19.2.10

Então a ver se depois combinamos alguma coisa.



Esta frase podia ser o começo de algo. E é, normalmente é o começo de um buraco negro onde terminam encontros, saídas, reencontros ocasionais, cortesias profissionais e toda uma panóplia de eventos sociais muito pouco memoráveis.

Eu depois ligo-te.
A gente depois fala.
Então um dia destes falamos.
Depois diz-me alguma coisa.
Fazemos assim – deixa-me ver a minha agenda e logo acertamos.
Ainda não sei bem como vai ser a minha vida, mas depois vemos se dá....
Foi giro, a ver se repetimos, deixa-me depois ver quando posso...

Em 7 segundos e 38 décimas, gerei um lote premiado de exemplos da chamada execução misericordiosa de expectativas sociais. Não sei bem porquê, mas temos no nosso software algo que nos impele a trocar uma negativa educada mas explícita, por um hipotético futuro conjunto puramente fantasioso.

Isto não é coisa de novelas mexicanas, à procura de tragédia e drama em overdose, com vilões que se disfarçam de anjinhos e fazem chorar criancinhas. É a pura realidade, pois nas mais diversas situações cruzamo-nos com pessoas que gostamos de ver com a periodicidade de anos bissextos, isto no melhor dos cenários. Mas, no entanto, sempre que as vemos, fazemos uma festa, prometemos encontros, damos o braço da frontalidade a torcer até partir, se for preciso.

Damos? Peço desculpa, por um momento de insanidade estava a confundir-me com vocês. Eu não dou nada, sou o tipo de personagem que quando me dizem “Então até um dia destes”, se sujeitam a ouvir, algo como “Só se eu não conseguir evitar”.

Sou educado, cortês, eloquente, ocasionalmente um palhaço de primeira e falo apenas de qualidades menores. Daí que, depois de me conhecerem, muitas pessoas só me evitam no mesmo sentido em que as pessoas com tendência para o alcoolismo evitam bares.
Eu acedo, é melhor para todos, depois ainda tinha que lhes dizer “Epá, sim senhor, temos de fazer isto mais vezes, eu digo qualquer coisa...”.

E para isso, prefiro ir arrancar dentes.
Espero que não fiquem melindrados, que eu aprecio muito a vossa companhia. E acho até que devíamos fazer isto mais vezes. Quando é que vos dá jeito?

11 comentários:

  1. Não acredito que consigas ser assim tão directo!:-)mesmo que não nos apeteça nada rever certas pessoas o " a gente vê-se", " então dp diz qualquer coisa" fica sempre bem. Estas expressões sem nenhum fundo de verdade existem para estas situações:-)

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  2. Só acho que falta ali o "vá". Vá, eu depois ligo-te. Vá, a gente depois fala. E por aí adiante.

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  3. sou especialista no «temos de combinar».

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  4. Agora que te leio, reparo que já tinha reparado nisso mas que, por uma piedade estúpida mais de mim do que dos outros e por não ter outra coisa para dizer naquelas horas...ou espera aí!
    Tinha!
    Realmente tinha outra coisa para dizer, do género:
    "Lamento mas não contes em voltar a ver-me e a divertirmo-nos juntos", partindo do pressuposto que assim foi, porque se não foi a conversa teria de ser outra, "porque eu tenho sempre montes de tempo ocupado a arrastar-me por este mundo que vejo por um buraco de fechadura, e se combinasse imediatamente alguma coisa contigo, ias ficar a pensar que eu era um gajo que tenho sempre montes de tempo ocupado a arrastar-me por este mundo que vejo por um buraco de fechadura, logo era um inútil e deixarias de gostar de estar comigo, assim como supomos que gostamos. Poderias mesmo pensar que eu tinha gostado tanto de estar contigo, que estava desejoso de voltar a estar. Possivelmente porque agora que estive contigo, antes de combinar a próxima vez, na realidade não estive lá muito porque tinha de te contar todas as enormidades que tenho feito ou nem por isso e gabar-me e babar-me e não sei que mais, sendo que teremos de voltar para mais..." Mas isso, isso seria uma falta de educação!

    Um abraço Bom Vilão

    P.S. - Desculpa-me, mas vou postar este comentaria.

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  5. Ora essa, estamos cá para isso.

    Na verdade, não é bem esse o meu propósito, mas como ainda não sei muito bem o que faço aqui, vai ter que ir servindo...

    :)

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  6. Tens toda a razão. Gostei muito da "execução misericordiosa de expectativas sociais". ;)

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  7. Ainda aqui há uns dias houve um conhecido que me respondeu "Nós depois vamos falando" e eu, que já estava de costas voltadas para ele a ir-me embora virei-me para trás e respondi "mentiroso" (meio a brincar, meio a falar a sério).

    Nunca achei piada a essas coisas, mais vale as pessoas ficarem caladinhas e uma pessoa percebe na mesma, sem promessas vagas.

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  8. Quando te der jeito a ti, mas não te entusiasmes, não vou gostar assim tanto de te aturar e a seguir não bebo cafés de mesericórdia. Sou uma besta assumida.

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  9. É caso para dizer, que de boas intenções está o Inferno cheio :p

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