3.2.10

Viver contrariado

A vida é feita de contrariedades. Estamos no quentinho do ventre da nossa mãezinha, mandam-nos cá para fora. Somos crianças e não temos responsabilidades, estamos a gozar isso e vêm logo obrigar-nos a ir para a escola aprender. Depois de aprendermos tudo na escola ou fingirmos bem, dão-nos duas opções: ou vais trabalhar ou vais aprender mais para a universidade. Se fores um verdadeiro maluco, fazes as duas ao mesmo tempo.
Por esta altura, se não tiveste a contrariedade de ter o QI de um espargo, já passaste mais de um quarto da tua vida a lidar com isso. E ainda a procissão vai no adro.

É que, se não nasceste com o kit eremita plantado no cérebro, vais perceber a dada altura que há outro vazio na tua caderneta, que só é completa com um cromo difícil de encontrar. E começa aí outro processo de tentativa-erro, que muitas vezes te vai levar à contrariedade de te veres com o coração nas mãos, nos pés e noutras partes do corpo que manifestem interesse em adquiri-lo.
Independentemente do que já tenhas aprendido e trabalhado, poderás portanto sentir-te burro e inútil. Por outro lado, podes efectivamente ser burro e inútil, mas ter alguém com quem compartilhar isso todos os dias. A contrariedade, nesse caso, surge apenas se a outra pessoa te relembrar isso todos os dias.

Lembra-me alguém que há quem não veja muita contrariedade no facto de nascer com o rabo virado para a Lua. Contraponho, referindo que o facto de passar a vida a ser reconhecido por uma determinada posição do meu rabo não é o mais agradável. É, porventura, uma contrariedade.

Não vou sequer mencionar a contrariedade que é chegar o dia em que te dizem que não precisas de trabalhar mais, apenas para descobrires que a tua reforma já não existe, devido a algumas contrariedades do sistema de segurança social. Ops, já o fiz.

Mas, pelo meio disto tudo, podes não ter noção de grande parte das contrariedades que apontei. Em primeiro lugar, pela contrariedade que é passar a vida a vivê-la, o que te deixa pouco tempo para pensares em ti. Em segundo, porque nos foi instituído um certo gozo na superação, ainda que aparente, de todas as contrariedades que se nos vão aparecendo à frente durante a vida.

E isso, para quem gosta de dizer mal da vida, é uma contrariedade.

10 comentários:

  1. É que é isso mesmo, não vou contrariar-te.

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  2. andar contrariado é um bocado chato. acabem logo com isso

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  3. Eu até o primeiro berro pós-nascimento dei contrariada. Olha, não devia ter lido isto, numa fase hating life, e muito menos a esta hora do dia, em que ainda não é socialmente aceitável ir beber vodkas. Ou é?

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  4. Estou a ver que anda aqui muita gente contrariada :p

    @ pipoca - Não te contraries, até porque tudo depende do fuso horário. Ora na Rússia já estão a servir aperitivos ao jantar e sendo a Rússia a pátria do vodka...

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  5. seria uma contrariedade gargalhar com o teu post e não dizer nada... contrariedade superada;)

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  6. Viva o espírito de contradição!

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  7. Gostaria tanto de vir aqui dizer "vivam as contrariedades!!!", mas não, hoje não é dia.

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  8. Este blog, sim, é um cromo dificil de encontrar!

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  9. E se uma pessoa estiver com a caderneta quase cheia, e ainda não tiver aquele cromo, será que pode encomendar pelo correio expressamente da editora? Cheira-me a contrariedade!

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