29.12.10

Cedo as minhas 12 passas de fim de ano


Não sou um entusiasta declarado da passagem de ano. Como tal, muitas vezes até à última hora, não é raro ter uma tabuleta ao pescoço a dizer “Não fiz planos”, para me poupar a responder dez mil vezes a mesma coisa, perante gente que já tem o seu reveillon programado para aí desde Setembro e até já sabe a que horas vais estar bêbado que nem um cacho.

Mas, não me nego a um festejo quando a coisa se proporciona e, chegada a meia noite, lá estou eu de passinhas na mão a deitá-las cá para dentro e a expedir desejos cá para fora.

Este ano, não vai ser assim no que a passas e desejos diz respeito.

Por norma, sinto-me bem urso a usar uvas secas para pedir coisas em meu nome, sabendo de antemão que sou o tipo de gajo que preferia bater nas passas do que ficar a dever-lhes alguma coisa. Por isso, este ano, coloco as minhas passas à disposição para desejar algo pelos outros.

Não posso garantir a realização dos desejos, a não ser que sejam coisas do género “Desejo que o Mak me dê o desejo de uma das suas passas de fim de ano”, mas pelo menos posso garantir que a passa é vossa. Assim, pelo menos tenho a noção de estar a fazer algo útil, para além de engolir passas pelo nariz.

Fosse eu uma empresa ou entidade pós-moderna, e poderia estar usar isto para uma campanha de marketing xpto. Não sendo, posso apenas dizer que estão 12 passas à esperar para tentar ajudar outras pessoas a realizar os seus desejos.

Basta que me enviem por mail (caso queiram manter o desejo privado, colocando eu aqui só o nome) ou na caixa aqui em baixo.

Se receber mais de 12 pedidos, usarei um critério de utilidade e bom senso (ou seja, ver o vizinho de cima a explodir perderá sempre face a conseguir ir estudar para o “estrangeiro). Se receber menos de 12, redobro os desejos existentes.

1ª Passa – Um bom emprego para o marido de R

2ª Passa – A Gata Escaldada quer o Euromilhões

3ª Passa – A Maria quer mais estabilidade dinheiro e um outro desejo que não há passa que realize.

4ª Passa – A Maria Flausina quer acabar com os clichés de ódio de época e mais escrita demagoga.

5ª Passa – Que as pessoas sejam um bocadinho melhores - via Viciante

6ª Passa – Mais trabalho para mim via Estica (espera lá que não perdes pela demora)

7ª Passa – Uma passa fumada pelo Ganzas (queimei os pelos do nariz, as passas não acendem bem)

8ª Passa – Que as passas passem de moda via Manuela Sá Carneiro.

9ª Passa – Desejada, mas reservado o anonimato a pedido do desejante.

10ª Passa – Mais vitória para o seu clube ou um órgão da sua escolha via mail

11ª Passa – Desejada, mas reservado o anonimato a pedido do desejante.

12ª Passa – Atribuída a jovem donzela que pretende um aumento no seu salário e um almoço especial de corrida em 2011.

Adenda – E assim foi, por volta da meia noite.


PS – A data limite é dia 31, pelas 20h, data em que esta lista se torna definitiva

PSS – Qual a utilidade disto? (isto também eu queria saber)

28.12.10

As não prendas

Findo o regabofe do fim de semana de Natal e enquanto há já quem só roa as unhas à espera do rei velhão, há sempre um balanço para fazer. No entanto, muitas vezes é preciso ter cuidado com esse tipo de actividade, já que o enfardamento natalício torna-o algo perigoso.

“Ohhh, este é daqueles posts bonitos dado a reflexões sobre o ano que passou?” suspirará o leitor, enquanto conta as suas 12 passinhas e as envolve cuidadosamente em película aderente, não vá o diabo tecê-las.

Não, este é um post parco em beleza sobre uma certa tipologia de prendas do Natal que passou. E parem com essa história de passas e película aderente. O facto é que, para além dos postais com música, se há coisa que me melindra são as não prendas, uma categoria muito especial dentro das coisas que dão mau cheiro ao sapatinho.

As não prendas parecem prendas, mas não o são. Distinguem-se das que realmente são pelo facto de serem dadas mecanicamente, sem outro valor, intenção ou gosto, que não o de dar uma prenda por obrigação. E, quando assim é, invertem-se as escalas de valor e um lápis pode valer muito mais que um relógio daqueles bons, com nome de marca estrangeira e ponteiros que fazem habilidades.

Isto é apenas um exemplo, mas não faltam outros, surgindo de vários pontos à nossa volta e vocês sabem do que eu estou a falar. E, se não sabem, bem podem agradecer ao Pai Natal.

PS – Isto não é uma reclamação disfarçada. Eu sempre gostei de pijamas com o Noddy.

22.12.10

Só um sambinha não vai...

