28.2.10

Danças com os bobos

Apesar de, com este tempo, boa parte da maralha a quem me dirijo estar certamente debaixo de uma mantinha com um pijaminha do Noddy ou das Winx a ver “A pequena Sereia” em DVD, sou um gajo de palavra. Várias até. Nada melhor que o tema da dança para vos dar baile e se juntarmos ao mix uma abordagem sobre talentos dançantes no masculino, temos aqui uma calamidade para juntar às outras dos últimos dias. Na realidade, existem até vários homens que dançam bem ou, mais factualmente, tipos que não envergonham o seu par, mas qual seria a piada de me pôr aqui a elaborar sobre pares fofos e memórias do “Dirty Dancing”?

Ai, o Dirty Dancing, até fiquei comovido. As pessoas por vezes são...são... são mas é horas de tomar a medicação.
Pronto, já passou.

A questão base é, gajo que é gajo sabe que a dança não é só ballet, nem coisas que ameaçam a masculinidade, como sapatos de tacão ou bebidas com palhinha. E, pondo-se no papel de John Travolta de trazer por casa, sabe que há-de chegar uma altura em que vai ter de mostrar do que é feito na pista de dança.

E às vezes o resultado não é bonito. Senão vejamos alguns craques:

O encostado – Este homem podia ter ido longe, não fossem os problemas no ouvido interno. Esta é certamente a razão porque dificilmente o conseguem afastar do bar, onde procura apoio para o seu corpo. A amargura de ver outros a aproveitar a música enquanto ele é obrigado a ficar atracado, levam-no também a ter quase sempre um copo na mão. Poderá abanar a cabeça de quando em vez, devido a uma réstea de ritmo que tenta desesperadamente fugir de si.

O simbiótico – Este homem ama a música, mas esta não lhe retribui o gesto. Talvez por isso insista em ser sempre diferente do ritmo escolhido por ele para mostrar os seus moves, que parecem oscilar entre um exorcismo e uma aula dos jovens heróis de Shaolin. Não existem estilos nem ritmos diferentes para esta alma, existe sim um único fluxo de energia que o une à música de forma inqualificável. E não há maneira de o desligar.

O totem – Este homem deseja ser venerado. Não pelas suas capacidades de dança, mas pela sua extrema parecença com um... totem. Mexendo-se o mínimo possível, esta deidade tem princípios firmes e a sua imobilidade comprova-o. Espera que todos dancem à volta dele, nem que seja para invocar a chuva. A parecença com um dançarino vem do facto dos seus olhos se mexerem e ambos respirarem.

O caretas – Se há alguém que não tem medo de dar a cara pela dança é este homem. Quando muitos apostam no jogo de pés e de cintura, a expressividade deste senhor centra-se nos músculos faciais. Quer parecer sexy? Os lábios juntam-se, formando um beijo com ritmo. Quer mostrar ritmo? Os dentes superiores cobrem o lábio inferior, mostrando descontracção e dentição alinhada. Quer espelhar concentração ou um AVC? Os olhos semicerram-se, as feições contraem-se e a esperança do AVC desaparece, por entre uma língua de fora que salta enérgica.

O eufórico – Embora tenha parecenças com o simbiótico, este homem difere, porque não dança para si mesmo. Na realidade, ele quer dançar com toda a gente. Desde gritos de guerra, a palmas, ao acompanhamento de refrões, quem disse que a dança é feita apenas de ritmo. Há sempre um truque para ensinar, um movimento colectivo para gerar entusiasmo e é claro, uma rodinha em que ele é sempre o primeiro a brilhar. Se não fosse o eufórico, a dança seria só música, pessoas e ritmo.

O pseudo pro – Este homem cometeu uma proeza – convenceu-se a si mesmo que sabe dançar e bem. A sua auto confiança cega-o mais que as luzes da pista e, entre um ar confiante e uma certa condescendência com aqueles que dançam à sua volta, ele mostra que na escola onde os outros aprenderam a dançar, ele já deu aulas, mas de autismo.

O comunicador – A dança é uma forma de comunicação, mas para este homem isso não é razão para desperdiçarmos todas as outras. Daí que nada melhor para acompanhar o ritmo, tentando conversar por cima da música, dando toques e fazendo gestos que pretendem signifcar um valor acrescentado, se bem que só o próprio percebe qual. E, se a coisa estiver animada, não faltará mímica a rigor, para mostrar que há mais do que uma maneira de dizer que os nossos corpor comunicam, mas às vezes a chamada cai.

Muito mais se pode aprender numa pista de dança, mas vocês não pagam e o fato e os sapatos que uso nas galas dos Alunos de Apolo ainda custam dinheiro.

Vemo-nos nas pistas.

9 comentários:

  1. Deduzo por isso que Mak gosta de abanar o sapatinho !?
    y

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  2. Tens poder de observação. Deduzo que pertenças à classe dos encostados... :)

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  3. Um dia será dia de tira teimas. "So you think you can dance?"
    Quero ver-te a dançar!

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  4. Já houve pessoas que cegaram, depois de tal experiência.



    Um backflip mal ensaiado e infelizmente deu nisso....

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  5. Acrescentaria na classe do Comunicador a subclasse do cuspidor, que é aquele que nos puxa a meio da apoteose de gozo da melodia para nos cuspir qualquer irrelevância ao ouvido.

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  6. Ora aí está algo que vai também com a sub-categoria bafôncios, em que através da proximidade e do bafo etílico, alguns artistas podem deixar ko qualquer interlocutor dançante.

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  7. Muito bom! O simbiótico, o pseudo pro e o eufórico matam-me! É que é tal e qual.

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  8. e onde é que está a categoria para aqueles que estão muito bebedos mas insistem em dançar?!?
    as verdadeiras feras da pista que, num dia mau, nao punham o cu em nenhuma zona que nao fosse o balcao (ao bom estilo do encostado) mas que num dia bom, sao os primeiros a saltar para a coluna e a fazer as maravilhas de toda a gente


    (putolsh, pra ti tambem, ó blogger)

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