4.1.10

A última tentação das passas



Depois de um dia inteiro a ouvir e a disparar automaticamente “Bom Ano” para todos os lados (proferindo, em certos casos, o sorridente apêndice em voz baixa “...e vai morrer longe”), finalmente tenho alguns minutos para debater matérias realmente importantes.

Nomeadamente, passas e desejos. Se é certo que o mundo está cheio de gente que diz não crer em nada que não seja palpável, por outro lado não faltam curandeiros e fontes dos desejos pejados de moeda corrente até ao tutano. Daí achar que, salvo aqueles que à meia noite já iam em 2050 em graduação alcoólica, mesmo quem não acredita lá mama 12 passitas e pede os seus desejos.

É fácil demais, nunca falta uma mão cheia delas por perto, nem gente disposta a eleger-nos nados-mortos para o ano que acaba de nascer, caso nos recusemos a semelhante ritual. Eu, que tenho a rectidão moral do circuito de Jacarepaguá, cedi num instante e lá me pus a desejar à laia da máxima “Não acredito em passas, mas já que elas existem e se comem.....”

Os primeiros desejos são fáceis, é aquilo que queremos e se tornaria mais fácil se bastasse uma uva seca para alcançar. Os segundos são aqueles que os mais altruístas dedicam aos seus entes queridos e os mais egoístas também, com a diferença em que o seu único ente querido são eles próprios.

A malha aperta quando olhamos para a mão e já só temos três passas e um mundo inteiro ainda por dominar. Sempre advoguei que a última passa deveria ser de “Desejo ter mais 12 desejos”, o que nos levaria à loucura ou, pelo menos à indigestão, por abuso de passas. Não sendo possível, é que aqui que entram os chamados desejos genéricos. São desejos iguaizinhos aos outros, mas com a diferença que abarcam uma catrafada de gente que não coube nas outras nove passas.
Do género “Quero que todos os meus amigos tenham dinheiro, para poderem pagar finalmente o que me devem” É bonito, é altruísta e resolve uma resma de problemas, a começar pelos nossos.

Outro “Quero que haja paz no mundo, começando pelo andar de cima, porque a velhinha anda muito agitada e arrasta os pés a noite inteira, enquanto ouve os programas televisivos que pões gente anormal a ligar para a televisão”. Mais uma vez uma solução geral para um problema específico, que traz a paz ao Sudão, mas também ao meu ambiente urbano.

Se querem saber mais, tivessem usado uma passa para serem mais criativos. Se estão a ler isto, escusado será também dizer que a passa que gastaram para passarem a ter bom gosto não resultou...

5 comentários:

  1. Uvas secas???

    Por isso aquela merda estava sempre a apagar-se...

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  2. Não como as passas, não gosto muito e não sou "garganeira" (que palavra linda) ao ponto de as mascar só porque talvez desta vez os desejos se realizem.
    No entanto, e porque como dizes, acabamos sempre por ceder à facilidade de alinharmos nestas coisas dos desejos, uso sempre a cueca azul nova, e passo a meia-noite em cima de uma cadeira com uma nota na mão e beijo alguém do sexo oposto (este ano beijei um gay, à falta de melhor...) Dizem que dá sorte e não custa tentar...
    Beijos

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  3. Já não é mau, se tivesses passado a meia noite a beijar umas cuecas do sexo oposto em cima de uma nota nova e com um gay a fazer de cadeira poderia ser bem pior...

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  4. Fogo, como é que consegues pensar nesses desejos assim, nos momentos entre uma badalada e outra?! E mais, ainda conseguiste ouvir badaladas? É que é cada vez mais difícil estar perto de sinos. lol

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