Se fizessem uma fila, ordenando as pessoas a partir das que gostam mais de ritmos brasileiros até aquelas que lhe têm um ódio visceral, eu não estaria bem colocado. Mas, sendo um entusiasta de música dos mais diversos géneros, não me dou ao luxo de odiar esta secção, apesar de não estar no top das minhas preferências.


No entanto, sofrendo da condição típica de ser mais ou menos humano, a facilidade com que me contradigo é impressionante. E é por isso que, nos últimos dias, me vejo a ouvir com alguma insistência o já clássico álbum "Soul Bossa Nova" do Quincy Jones.
Pode não ser a mais pura música brasileira, mas é um bom princípio. Muito bom, por sinal.


PS - Não confundir não gostar de alguns tipos, com não reconhecer a qualidade de diversos artistas ou não ouvir nada e dizer mal só por dizer. Até porque quando é só dizer mal só por dizer, eu aviso.

20.12.10

O tilt do Sim-Não

Há gente que não tem papas na língua. Bem vistas as coisas, em países onde a tortura não se limita à programação televisiva, há até quem não tenha a própria da língua. Mas, o que a mim me baralha o sistema é gente que tem dois nós na cabeça e três na língua.

“Então caro Mak, que azedume é esse” pensará o leitor que, devido à época, tem um ligeiro excesso de açúcar no sangue que lhe dá para misturar períodos de euforia momentânea no seu quotidiano. É simples, trata-se apenas um azedume de grau moderado, em relação a gente que começa invariavelmente as suas frases a contradizer-se.

“Olha, vais passar lá daqui a bocado”.

“Sim...Não, vou primeiro a casa e depois vejo como me sinto. Não é como me sinto em casa, é como me sinto em relação a sair dela”.

“Isso que estás a comer, não tem uma espécie de laxante?”

“Sim...Não, quer dizer, ainda não sinto, mas se calhar não sei”.

“Já pensaste em atirar-te para debaixo de uma ceifeira debulhadora?”

“Sim...Não, respeito imenso máquinas agrícolas, mas não me meto debaixo de qualquer uma...”

As questões são indiferentes, pois o tique é sempre igual “Sim...Não”, “Não...Sim”, “Sim...Não”. É como se fosse uma finta de corpo involuntária, que a pessoa tem para se defender de qualquer compromisso inicial em relações tão importantes como “Essa caneta é tua?”.

O problema é quando se confronta essas pessoas, tentando saber se têm a noção que essa contradição se pode tornar irritante numa conversa/convivência continuada. “Epá, mas tu tens a noção que começas a frases todas a contradizer-te?”

“Sim...

Não...”

19.12.10

Chefs, mas pouco

Já ouvi muita história sobre feitos culinários de chefs de ocasião, homens pouco dados à cozinha que, por necessidade ou motivação inspiracional, se superaram na confecção de iguarias excepcionais que, no limite, não conduziram ninguém aos cuidados intensivos.

No entanto, não raras vezes, ouvi desdenhar de proclamados chefs que, gabando-se previamente dos seus feitos, não passaram depois do douradinho, do chamado bife da sola e do arroz tapa buracos. Nesses aspectos, recordo sempre uma história que me mostrou que a magia da cozinha às vezes reside apenas na forma como contamos as coisas.

Em tempos de universidade, um amigo convidou-me para ir jantar a sua casa. Apesar de não conhecer os seus talentos culinários, pensei que no limite iria safar-me com uma pizza ou não comprometedor. No entanto, não resisti a perguntar-lhe qual seria o prato principal.

“Ah, meu caro, é uma especialidade minha – salsichas recheadas artesanalmente”.

Desconfiado, perguntei “Define lá artesanalmente...”

“Então, é tudo preparado à mão, não há cá coisas de fast food. Depois logo vês”.

No dia combinado, lá fui eu, com um sorriso nos lábios, pastilhas digestivas no bolso e o INEM preparado em pré-marcação no telemóvel. Poucos minutos depois, descobriria o segredo das “salsichas recheadas artesanalmente”.

“Chegaste mais cedo. Estava agora a rechear as salsichas...”

“Posso ver essa iguaria em preparação?”

“Claro, entra.”

Lá o segui até à cozinha. Procurei salsichas frescas, um tabuleiro de carne e encontrei algo nobre – uma lata. O seu conteúdo, espalhado na bancada era agora rachado ao meio, pelo meu “chef” amigo, que a seu lato tinha o seu recheio “artesanal” - nada mais, nada menos, que fatias de queijo, daquele que tem a distinção de vir dentro de saquetas de plástico.

Aberta a salsicha ao meio, a fatia de queijo era aí inserida, para depois ir ao forno uns segundos. Tudo artesanal.

Do sucesso do prato principal não reza a história. No entanto, a entrada artesanal “barrigada de riso” permanece memorável até hoje. E, se até essa altura eu já tinha alguma desenvoltura na confecção gastronómica, a partir daí melhorei imenso numa especialidade culinária – temperar os pratos com os nomes mais absurdos que consiga criar. A partir daí, o céu da boca é o limite...

