30.3.10

A mulher que esperava e desesperava



Junto à estação dos barcos, uma mulher esperava. O sol de fim de tarde aquecia-lhe o rosto e fazia esquecer, entre outras coisas, o vento fresco que já se fazia sentir. Olhando...

“Olha, desculpa lá, vou ter que esperar muito mais tempo? Custa-me horrores esta coisa da espera, ainda por cima sem saber bem para quê...”

Se não me interromperes, chego lá mais depressa. Que mania têm as minhas personagens de começar com histórias.

“Pronto, também não se pode dizer nada, pareces logo uma virgem ofendida. Mas, visto que já interrompemos, podias pôr-me um casaquinho ou coisa parecida? É que isto do Sol de fim de tarde é muito bonito de descrever, mas este vento ainda incomoda....”

Adiante. Olhando em volta, a mulher puxou para si o seu casaco de bom corte (satisfeita?), como se de repente sentisse um arrepio. Voltou-se, mesmo a tempo de ver uma jovem esbelta, que corria elegantemente à beira rio.

“Muito bonito, realmente.”

Importas-te que eu continue o texto?

“Por acaso importo-me. Então eu, que sou a protagonista, estou aqui especada à espera, vá lá consegui um casaquinho por favor e nem uma palavra sobre os meus atributos. Uma tipa qualquer passa para aqui a correr, só porque trazia corpinho à mostra é logo esbelta e elegante. E eu sou o quê, um calhau com olhos?”

Não te sabia assim tão melindrada.

“Não te faças de parvo. Foste tu que me criaste, sabes bem que não me ia ficar”.

Aquela tipa não significa nada. É paisagem apenas.

“Paisagem esbelta e elegante”.

Sim, está bem. Vamos tratar disso, mas espera mais um pouco, ok?

“Não me provoques...”

Conforme aquele vulto se afastava em corrida, a mulher sorriu. Sabia o que era ser observada por outros, sabia também deixar-se ser observada e tinha aquele toque de fogo, próprio das mulheres que combinam beleza e inteligência. (serve?)

“O toque de fogo está a apagar-se....Deve ser do frio que está nesta porcaria de estação. Não podia ser um hotel ou um bar trendy. Não, calhou-me um lírico...”

Bem, parece-me que não me entendo contigo. É porque tens frio, é porque não te gabo, se te gabo é porque a história não avança. Ainda por cima que agora que vinha aí o rapaz moreno de casaco com capuz.

“O quê, aquele que me tinhas falado. O do sorriso que move montanhas?”

Esse mesmo.

“Ok, se calhar aguenta-se o frio mais um bocadinho. Ele demora?”

Vem já ali ao fundo.
“Certo. Despacha-te, vá, vá, não enroles”.

Foi nesse instante que a mulher reparou nele. Parecia-lhe familiar, talvez porque aquele rapaz moreno se aproximasse com um sorriso capaz de mover montanhas. Ela manteve um ar expectante. O rapaz sentou-se ao seu lado e, aproximando-se com um perfume suave, disse-lhe ao ouvido – “Acorda”.

De repente, ela acordou desnorteada. O mesmo sonho, pelo quarto dia consecutivo e...

“Não, diz-me que tu não me fizeste isto. Que merda é esta??? Então o rapaz alguma vez ia dizer acorda e isto era um sonho??? És, és, aiii que raiva!”

Já percebeste o que acontece quando as personagens se armam em espertas? Quando estragam o mood de uma história?

“O mood? Eu dou-te o mood. Só podes estar a gozar comigo. Este sonho é trafulhice tua, admite. Eu ali, com o rapaz, fim de tarde de postal, romance no ar... és um traste e digo mai

A mulher que esperava, de repente ficou afónica, sentada na cama, gesticulando e fazendo alguns sinais ofensivos com as mãos. Havia raiva no seu olhar, mas havia também paz na cabeça do seu autor.

8 comentários:

  1. As mulheres nunca estão satisfeitas com nada!

    ResponderEliminar
  2. Ainda assim foste bem simpático... Eu a meio do post já tinha enviado o gang do palhaço!

    ResponderEliminar
  3. Coitada, só queria uma história de sucesso e ser uma personagem cheia de emoções!

    ResponderEliminar
  4. Que sorte tive eu, ao descobrir hoje este seu cantinho. Fiz uma pausa (ao escrever o comentário) para lhe dizer que ainda não consegui parar de ler. Parabéns pela escrita e pela originalidade. Gostei imenso.

    ResponderEliminar
  5. Uau, visitantes a quem não seja pedido pagar para voltarem. Agradeço a referência :)

    ResponderEliminar
  6. Ora ainda bem que puxas o assunto!
    Tou farto de vir aqui e tu ainda não cumpriste a tua parte do acordo.
    Onde está o meu milhão de xelins somalis?
    E o numero de telefone da tua irmã? (enganaste-te a dar-me o número - é de uma loja de congelados em Vialonga!)
    E aquele truque pra desbloquear a box e ter sportTV à pala afinal não funcionou! Fiquei só com a TVI e com chuva!
    Tou farto de aqui vir, é só textos, quase não há bonecos (lembro-me da barmaid mas pouco mais que isso), se o engenheiro me apanha aqui no contentor em vez de estar lá fora tou tramado, isto não pode ser assim!
    Faz-te mazé homenzinho e paga-me lá os meus xelins!

    ResponderEliminar
  7. Se te portares bem, pode ser que te pague hoje alguma coisa em moeda turca.

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.