9.2.10

O porteiro dos sonhos

Outro dia deu-me para dormir fora de horas. Não foi planeado e, por isso mesmo, vi logo a coisa complicada quando, passado o portão do sono, reparei que o porteiro não era o mesmo.

“Boa noite...ou melhor bom dia. O Carlos não está?”
O ar indiferente do latagão funcionou quase como resposta “Não. Ele só faz noites.”

“Pois... costumo passar por cá a essa hora” Arrastei a voz para ganhar tempo.
“Posso ajudá-lo?” Frase automática que não transmitia qualquer vontade em fazê-lo.

“Eeehhr... queria saber se é possível marcar um sonho.”
“Para quando?” sacou de um livro preto e de um ar enfastiado a condizer.
“Agora...se for possível” fiz o papel de jovem humilde.
“Hmmm, quantos disse que eram?”
“Só um, tipo eu” Sorri, para tentar criar uma ligação. Cortou-a pela raiz.

“As pessoas acham que sonhar é fácil, que é só fechar os olhos quando lhes apetece e já está. Mas não pode ser assim, tem de haver um mínimo de respeito por quem trabalha nos sonhos.”. Bateu com mão pesada no livrinho preto, mas parecia haver alguma vontade de fazê-lo em mim.

“Claro...claro” a minha concordância não parecia amansar a fera “Foi mesmo algo que se proporcionou, não foi planeado”.

“O problema é esse, nunca é. Uma vezes juram que é só uma soneca de dez minutos e depois querem uma réplica do Moulin Rouge”

aquele livrinho preto estava mesmo a ficar em mau estado

“Outras vezes, dizem que querem um sonho surreal, mas depois queixam-se noutros sonhos que andam a gastar balúrdios no psicanalista. Isto para não falar nos Chico-espertos que passam a vida a sonhar de olhos abertos e a furar o sistema”.

Os olhos esbugalhados do senhor diziam-me que sonhar na próxima hora, só em sonhos. Assumi a derrota “Pronto, deixe estar, volto mais tarde, também não vale a pena estar a sonhar de mau modo”.
Voltei as costas e fui para a paragem para apanhar o Despertar das 16.15.

Chamou-me.
“Oiça, não é por mal, isto às vezes complica-me os nervos. E dizem eles que é um emprego de sonhos”.

Sorriso amarelo 38 chamado ao palco. Fez de conta que não viu e abriu o livro.

“Olhe, para agora consigo arranjar-lhe um pesadelo de meia horita, com uma modelo finlandesa e carrinhos de choque”
Sorri “Mas isso não é pesadelo nenhum”
Sorriu de volta “Para a modelo finlandesa é”
O árbitro apita para o final dos sorrisos.

Virei-lhe as costas e apanhei o das 16.15. Quando um gajo conhece o porteiro, os sonhos têm outro nível.

3 comentários:

  1. Tens de conseguir aaranjar uma cunha para que o teu nome figure sempre na guest list dos sonhos. Isso, sim, tem outro nível, vais ver.

    ResponderEliminar
  2. E se fores acompanhado será mais fácil?

    ResponderEliminar
  3. Um porteiro com sentido de humor :)
    que sorte! a mim calha-me quase sempre um escorbùtico que se compraz a mandar-me para dentro de um matadouro,logo que que sou vegetariana..

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.