16.12.10

Entrada a pés juntos no Facebook

Bandalho dado à interactividade virtual, decidi aqui há uns tempos criar um perfil facebookiano para poder dar largas ao dichote artístico que tantas vezes pulula no meu ser. Não crendo eu estar à altura de um patamar de figura pública, criei um perfil pessoal para a minha persona bloguística, sem pretender por algo mais do que aquilo que ela é. O meu número de amigos foi crescendo, nada do outro mundo, mas quase sempre por adição dos outros e muito mais raramente pela minha própria acção.

Até que descobri esta semana que o Facebook tem as suas regras e, pelos vistos, eu estava em incumprimento grave das mesmas. Apesar de nunca ter tido um comportamento incorrecto (para além de um idiotismo itinerante), de não ter usado perfil para qualquer spamming, flamming ou outro tipo de actividading suspeiting, o perfil foi desactivado sem qualquer pré-aviso. Posteriormente, recebi na minha caixa de email, um email standar do Facebook, explicando-me as regras e em que é que eu estava em incumprimento das mesmas, assim como o que teria que fazer para rectificar.

Apesar de constatar que diversos perfis semelhantes ao meu continuam activos e com uma clientela bastante superior, não posso contestar a legitimidade da acção do Facebook no meu caso. Contesto sim o cariz aleatório da acção punitiva e a relatividade de haver ou não pré-aviso, dada a falta de antecedentes ou uma acção deliberada da minha parte, isto não sabendo sequer se a suspensão se deveu a denúncia de alguém ainda mais retorcido do que eu.

Não vou ficar a chorar sobre Mak derramado e posso dizer que estou até já em conversações com o Facebook para comprar a plataforma ou, em alternativa, desbloquear as coisas de forma a poder redireccionar as pessoas para o local certo.

E, por local certo, pode entender-se esta nova página - Mak, o autor e renomada figura pública, que depende apenas da vossa boa vontade, para ser likado e divulgado convenientemente.

E assim a vida, tal como a morte, acontece


Obrigado Carlos, por durante tantos anos teres ajudado tanta coisa a acontecer.

14.12.10

O WikiLeaks lá da minha rua

Vejo o assombro com que o fenómeno WikiLeaks chegou aos tops noticiosos e é ingrediente essencial em qualquer conversa de café em que se queira passar a impressão que nela participam pessoas muito focadas na actualidade.

Apesar de já conhecer o site há algum tempo (frase ideal para projectar a minha imagem de camafeu muito up to date), compreender que a nuance digital torna tudo mais trendy e que política e cowboyada diplomática sempre foram um mimo em termos mediatismo, chateia-me que isto do wikileakismo já não seja coisa nova.

Relembro com alguma saudade o tempo que a Dona Suzete, porteira do meu prédio, fazia de WikiLeaks lá da rua, uma espécie de Julian Assange do seu tempo mas de bata às flores e excesso de peso. Como quem não quer a coisa, mas querendo sempre, lá ia partilhando dossiers confidenciais diversos: sobre a senhora do 4º andar que, apesar de divorciada, ainda recebia o ex-marido à noite em casa, sobre a maneira como aqueles do prédio amarelo tinham conseguido comprar carro novo, apesar de estarem atolados em dívidas ou de como as drogas e não o trabalho nocturno eram responsáveis pelo ar desmazelado do filho da senhora da mercearia.

Indiferente a protestos e acusações, infundadas na sua opinião, de que era puramente uma quadrilheira, Dona Suzete continuou a fazer serviço público, sem colocar filtros na comunicação acessível ao público disposto a dar-lhe ouvidos.

A comunidade internacional passou ao lado do papel desta mulher na liberdade do acesso à informação. É natural, a minha rua não ficava em caminho para a comunidade internacional. E assim Julian Assange colhe agora os benefícios daquilo que, à sua maneira retorcida, Dona Suzete já tinha começado a fazer muitos anos antes, sem ajuda da Internet.

13.12.10

Os filmes de terror e os mariquinhas pé de salsa


Vou aproveitar que tenho aqui dois minutos e vinte sete segundos livres para dizer uma coisa – gosto de filmes de terror, de filmes de zombies (Manoel de Oliveira not included) e filmes que têm que ver com o sobrenatural (tirando banhadas de vampiros e monstros fofos que só precisam de alguém para amar).

Como me sobrou um minuto e quarenta e nove segundos, aproveito ainda para uma palavrinha sobre os mariquinhas pé de salsa que não gostam do género porque mete medo, faz impressão ou não gostam de ver coisas esquisitas.

Eu que vos apanhe a ver noticiários onde o estropiado e o mutilado convivem com as batatas assadas do jantar, onde as explosões, os atentados e os acidentes com tudo calcinado ficam algures entre o “passa o sal” e o conforto do sofá do lar.

É que o terror ficcionado deixa-me o conforto de ser aquilo que é e nada de mais. Já os horrores reais que passam na televisão metem-me medo, não só por serem aquilo que são, como por mostrarem um bocado daquilo que podemos ser.

