, pois o braço ganhou balanço e ouviu-se um maxilar a estalar, como se fosse de borracha.

Eis quando tudo começou a fazer sentido. Ao deixar de o ter.

Saltaram dois ninjas da fila e pareceram vir auxiliar aquele grupinho maléfico, que se dividia agora entre dois que ajudavam o que já estava estendido e dois que tentavam perceber se avançar era boa ideia.

Espera aí, ninjas? Do alto dos seus músculos, o porteiro pensou estar a alucinar ou, a sonhar. Mas os sonhos não deixam marcas e os dois pontapés que levou no estômago fizeram-no. No entanto, um dos ninjas escorregou e a força bruta do porteiro fê-lo pagar por isso, deixando-lhe um braço preso por arames depois de lhe bater repetidamente com ele no passeio. Desnorteado, o outro ninja afastou-se para a rua principal, sendo colhido por um carro dos bombeiros que passava a alta velocidade. Os gritos aumentavam à volta e o pânico era geral.

Ouviu-se um som oco. Metal a bater em pele. O porteiro voltou-se, com as costas a latejar. Um dos engraçadinhos tinha-lhe dado com um objecto comprido de metal. Outro aproximava-se com uma faca. O passado é aqui bem usado, porque a faca ficou sem par, já que o seu acompanhante foi colhido com um pontapé no estômago que o fez dar um mortal de costas e cair com os queixos na calçada.

Toda a gente fugia. O porteiro, esse rugia. Não trocava este momento por nada da sua vida. Ele e o outro, frente a frente. O outro estava em desvantagem, só tinha o pedaço de metal na mão. Ele tinha o seu corpo. O confronto foi rápido.
Conforme o outro avançou com a sua arma improvisada, o porteiro recuou. Mas só o tempo suficiente para deixá-lo tentar brandir o pedaço de metal. A meio caminho, a mão do porteiro interceptou a sua e com uma pancada seca, ouviu-se algo a ceder. O ferro caiu no chão. O porteiro agarrou-o. Cego de raiva e dor, o outro lançou-se para cima dele. O ferro beijou-o em cheio na cara. Um líquido saltou, conforme o corpo caiu no chão. As coisas não acabavam aqui. Uma e outra vez, o porteiro desferiu golpes com o ferro, salpicando-se cada vez mais daquela mistela. Finalmente parou.

Só havia silêncio na rua. Fechou os olhos e passou as mãos pela cara. O líquido salpicado era-lhe bastante familiar. Sangue? Não, não era sangue. Mas então....

Leite???

Ouviu um grito.

“João, que porcaria é esta? O leite todo entornado, bonecos espalhados por tudo quanto é sítio. Olha, este ninja já tem um braço estragado. E a colher, está a fazer o quê no chão?”

Tentou fazer o seu sorriso especial.

“E não te estejas a rir, que ainda tens idade para levar umas palmadas”

Não funcionou.

“Vá, acaba lá de comer os cereais e vê se estás pronto daqui a cinco minutos. Não é hoje que tens os treinos para ver se entras para a equipa da escola?”

“É, mãe.”

“Então vê lá se te esforças, para não apareceres aqui a chorar como quando não foste escolhido para fazer de pirata na festa da escola”.

Suspirou. Um dia ia ser ele a decidir quem entrava e nas suas brincadeiras a sua mãe não punha os pés de certeza.

3 comentários:

  1. Excelente final...muito Calvin&Hobbes!!!


    Aplausos e gritos ovacionais da plateia "BIS! BIS! BIS"

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  2. Ohhh, eu que estava a achar que o primeiro post já tinha acabado (assim meio em suspenso, mas há fins para todos os gostos e quem escolhe onde parar é o autor).

    Afinal o final estava aqui (não resisti ao "afinal o final" :P).

    Gostei!

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