31.3.10

Deixei de me dar com freiras

Haverá coisa que mais prejudicial para o ego masculino do que conviver com freiras? Não falo daquelas que o são da boca para fora, mas sim das que o são do coração para dentro.

Primeiro que tudo, convida-se para ir beber um copo e é um épico para encontrar um sítio que sirva água benta. Depois, quer-se ter uma conversa descontraída entre amigos e fica-se com a sensação que o Senhor está sempre entre nós. E, fica logo a saber-se de antemão que o Senhor está ali para atrapalhar, porque sendo omnipresente, podia estar em Caxias e ainda assim ouvir a conversa.

Depois, é tudo uma questão de hábitos. Ou porque o hábito com cinto de corda já não está na moda ou porque agora há um tom de preto mais suave ou até porque há maus hábitos que andam para aí à solta.

Quando finalmente somos obrigados a ser nós a rezar para ver se aquilo acaba, lá vem a conversa suspirada sobre o tipo a quem são devotadas: “Ah, o Jesus é fantástico, demos um jantar, não havia vinho e ele transformou logo uns garrafões de água em Barca Velha”, “Ah, o primo Lázaro morreu antes do casamento da prima Laura, que ficou devastada e o Jesus ressuscitou-o mesmo a tempo de ele ainda a levar até ao altar”. Em dois minutos já nos sentimos aziados e a procissão (do Jesus, obviamente) ainda vai no adro.

“Não imaginas o que o Jesus decidiu outro dia, depois de fazer à mão os móveis todos da casa em dois tempos. Vira-se para mim e diz-me que vai morrer para absolver os pecados todos da humanidade. E eu fico a olhar, comovida, sem saber o que dizer e pergunto-lhe se tem a certeza. E aí o Jesus vira-se para mim, caminha por cima da piscina e abraça-me, dizendo que sabe que vai ser um calvário, mas que pelo menos vai ser porreiro ser crucificado com dois tipos do bairro em que cresceu”.

Já pedi a conta por esta altura. Já ela, vai nas alturas.

“E eu a chorar, viro-me para o Jesus e digo-lhe, então e depois como é, não ias passar na casa da tua mãe no Sábado? E ele sorri, cofia a barba e diz-me para não me preocupar, que se for possível ressuscita na sexta, vamos lá no sábado e depois, sendo assim, ascende só aos céus no Domingo”.

E lá fica um gajo calado, sem dizer nada, a pensar que nem vale a pena dizer que fazemos um risotto magnífico para mostrar alguns dotes. Porque Jesus, calhando bem, também deve ser um cozinheiro divino.

15 comentários:

  1. Desconfio que ninguém vai conseguir superar o teu post de Páscoa. Divino! :-)

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  2. Não era desconfio, era tenho muita fé ;-)

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  3. A mãe Maria é que não vai achar piada à brincadeira. As mães nunca gostam quando os filhos começam com as manias dos desportos radicais, sobretudo esses de subir ao céu.

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  4. Escreves tão bem..
    Espero é que o teu próximo post não seja a dizer que agora só te dás com padres! ;)

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  5. Divinal!

    Portanto, rezar que é o que é bom é que nada!

    Com o risotto está bom de ver que não vais lá ... Especializa-te em barrigas de freira ou toucinho do céu ...

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  6. A Páscoa sem este post não seria a mesma:-) bj

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  7. Soma a isso os milagres que fez no Benfica, e não tens a mínima hipótese!

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  8. Com este post ganhaste o direito a ter via verde para o inferno! :p

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  9. Diz que o gajo já treinou uma equipa de Belém e tudo! E que agora está prestes a ressuscitar um gigante adormecido.

    Eu nunca o conheci mas parece que ele é mesmo bom!

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  10. Oh, meu Deus (também não pode ser sempre Jesus). Tu não existes. Escreves das coisas mais hilariantes que há. Parabéns.
    Realment, concordo com um comentário acima: melhor post de Páscoa, não há.

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  11. Caramba, és tão bom tão bom tão bom! (sim 3x)

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  12. És o gajo mais produtivo da blogosfera a seguir ao Pacheco Pereira tb... Com a vantagem de não escreveres posts chatos.

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