É por isso que evito noticiários em que o sangue e a miséria escorrem da televisão. Para tomar um banho de realidade prefiro sair à rua.

6.12.10

Três homens e um (gajo a ouvir conversa de) bebé

Prevenindo que certos almoços se convertam em martírios de início de semana, reservo sempre a segunda feira para almoços com gajos de barba rija. Assim, por norma, animadas conversas sobre futebol, calendários Pirelli e o método mais hardcore para beber 10 imperiais de seguida permitem-me, se assim enteder, manter um estatuto de observador pouco participante.

No entanto, eis que ao fim de duas garfadas vejo três marmanjões, que fariam o comum transeunte mudar de passeio ao avistá-los, a falar entusiasticamente sobre os seus rebentos. Sendo eu portanto a única criança à mesa, eis que me vejo de repente num limbo “O que é isto? Durante anos, sempre ouvi histórias de mulheres que dissecam a vida dos seus bebés, partilhando histórias de alegria, choro e necessídades básicas à hora da refeição. Aliás, eu já fugi desses épicos mascarados de refeições. Mas isto...”

Indiferentes aos meus balões de pensamento, este trio de machos virados em cordeiros paternalistas debatia qual o melhor filme para putos, qual a melhor maneira de adormecer a criança (a piada: “com whisky”, não foi bem recebida), o prazer de o ver a fazer xixi sozinho e até as agruras dos subornos infantis em tempo de Natal.

Creio que estivemos a segundos de sacar fotos da carteira e trocar contactos de pediatras e só a minha rapidez de movimentos, levantando-me e olhando para o relógio, poderá ter evitado uma ou outra lágrima de emoção.

Regressei do almoço com a sensação de que já não se pode confiar em ninguém para manter a ordem estabelecida das coisas.

Para provar isso, fui meter conversa com duas miúdas, para ver se sabiam o resultado do Real Madrid. “Ganhou o Real” disse uma “Dois golos do Ronaldo”, acrescentou a outra.

Afastei-me, com alguma consternação no olhar. O fim do mundo aproxima-se....

3.12.10

Os factos da vida

Desta vez, não são precisas palavras minha para ilustrar esta questão. Basta um senhor chamado Michael Gambon, com um bonito english accent, a explicar sumariamente como é que, por vezes, as coisas se passam na vida.

E um senhor, que alguns conhecem agora como 007, a ouvir com a cara ligeiramente esmurrada.

2.12.10

O cacilheiro dos segundos contados

Todos os dias era sempre a mesma coisa e tudo se decidia numa questão de segundos. Bastavam uns segundos a mais na cama, uns segundos a mais no banho, uns segundos a mais a decidir a roupa ou uns segundos a mais ao pequeno almoço e tudo estava perdido.

O cacilheiro das 8.38 não esperava por ninguém. Bem, no caso dela talvez abrisse uma excepção, mas uma excepção de breves segundos.

Tal como se fosse uma repetição gravada, todos os dias chegava à estação com o aviso final a soar nos altifalantes. Ofegante, passava a correr pelos torniquetes, esgueirava-se pelas cancelas, intstantes antes destas se encerrarem e ouvia o barulho dos seus saltos a ecoarem ao longo da rampa, chegando primeiro que ela ao velho cacilheiro.

As amarras já estavam soltas quando entrava na ponta final do cais, a pequena plataforma de madeira já tinha sido retirada e apenas aquele velho marinheiro de barba e casaco coçado, com aquela expressão seca típica de quem já passou muito tempo embarcado, passia dar conta da existência dela.

Todos os dias ele lhe estendia o braço, desafiando-a para um salto curto que a ela lhe parecia olímpico. E todos os dias ela hesitava um segundo, antes de saltar e sentir o braço dele a prendê-la com a mesma segurança com que amarrava e desamarrava cordas.
Trocavam sempre um sorriso “Foi à continha, menina. Amanhã se calhar não faz outra igual.” dizia ele, trancando a portinhola de ferro e seguindo o seu caminho ao longo do convés. E ela agradecia, com um “Obrigada” sumido, que ele correspondia apenas com um acenar de cabeça.

E foi na manhã em que se apercebeu deste facto cíclico, que se apercebeu também que acabava de perder os segundos que nos outros dias lutava para conservar. E correu o dobro, o triplo para tentar recuperar o tempo.
Entrou na estação apenas uns segundos depois do aviso final. Passou nos torniquetes e quase que ficava presa na cancela que se fechava. Descalçou os sapatos de saltos para correr ainda mais depressa.

Não se ouviram passos a ecoar rumo ao cais.

Talvez por isso, Alberto, o velho marinheiro de barba e casaco coçado tenha pensado uns segundos antes “Olha, não há concerto de sapatinho finório, foi hoje que não se safou”, voltado as costas embrenhado nesse pensamento, esquecendo-se por um instante de trancar a portinhola de ferro.
E ela, vendo a portinhola aberta e a distância entre o cais e o barco apenas uns segundos maior, terá pensado “É hoje que salto a sério”. Não sentiu o braço forte do costume a segurá-la. Sentiu apenas o vazio e uma sensação de choque ao entrar na água fria e suja do rio.

