12.2.10

Sim, eu fui ao Ponto de Encontro. E depois?

Depois de ontem ter revelado o meu passado de figurante, têm chovido boatos de gente maldosa que alega já me ter visto a bater palmas no programa do Goucha, abraçado ao João Kléber no “Fiel ou Infiel” e por aí em diante. Não tendo eu nada a esconder tirando aquilo que não revelo, desde já afirmo que não é por aí, já que o meu ponto mais baixo, televisivamente falando, deu-se no “Ponto de encontro”, com o saudoso e sempre compreensivo Henrique Mendes.
Foi um one night tv stand e mais nada.

Fui parar ao estúdio, com um amigo meu, certo de que ia à gravação do “Casos de Polícia”, programa que era a minha cara. No entanto, o cheiro a naftalina e os velhotes à porta logo constituíram mau prenúncio. A nossa amiga na produtora, com ar meio culpado diz-me “Desculpem, é que estamos com falta de malta nova na assistência...”
Olhei em volta, o mais jovem a seguir a nós devia ter deixado de ter dentes próprios há 10 anos.

“Ok, vamos lá, mas vamos para a última fila. Tenho uma reputação a defender”. No estúdio, a história foi diferente.

“Vocês aí atrás, os putos novos” esta última parte sentou de novo o velhadas com o andarilho estacionado à porta. “Venham cá para à frente, preciso de gente nova para equilibrar a plateia”. Esta tirada teve a mesma validade de um gajo querer evitar o naufrágio do Titanic pondo panos de cozinha no rombo do casco.

E assim, durante duas horas, na primeira fila mesmo atrás do apresentador, lá me sentei feito (pato)bravo, disposto a entrar no espírito do programa e fazer figuras....tristes.

Durante esse episódio, três casos escolhidos a dedo: uma senhora fez uma toalha bordada em Angola, que já lhe tinha sido paga por uma outra senhora, que se veio embora durante a guerra, Com o remorso de já ter a toalha paga e não a ter entregue, a primeira senhora vivia num sufoco. A produção foi brava, a senhora que encomendou a toalha não, visto que já tinha morrido. Compareceu uma filha, cujo o ar ao receber uma toalha bordada com mais de 20 anos só teve espelho em dois otários que tentavam refrear o riso.

Segundo caso: jovem moça das cercanias de Beja tenta comunicar com o pai, que deixou o lar e foi constituir família para outras bandas sem dar notícias. A produção, brava uma vez mais, percorre os cantos do mundo para encontrar o pai no... Barreiro. À pergunta da filha “Mas pai, porque é que nunca nos tentaste visitar”, responde o pai dissidente “O Barreiro é longe, não tem dado muito gente”. O teor surreal da coisa leva dois jovens às lágrimas....de riso. Henrique Mendes parece descontente.

Por essa altura já uma velhota estranha nos tinha captado a atenção. Sentada ao nosso lado na plateia, ostentava um relógio do Rato Mickey e um ar de quem não tinha os rolamentos todos alinhados. Eis quando cortamos para intervalo e a velhota se levanta, me dá uma palmada no ombro, sorri com os dois maravilhosos dentes que a Natureza lhe permitiu conservar e me diz “A seguir sou eu”. E foi mesmo. Queria encontrar o irmão, já que tinha ido servir para fora muito cedo. “Se tinha fé que o ia encontrar?” Tinha e explicou porquê, desabotoando a camisa e mostrando um fio que, frente a frente, tinha uma medalha de N.Sra de Fátima e de Pinto da Costa. “Ah, mas do meu irmão só tenho uma foto vestido de marujo. Sabe o que é um marujo, senhor Henrique?” Ele sabia.
Nós também. Sabíamos essencialmente que não íamos conseguir deixar de rir, até mesmo na parte em que o irmão apareceu emotivamente por detrás da névoa falsa do programa.

E assim, no historial do “Ponto de Encontro” e da minha memória ficará para sempre gravada uma emissão em que, na primeira fila, dois jovens passaram o programa inteiro com um esgar e lágrimas a bailar nos olhos. O telespectador pensou-os embrenhados no programa, mas na verdade...

6 comentários:

  1. mas na verdade era da triste figura que faziam....
    Mto bem, gosteiiiii !!!1

    AP

    ResponderEliminar
  2. eh eh! Que fantástico! Tens história para contar aos netos:-)
    Bj

    ResponderEliminar
  3. eu não vou estar a procurar isso no youtube, mas quero ver. Partilhas as palavras mágicas para a busca, sff?

    qq coisa como "jovens a debochar idosa LOL " ?

    ResponderEliminar
  4. Eu...

    Eu...

    Eu até estou sem palavras!

    ResponderEliminar
  5. Eis que a única cassete que eu conheço está trancada em lugar seguro e sai apenas para entretenimento ocasional da minha pessoa e selectos convidados.

    Mais do que isso, só cravando no arquivo da SIC.

    ResponderEliminar
  6. Eh pá obrigado por este post...o que eu me ri. :)

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.