5.1.10

Monstruosamente Sexys



Comecemos por esclarecer algo. Sim, vivemos na era das aparências. Não, as crianças e os animais não fogem de mim quando me vêem (pronto, não correm pelo menos).

É que, desde que o tio Bram Stoker formalizou a vampirada clássica na forma Conde Drácula nasceu um mito, daqueles que chupa sangue. Aliás, o cinema e a literatura já nos trouxeram N tipos de vampiros, assim como as Finanças, a Assembleia e a Banca em geral. No entanto, a figura romanceada de um tipo sedutor, apesar de morto-vivo, com charme aguçado e dentes a condizer é compreensivelmente mais apelativa.

Até aí tudo bem. O problema tem sido que, numa era em que a imagem é cada vez mais preponderante (vá lá que a escrita ainda serve para ir enganando alguns), a ficção cinematográfica tem sido cada vez mais arrastada na corrente, ultrapassando o equilíbrio do lado aspiracional que é natural ao cinema.
Ao ver, por mero acaso, o primeiro filme da saga Twilight, deparei-me com uma tribo de vampiros que facilmente podia estar toda no Lux numa qualquer sexta-feira. Jovens, modernos, bonitos, mas mortos e sedentos de sangue, com uma palidez que nem 10kgs de picanha crua atenuariam.

Sim, é um filme assumidamente teen. E não é menos verdade que já fizeram trinta por uma linha à vampiragem desde que o Bela Lugosi começou a sugar pescocinhos nas salas de cinema. Mas, ao ver este protótipo sexy passado para a miudagem, não pude deixar de pensar (coisa que me desgasta o organismo): a importância dada à aparência está num ponto tal, em que até os monstros são obrigatoriamente bem parecidos e de alto potencial sexy, segundo os padrões vigentes.
Para além dos problemas de consciência que isso levanta aos vampiros, que ao saciar a sua sede voraz, têm agora de pensar duas vezes: “Epá, mas então vou morder este camafeu e depois tenho de levá-la lá a casa para apresentar ao paizinho, que há dois séculos que me anda a dizer para não andar a morder nos caixotes do lixo.... Mais vale passar ali nas traseiras do hospital, pedir duas doses e umas compressas ensanguentadas para comer em casa”.

O que virá a seguir, Frankensteins de corpo escultural, rosto profundo e apenas uma cicatriz minúscula na testa, devido aos progressos da cirurgia estética? Uma múmia sexy, com ligaduras DKNY e corpo de modelo Victoria’s Secret, que atormenta todos aqueles que visitam o túmulo de uma clínica assombrada?

Não sei, mas cheira-me que cá vou estar para ver.

5 comentários:

  1. Objectivo: cativar novos clientes; chegar aos mais novos.
    Como? Bom argumento? Belíssima fotografia? Não! Vampiros teenagers recrutados numa agência de modelos.
    Qualquer dia temos um filme sobre jovens deputados, versão morangos.

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  2. Filme de vampiros? Vê o "Deixa-me entrar" (Låt den rätte komma in). É um filme sueco simplesmente incrível. A não perder mesmo.

    Andas a borrar a cara em merda ao ver estes teus filmes, depois queixa-te.

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  3. @volp - a lógica de mercado é o espelho da realidade, eu sei, o facto de se optar maioritariamente pela via mais fácil é que é pior. Eu mostro-te dois filmes publicitários, feitos para o mesmo tipo de produto, um deles tem modelos ou outro tem pessoas bonitas mas com ar normal e não de manequim de estufa. Aspiracional da tanga à parte, com qual das duas as pessoas se identificam mais?

    @Manu - Sei qual é o filme e já estava na lista para ver. De resto, vejo muitos filmes, felizmente mais bons que maus, mas tento pelo menos saber do que falo.
    O que acontece tipo Cometa Halley...

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  4. Tens mesmo mau feitio, mas vá, desta vez, e não te habitues, concordo contigo. Nem precisamos de ir para o cinema, basta ver pela nova geração nas novelas da TVI

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  5. Sim, porque com a velocidade a que isto anda, o Freddy Kruger, vai voltar, mas já não tem queimaduras e já agora, aquele narigão também já levou uma rinoplastia!

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