“Amanhã não faz outra igual” ouvia ela na sua cabeça, enquanto via o cacilheiro das 8.38 afastar-se, sem a passageira dos segundos contados a bordo.

A vida é como uma maratona

Do ponto de vista pseudo-filosófico-suado

1km – Não fazes a mínima ideia no que estás a meter
5km – Ainda te sentes bem e achas que estás na maior.
10km – Começas a sentir pela primeira vez a dimensão das coisas. No entanto, és maioritariamente optimista.
20 km – Começam as queixas. Sentes-te ligeiramente injustiçado, mas esforças-te por cumprir.
30km – Que se f%&a o optimismo. É uma vergonha não haver forma de chegar à meta. Arranjas forma de culpar o Governo por parte das coisas.
40km – Muita gente te deixou para trás e provavelmente sentes-te sozinho. Resignado continuas, dizendo que aos 10km é que era bom e que só não desistes, porque não és de te queixar.
42km – Chegas à meta a morrer.

Aceito encomendas de analogias para o Natal.

30.11.10

A sobremesa - Conclusão

(se gostam de ler contos idiotas do início, é melhor voltarem dois posts atrás)


O segurança foi com ela e, em poucos instantes, voltavam à mesa onde ela tinha estado com o miúdo, o Petit Gâteau e o seu amigo bola de gelado.
“Então, o miúdo, evaporou-se?” O segurança parecia estar a gozar o facto de não se ver nada para além de um tabuleiro vazio e da mala e do casaco que ela tinha deixado para trás.

Perplexa, ela olhou à sua volta “Ele estava aqui, comeu um doce...começou a sentir-se mal”.
“Mas é o seu filho?” O segurança exprimia agora a sua preocupação, tirandou algum lixo das unhas com um bocadinho de papel.
“Não....ele estava aqui a lanchar. Quer dizer à espera, a mãe foi às compras...e eu...” calou-se pensando no que podia correr mal se dissesse que tinha dado um doce a uma criança que tinha entrado em convulsões. “Bem, pode ajudar-me a ver se ele está nas casas de banho?”

Meio a contragosto, o segurança lá foi com ela. Dividiram-se, ela foi ao das mulheres e ele ao dos homens. Passados alguns segundos, estavam de novo no átrio.
“Minha senhora, não vi miúdo nenhum, a não ser que fosse um miúdo de cinquenta anos, barba e alguns problemas com gases”. A falta de paciência era agora notória.

“Pois...eu também não o vi...se calhar foi ter com a mãe...” Estava agora completamente desconcertada com todo aquele episódio.
“Ok, se depois o encontrar, desej-lhe as melhoras da minha parte” O ar irónico do segurança, abanando a cabeça enquanto se afastava, não ajudou.

Voltando à mesa, olhou de novo em volta, sem ver o miúdo em nenhum lado. Aquela história toda tinha-a a deixado à beira de um ataque de nervos. E a pensar novamente no Petit Gâteau e no seu amigo bola de gelado. Voltou de novo ao balcão e pediu, algo desanimada:
“Olhe, é mais um Petit Gâteau com uma bola de gelado”.
A empregada brasileira sorriu e dirigiu-se à caixa de pré-pagamento.
“São uma delícia não é? Mas dois de seguida não é para qualquer mulher...”
A sua expressão apagou a vontade de sorrir da empregada.
“São 3 Euros e 20” disse, passando-lhe o talão.

Abriu a a mala e procurou a carteira. Como em tantas outras vezes, não a encontrou à primeira, por isso remexeu as três mil coisas que lá tinha dentro. Nada. Começando a ficar preocupada e com a empregada a torcer o nariz com o talão na mala, tentou acalmar-se.
“Ainda agora a tinha aqui. Deixe-me só despejá-la em cima da mesa”. Conforme os objectos se iam acumulando, o nervoso voltava a crescer. “Não a encontro...se calhar, enquanto fui ter com o segurança....Desculpe eu tenho de ir ver disto.”
Deixando o balcão e o Petit Gâteu com o seu amigo bola de gelado para trás, caminhou de cabeça baixa para uma nova conversa com o segurança. Tudo culpa daquela porra de chocolate.

Entretanto, na maior loja de brinquedos do centro, um miúdo de cabelos despenteados comprava um grande brinquedo com notas certinhas.
“Então, vens comprar isso sozinho?” A senhora da loja sorria para ele. “Ainda por cima todo lambuzado de chocolate”.

“Estive a lanchar com uma amiga” – sorriu de volta – “E como ela perdeu a carteira, a minha mãe foi com ela ajudar a procurá-la”.

