10.2.10

Duelos com chapéus de chuva


Há quem tenha uma certa devoção por filmes de capa e espada. Há quem tenha um certo apreço por usar chapéu de chuva em situações inusitadas como, por exemplo, quando chove. O problema é quando estes dois universos de magia e água se cruzam, em tempestades de mau feitio.

Quem nunca se envolveu num duelo de chapéu de chuva ou, pura e simplesmente, não o usa ou poderá dar-se o infortúnio de não ter bracinhos. Nesse caso, peço-lhe desculpa e poupo-lhe o trabalho de fazer scroll para ler o resto do texto.

Inclina-se o chapéu para a esquerda ou para a direita, baixa-se ou sobe-se o mesmo, dá-se um passo à direita, ops, é melhor ser para a direita, raios ta partam, decide-te pá, tudo isto para evitar levar com uma litrada do melhor líquido que as nuvens produzem. Por cada opção que se possa considerar certa, surge uma nova reacção que a torna errada.
Da dama pós-moderna que aponta o seu chapéu à tromba de quem com ela se cruza sem se dignar a olhar para o lado, ao velhote aguerrido que se recusa a sair debaixo da protecção de um toldo, apesar do seu chapéu poder albergar toda uma família cigana, não faltam motivos para se mistura água, raiva e golpes de pulso.

Já perdi duelos por ser mais alto e acabei vergonhosamente de calças encharcadas, já me regozijei por driblar uma feroz idosa e usar a água acumulada no chapéu num golpe de mestre para lhe dar banho aos botins. Ah, e como eu gosto de idosas de botins.

Olho lá para fora, em dias de chuva, e oiço o Robin Hood dentro de mim, “ vá, larga os collants, empunha o chapelito do Mickey que te alcançou fama e respeito”. E assim saímos à rua, de capa negra e instinto matador, prontos a enfrentar qualquer chapeleiro de segunda.

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