21.1.10

Mestre-sala de pânico


As pessoas tendem a não gostar do pânico, muito possivelmente porque não conseguem controlá-lo. O que até é natural, dado que o pânico viaja normalmente acompanhado do horror e da desgraça.

Mas, em ambientes específicos, não me referindo eu a experiências com ratos de laboratório e queijos suíços, o pânico é um bom amigo. Por exemplo, nos meus tempos de marujo, dei por mim num destino tropical rodeado de beldades, estando elas rodeadas maioritariamente pelos seus respectivos Sandokans.
Um deles distinguia-se pelo seu físico hercúleo e atitude de matador. Por todo o sítio onde o vi por essas bandas, tinha sempre um ar calmo, cool e de quem salva o mundo enquanto prepara um batido de proteínas.

Quis o destino que estivéssemos os dois no mesmo barco (literalmente) num cruzeiro pela região. A meio do mesmo, os animadores celestiais acharam que seria porreiro abrilhantar a coisa com uma tempestade tropical e cocktails de pânico para toda a gente. Chuva a rodos, muita agitação e eu, sempre que pude, no convés a espreitar a tormenta, enquanto que o matulão se encolhia lá em baixo, sentadinho ao pé da Dona Alzira de 70 anos.
Se eu tive medo? Tive sim senhor, mas nunca pensei que estava ali a queimar os últimos segundos da minha existência. Mas, quando aquilo terminou (e foi relativamente breve) dei por mim a rir e a pensar “Epá que experiência”. Foi quando o Hércules de trazer por casa assomou ao convés e, vendo-me a rir, disse meio a chorar entre dentes indignado “Epá...epá” (fazer uma voz fininha para ainda tirar mais seriedade ao indivíduo) “Epá, mas tu estás-te a rir?? És parvo, nós íamos morrendo, morrendo ouviste e a rir. Eu não percebo...”

Mas eu percebi. As pessoas em pânico são como fotografias sem moldura decorativa. Por mais enfeitadas que estejam, na altura da verdade, despidas dessa capa, é aí que as conhecemos verdadeiramente. E isso, rapaziada, é coisa que tem um valor para lá de Bagdad.

PS - Isto é válido para climas tropicais, para a pessoa ao vosso lado no emprego ou para o colega de carteira. Vejam como em reagem em pânico/sob pressão e terão uma boa noção daquilo com que podem contar.

3 comentários:

  1. Já dizia o Billy Ocean na Jóia do Nilo "When the Going Gets Tough, the Tough Get Going"...

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  2. É uma boa observação, sim senhor. A mim, por exemplo, em situações difíceis, apetece-me desatar a correr aos gritos. Apetece-me e faço-o. Fico completamente histérica. Quem o presencia fica a saber com o que pode contar, da minha parte: nada de útil.

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  3. Este post fez-me lembrar o "It's the end of the world as we know it" dos REM...

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