A sobremesa - Parte 2

(se gostam de ler contos idiotas do início, é melhor voltarem um post atrás)

Um miúdo, de cara rosada e cabelo despenteado estava agora sentado à sua frente, com o peit gâteau e o seu companheiro bola de gelado a servirem de fronteira. Parecia não ter mais de 10 anos e usava uma camisa e pullover que se assemelhavam a um uniforme da escola e os seus braços estavam cruzados, como se à espera de uma reacçção dela. Falou, com uma voz de criança, que parecia ter um certo timbre de adulto.

“A senhora vai comer isso ou não?”
Surpreendida, respondeu atabalhoadamente “Bem...eu, não sei, talvez..”.
“Vai ou não vai? É que a minha avó diz que quem deixa comida no prato vai para o Inferno...”
O tom de voz dele, insinuante, ainda mais a atrapalhou “Pois...se calhar devia”.
“Mas, se calhar a senhora não quer ficar mais gorda...” aquele mais teve o efeito de uma pedra da calçada a bater-lhe nas costas “...mas eu posso ajudá-la. Eu fico com o bolo e assim a senhora não vai para o Inferno”. Sorriu, piscando os dois olhos.

Ela riu-se, dissipando algum nervosismo. Estes miúdos estão cada vez mais espertos e atrevidos, pensou. “Ok, pode ser que cheguemos a um acordo. Aonde está a tua mãe?”
“Ah, ela anda nas lojas lá em cima e eu disse-lhe se podia vir lanchar. Só que me esqueci de lhe pedir dinheiro e agora estou aqui à espera cheio de fome”.

“Tudo bem” disse ela, empurrando o tabuleiro do Petit Gâteau, aliviada por ter alguém a quem passar a tentação “Mas depois não vás dizer à tua mãe que andaste a comer porcarias, que ela ainda me bate”. Sorriu novamente, muito satisfeita com a sua piada.

O miúdo começou a comer sofregamente a sobremesa à colherada. Em menos de um minuto, tanto o Petit Gâteau como o seu amigo já não passavam de uma doce memória.
Ainda com os beiços cheio de chocolate, o miúdo sorriu de forma estranha.
“Oh, não, a minha mãe nunca diria que isto é uma porcaria. Creio que utilizaria mais a palavra veneno, pelo menos é o que ela costuma dizer-me. Nunca comas chocolate filho, que com a tua alergia isso para ti é veneno.”

O sorriso dela desapareceu de imediato “Mas tu és alérgico a chocolate???”. Calmamente, lambendo um dedo, ele sorriu novamente “Sim...ao mais alto grau. Começo a suar...”, conforme disso isto começou a tentar abrir um pouco do colarinho da camisola “...depois tusso...e finalmente entro em convulsões”. Mal acabou de falar, sempre a sorrir, contorceu-se de repente com violência, tossindo e começando a rodar o seu corpo em estranhos movimentos.

Ela levantou-se de imediato e olhou em volta. O tempo tinha passado e a zona de refeições estava agora praticamente vazia. Correu em direcção à entrada, onde estava um segurança.
“Por favor, venha comigo, há ali um miúdo que se está a sentir mal”.

A sobremesa - Parte 1

Frente a frente, ela olhava para ele, tentando abstrair-se da sua existência, sem conseguir mais do que breves instantes de sucesso. Como conseguiria, se ele a tinha seduzido de forma tão eficaz e a sua tendência para a língua francesa só tinha ajudado à festa.

Petit Gâteau dizia ele que era o seu nome e bola de gelado era como se chamava o seu amigo. Apesar da abordagem ter sido de encher o olho, a sua primeira reacção foi voltar-lhe as costas. Não podia, não devia e depois de se ter separado de algum peso não estava pronta para voltar a cair numa relação assim.

“Oh ma chérie”, começara ele, “Não vês que já estou quente e o meu amigo começa a derreter-se por ti”. Hesitou, e ele percebeu logo que era o momento certo. “Só precisamos de uns minutos juntos para sermos felizes e mais ninguém precisa de meter a colherada...”

Pagou apressadamente ao balcão e foi sentar-se com o tabuleiro. Suspirou, pensando que tinha sido por pouco e relaxou. Foi então que olhou para o tabuleiro e o viu lá, luzidio e com o seu amigo sempre ao lado, cada vez mais derretido. Mas...como era possível, não se recordava de ter saído com ele.

Bem, se calhar tinha sido o destino e visto que já estava pago...deu por si a pegar numa colher. Fechou os olhos, numa tentativa, que sabia vã, de fazê-lo desaparecer de uma vez por todas.
Abriu os olhos e ambos continuavam lá. Mas tinham agora companhia.

29.11.10

E agora, aonde pára o Leslie Nielsen?


Não sou tipo dado ao dramatismo ou sequer um entusiasta do pastelão tétrico-sentimental. Mas, ao saber hoje que o histórico Leslie Nielsen seguiu para outras paragens aos 84 anos, não pude deixar de fazer menção ao facto.

Quem, como eu, cresceu sempre atento a referências humorísticas, certamente não o fez indiferente à série Police Squad, que mais tarde deu origem à saga Aonde pára a Polícia ou ao estilo de humor de Top Secret, Aeroplano e, mais tarde, Ases pelos Ares.

