4.3.10

Histórias de cuspo em horário escolar


Há rapazolas que crescem zangados com o mundo. Ora eu, que sempre me dei bem com malta duvidosa, tenho no mundo um bom amigo desde os bancos da escola. Aliás, nesses tempos, o mundo proporcionava-me momentos de riqueza inolvidável. Se por um lado era bom aluno, apesar de estar longe de ser um devoto do estudo, por outro tinha a minha dose de baldas e faltas a vermelho, uma suspensãozita ocasional e bom aproveitamento dos “tempos livres”.

Assim, em casa não levavam a mal os deslizes porque até era promissor e na escola não levantavam ondas, porque era um tipo porreiro que me dava com toda a gente e tão depressa estava a faltar a uma aula para jogar basket com os dreads, como a seguir estava a dar uma bela tanga num trabalho sobre as “Viagens na minha terra” do tio Garrett.

“Então e o cuspo, jovem?” perguntará o leitor mais impaciente, enquanto se lembra do seu ponto alto escolar, na forma de umas calças verdes de bombazine que se rasgaram num intervalo.

O cuspo tem justamente que ver com Almeida Garrett, neste episódio particular. Sendo eu amigo do mundo, ele ensinou-me que era boa ideia fazer trabalhos de grupo maioritariamente com raparigas, uma espécie diligente e não tão dada à mandriagem como os rapazes. Eu contribuía com skills de apresentação, elas com a papelada burocrática por detrás de um trabalho de grupo. Mas, como é normal na adolescência, hormonas aos saltos tendem a tornar imprevisíveis certos processos.

Susana, chamemos-lhe assim, muito possivelmente por ser esse o seu nome, tinha ficado encarregada de ler a introdução do trabalho sobre o livro “Viagens na minha terra”. Ainda Joaninha não tinha começado as suas tropelias e já a jovem leitora achava que era divertido fingir ser sopinha de massa a ler, cuspindo gafanhotos propositadamente para o azarado à sua frente. Vulgo, eu.
Depois de dois minutos naquilo, chegou a minha vez de apresentar. Mas, toldado por salpicos de cuspo, achei por bem começar com um aparte:

“Susana, se é para cuspir numa pessoa, não é preciso tanto trabalho. Basta isto.”

Se o lançamento de cuspo ao alvo fosse modalidade olímpica, então o que se seguiu ter-me-ia tornado o mais jovem medalhado português. Minutos de gritaria, zaragata e lencinho a limpar a cara depois, a professora interviu – “Bem, foram longe demais e talvez seja boa ideia irem lá para fora acalmar”.
Saímos. Eu e a Susana. Vítimas do cuspo e da estupidez. Amuados, mas não primos e casados. A coisa resolveu-se. O facto de termos ido para a rua não. Tentei explorar um vazio legal e fui lá bater à porta 10 minutos depois. A professora abriu. Não pareceu contente por me ver.

“Já me acalmei” – sorriso angelical para acompanhar os caracóis de anjinho.
“Tu estás a brincar comigo?”
“Não, estou mesmo calmo”
“Pois eu não” – e bateu-me com a porta na cara.

Encolhi os ombros e fui ter com a Susana, a ver se podíamos explorar essa história do cuspo de maneira mais harmoniosa. Quando se é amigo do mundo, nunca se dá nada como perdido.

6 comentários:

  1. Lá engraçado és!
    Os trabalhos de grupo dão recordações para a vida, isso sim.

    ResponderEliminar
  2. Realmente a tua vida está cheia de histórias para contar, se bem que para mim a passagem pelo Ponto de Encontro é um dos momentos mais marcantes:-) Nas minhas andanças como professora( que saudadinhas!!) nunca apanhei nenhum "cuspidor" do teu nível, mas esses sorrisos angelicais depois de uma grande asneira são o pão nosso de cada dia dos profs! Bj:-)

    ResponderEliminar
  3. Estou a ver que eras daqueles que para os testes colavas a matéria com cuspo..;)

    ResponderEliminar
  4. Realmente só não tiro o chapéu ao Mak, o grande contador porque está a chover e encharca-me a tola ! :P
    Mas.... a mim pareceu-me lá para o fim que "os homens são todos iguais " . Não acabou de explicar o que é uma utilização harmoniosa de cuspo ham?ham??

    ResponderEliminar
  5. Eras fresco eras (ou és?)!

    ResponderEliminar
  6. Um autêntico balde de frescura....

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.