19.3.10

Melodrama venezuelano-urbano-cretino


Abandonada no altar pelo seu príncipe-até-aí-mais-que-perfeito (que fugira com o pai dela horas antes), não aguentou ficar dentro daquela igreja enquanto sentia as vozes crescerem cada vez mais, dentro e fora dela.
Desnorteada, anestesiada mas em dor profunda, apetecia-lhe rasgar a alma em pedacinhos. Desatou a correr e nem as portadas góticas a conseguiram deter. Saiu.

O Sol fazia doer. A rua e as pessoas faziam doer. Ser fazia doer.

Correu, sem saber como e para onde. Desceu para o metro. Sentado na plataforma, apenas um homem. Bem parecido, pareceu sorrir-lhe. Aproximou-se, réstea de noiva, de pessoa.

“Não me conheces, eu não te conheço. Não te vou contar a história da minha vida, nem sequer a história das minhas últimas duas horas. Mas, por favor, diz-me, mas diz-me sem receios nem merdas – Porque devo eu acreditar num homem mais um dia que seja na minha vida? Porque devo acreditar que um dia algo que vai ser diferente?".

O homem pareceu confuso. Olhou-a de cima para baixo e com um ligeiro encolher de ombros abriu a boca sem proferir uma palavra. Ela limpou as lágrimas e sorriu.

“Deixa estar, a culpa não é tua. Não precisas de procurar uma resposta. Mais vale que as coisas sejam assim.”

E, olhando para trás, deixou-se cair na linha de metro com a graciosidade de um cisne. O rápido que se aproximava não foi tão gracioso.

Nesse dia, sentado na plataforma ainda em choque, um surdo-mudo decidiu que talvez devesse tentar aprender a ler os lábios.

9 comentários:

  1. Causa de sonora gargalhada no escritório, coisa para causar processo disciplinar nesta empresa de carrancudos. Mas vale cada letrinha da nota de culpa...

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  2. Diz-lhes que não precisam de fazer uma novela por causa disto. E depois dá-lhes o link desta :p

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  3. Tens que esmurrar bem mais a ferradura se queres compensar a coisa...

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  4. Desta vez, pela primeira e a ver se não te habituas, deixaste-me sem fala.
    Beijo

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  5. *invade blog alheio*

    Este texto foi muito... muito... muito! xD

    *abandona blog alheio*

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  6. @ Pipoca - Privada da fala, pelo menos ainda escreves, já é qq coisinha :D

    @ LEto - Ainda bem que eu sou amigo do alheio, senão o gajo levava a mal eu usar o blog.

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