E, dentro de um estilo de gags, trocadilhos e realismo absurdo, que os ZAZ souberam aproveitar ao máximo, Leslie Nielsen foi figura de proa. Aquele ar de avôzinho simpático e uma tendência para a trapalhada muito contribuiu para largos momentos de boa disposição. É certo que a fórmula pode depois ter sido repetida até à exaustão mas, em dado momento, não podia ter sido mais divertido.

Ou, como diria o tenente Frank Drebin, “Well... We shot a lot of people together. It's been great. But today I retire, so if I do any shooting now, it'll have to be within the confines of my own home. Hopefully, an intruder and not an in-law, like at my bachelor party”.

27.11.10

Duas famílias que se odeiam fora de prazo

Pois é, não falta por aí quem já tenha ouvido falar da história do casalinho piroso Romeu e Julieta. Ai, não digas isso, que aquilo é que era amor, assim à séria, és um bruto e, atrevo-me a dizer, um bandalho.

Exacto, duas crianças (16 e 13 anos, mais coisa menos coisa) começam a namorar às escondidas, lixam a vida aos pais, brincam com venenos, não ligam para o INEM quando a coisa corre mal e depois ainda se mete suicídio ao barulho, porque o mundo está todo contra eles.

Mas pronto, também pode ser de mim, que nunca fui grande fã dos Morangos da ficção renascentista.

No entanto, não quero ser castrador e até dou esta parte de borla. Porque há aqui outra coisa que me interessa abordar – aquele drama épico das duas famílias que se odeiam e que, de seis em seis meses, a TVI e mais uns quantos aproveitam para abrilhantar o enredo das suas novelas.
Numa época de linhagens, nobrezas e outras chouriçadas tradicionais, a coisa até fazia sentido. “Epá, deixa lá o Carlitos da família Fagundes em paz, porque nós já te vamos casar com o teu primo Eduardo que, apesar de gostar de vestidos longos é o 78º na linha de sucessão ao título de Conde de Bugalhas.” Ok, a coisa podia dar chatice.

Mas, nos dias que correm, não são precisas duas famílias que se odeiem para criar enredos. O ritmo de vida e as disfuncionalidades múltiplas tornam necessária apenas uma família que se odeie para arranjar gasolina. Até porque, com tanta coisa ao mesmo tempo, as famílias mal têm tempo para cuidarem de si, quanto mais para se estarem a preocupar com os outros.

E deixem-me ficar por aqui, que o meu tio Eurico disse que vinha cá jantar e o facto de estar ali aos murros à porta há quase três horas e parece que fingir que não estou em casa não está a resultar.

26.11.10

Porquê o nome de Mak, porquê?

Às vezes sou abordado por pessoas que me perguntam, com algum entusiasmo “Mak, porque é que o Gregori Perelman se recusou, em 2006, a receber a medalha Fields, uma das maiores distinções existentes ao nível da matemática?”.

Não gostando eu de me meter na vida dos outros, nem sequer quando o assunto tem a ver com Conjectura de Poincaré, prefiro explicar-lhes porque escolhi o nome de Mak, o que acaba por estar relacionado.

Ser do clã McLoud ou outro parecido não sou, também não tenho acções da Apple e McDonalds a mim não me enche as medidas. A razão de eu ser Mak, tem a ver com um cromo, este cromo que aqui vos apresento.




Este, que é pai de outro artista actual com o mesmo apelido, foi um cromo mesmo difícil numa das colecções que fiz em tempos. O bandalho custou-me mais de 20 cromos em troca. E, porque a modéstia não me impede de me considerar um da mesma laia, adoptei a abreviatura. E isso leva-nos de novo ao camarada Perelman, que é dos cromos mais difíceis do mundo da geometria e da matemática já que não só recusa tudo quanto é prémio e distinção, como tem um penteado a condizer e diz que agora já nem liga à matemática porque é um tema que lhe causa mágoa.

Desiludidos?
Agora imaginem o comité da medalha Fields...

25.11.10

Não tenho tempo para mandar cantar um cego

Mas, graças às novas tecnologias, posso ir ao Youtube sacar dois de borla.




Infelizmente (ou felizmente) nos últimos tempos tem sido assim. Falta-me o tempo, sobram-me as boas razões para ele faltar. No entanto, sendo português, ficava-me mal não me queixar.

E agora, fingindo que me preocupo, do que se queixam vocês?
(Falta de critério e bom gosto não é necessário referir. Afinal de contas, estão aqui não é verdade?)

Emmy aqui a ver se ela deixa

Não sei o que vos diga sobre isto. Se é tudo mau ou se já deu a volta, se as drogas não deviam ser permitidas em cerimónias, se o facto de existirem decotes que falam por si poder e dever evitar que certas pessoas falem pelo seu decote.

