12.1.10

O Tempero médico



Nunca fui rapaz muito dado a doenças, pelo menos daquelas comuns. A título de exemplo, não tive sarampo, nem papeira, nem varicela, nem outros bónus infantis que nos dão histórias para a posteridade, depois de adultos. As minhas maleitas foram sempre coisas mais condizentes com a maldade que me é inerente. Ou seja, estranhamente interessantes.

“Ah, o menino vomita e tem febre alta 1 ou 2 vezes por semana e depois passa-lhe? É da alimentação, vá fazendo listas do que ele come”. Só depois de várias listas, vários vómitos e várias febres depois se chegou à conclusão de que eram os malandros do feijão e do grão. Solução: não os coma (alimentos só retomados depois de adulto).

“Ah, o menino foi levar uma vacina e ficou com um bracinho que faria o Hércules corar de inveja? Deve ser reacção alérgica, vamos fazer testes”. Testes esses que levaram ao conselho de “Se não quer ser culturista, tome só as vacininhas mesmo em casos essenciais”. Lá se foi a colecção de carimbos no boletim de vacinas...

Fora isso e uma pele sensível para contrastar com um interior endurecido, aqui o artista cresceu saudável e com uma destacável resistência à dor. “Ai que bom!!” dirão os mais fracotes, ainda a chorar agarrados aos dedinhos depois de terem magoado uma unha na tecla Enter. Atentem ao que vos digo, tolerância à dor é como um tempero, só é boa até certo ponto. E quem vos diz isso é um tipo que pratica desporto desde tenra idade com todas as amolgadelas que me fazem rir quando me dizem “Desporto é saúde”. Pronto, por acaso é, mas também é muita porradinha no lombo.

A dor é um alarme do corpo. Tal como os alarmes dos carros, às vezes foi só um anormal que se encostou, mas convem pelo menos ir espreitar. O que também não é o mesmo de correr aos gritos escada abaixo, cada vez que se tem dor/o alarme do carro toca.

Serve isto para dizer que, por um lado não tenho grande estima pelos campeões da hipocondria, medalhados inúmeras vezes nos Jogos Olímpicos do Alarmismo e nos Mundiais do Choraminguismo Absoluto. No entanto, por outro lado, também não me deslumbro com campeões da saúde de aço, os Homens e Mulheres de Ferro que se orgulham de ter feito o último check up médico na maternidade e que só sentem dores em caso de explosões nucleares à queima roupa. É gente que ainda não aprendeu que quando o corpo nunca se queixa de nada....

9 comentários:

  1. Segundo a sabedoria popular, se tiveres o azar de apanhar papeira com esta idade estás bem tramado...

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  2. Já conheço essas profecias todas. Se apanho isso e outras parecidas mais me vale ir arrumando as malas.

    É por isso que eu não saio à rua, vai para aí cerca de dois minuots e vinte segundos

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  3. Farto-me sempre de rir com o que escreves!De dores sei eu, tive uma filha há 19 meses:-) Também não posso exagerar porque levei epidural...mas sempre doeu qualquer coisa...
    Gostei de te ver no meu blogue, é sempre bom receber a visita de homens inteligentes:-)
    Bj

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  4. @ Rita - Agradeço o comentário, mas deve haver algum engano na última parte. É que creio que me confundiste com algum visitante inteligente que tenha passado pelo teu spot :)

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  5. Bom, quanto às doença infantis, ainda vais muito a tempo de as apanhar. É só juntares-te a um grupinho daquelas pessoas pequeninas cheias dessas coisas e vais ver se não ganhas logo outra tonalidade;

    Quanto à dissertação sobre hipocondríacos... bom, vamos lá a ver uma coisa... então com o que passa nos jornais e afins, uma pessoa tem medo, pois claro que tem medo!

    Campeões nos Mundiais de Choraminguismo... Pff

    :)

    Bjs

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  6. @ AEM - Sei bem que ainda vou a tempo, mas com o atraso que já levo, dispenso bem juntar-me à festa. Os jornais devem ser a última coisa que um hipondríaco devia ver. E nem me refiro ao grande perigo de se poderem cortar no papel...

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  7. Acho que eles preferem mesmo é ler as contra indicações dos medicamentos. Eu já aturei uns quantos(as)...

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  8. A brincar a brincar, a mensagem é séria! Gostei.

    AP

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