Se a Alexandra Lencastre a fazer de carro vassoura descontrolado é possivelmente o seu melhor papel dos últimos anos e se o facto de a TVI ganhar Emmys não é apenas mais um sinal do apocalipse que aproxima a galope.




Não sei mesmo. Mas também não vou levar as coisas a peito...

24.11.10

Greve Geral de Blogs

Se há coisa que eu gosto de fazer é manifestar a minha opiniãp. Aliás, se as opiniões fossem sindicalizadas, a minha seria uma forte candidata a ser o Carvalho da Silva das opiniões, com tudo o que de mau e de bom isso possa acarretar.

Mas, em dia de greve geral, que vos posso dizer eu que as notícias, a conjuntura e o diabo a quatro não o possam fazer por mim. Nem sequer vou começar com aquela ideia que uma greve, para muita gente é um feriado e pouco mais. As pessoas sempre foram melhores a expressar o seu desagrado na mesa do café e outro tipo de situações sociais do que propriamente num acto formal de greve.
Aliás, há quem defenda que a greve de zelo, embora nem sempre quantificável, é subversivamente mais eficaz do que a oficial. Mas, por esse prisma, eu conheço quem faça greves de zelo e falta de produtividade há anos e às tantas já não se percebe o que é desempenho e o que é greve...Se calhar o objectivo é esse.

Posto isto, se quero aproveitar o tema e, como é costume, dizer pouco que se aproveite, podia apelar à greve geral de blogs. Argumentaria que a injustiça grassa na blogosfera, que uns têm os leitores, a fama, os passatempos e outros não têm nada. Que aqueles que melhor escrevem ou que têm as melhores ideias nem sempre são os mais lidos e que a linkagem e referenciação entre blogs contribui para o perpetuar dessa desigualdade.

A bem da greve geral de blogs alegaria ainda que há uma falta de valores, que toda a gente fala muito sobre nada e que as raízes da maledicência destroem o que de bom e aprazível a blogosfera possa ter. Que há censura nos comentários e que há tantos blogs que precisam de comentários como de pão para a boca, tal como há bloggers que estavam mesmo era a pedir um pão na boca.

Podia dizer que há gente a inquinar o mundo virtual, que isto está tudo mal e, pelo meio, conseguir culpar o governo. Podia dizer que se cria um universo cor de rosa no monitor só para não ver o negrume que vai lá fora. Que há bloggers que não têm conteúdos mínimos para sobreviver ao fim do mês e choram em silêncio, ao passo que outros esbanjam conteúdos de fazer chorar.

E depois diria para não se publicar nada e que era uma prova de força e as pessoas iam ter que fazer alguma coisa. Mas depois percebi que isso podia implicar com o facto de “essa outra coisa” ser trabalhar, em vez de estar a usar o tempo para fazer render blogs.

Foi então que percebi que a coisa não ia funcionar por conflito de interesses. A não ser que os blogs em greve se fosse manifestar todos para o Facebook. E aí já dava para não perdermos tempo a trabalhar, sem prejudicar ninguém...

22.11.10

O nefasto efeito de palavras como vaselina, pacote ou bilha

Há coisas que acontecem por via do destino, mais do que por vontade própria dos intervenientes. Desde o efeito de riso quando alguém cai ou se espalha à nossa frente, às expressões que apanhamos da televisão e da publicidade e que se tornam respostas automáticas a tender para o idiota (a não ser que se seja o anunciante citado), como por exemplo: “Novidades? Só no Continente”, “Podia, mas não era a mesma coisa” ou até o épico “Tou Xim”.

No entanto, entre machos que gostam de fazer valer esse estatuto, há um dicionário paralelo que tem um efeito ainda mais gritante ao nível do estímulo reflexo. Se têm saudades dos tempos em que faziam experiências com kits de ciências ou, para os mais hardcore, com o gato da vizinha, é fácil fazer pequenos exercícios nesta matéria. Experimentem utilizar as palavras “pacote” ou “bilha”, seja ela de gás ou não, na presença de rapaziada que goste de um bom trocadilho boçal e a festa está feita.

Primeiro temos as reacções mais comedidas, com um sorriso pseudo discreto de quem sabe que um pacote não tem apenas de ser um pacote e uma bilha pode oferecer muito mais do que gás, “Eu sou macho e estou consciente da aplicação dessas palavras”.
Depois, temos o gracejo que utiliza essas mesmas palavras, proferido em surdina, que implica normalmente uma repetição dúbia da palavra “No pacote??”, “Qual bilha???”.
Finalmente, temos a loucura completa ou a caminho disso, com sequência de trocadilhos boçais, desafios à masculinidade alheia dos interlocutores e a sensação de bem estar proveniente de um conforto que pode até ser algo alarve, mas faz parte do código genético da rapaziada.

“Ouve lá, meu trovador de léxico de trazer por casa, mas tu por acaso és alguma princesa isenta desse tipo de linguagem?” perguntará o leitor de bilha mais inflamável.

Claro que não, até porque este pensamento me surgiu ontem durante 20kms em corrida, em que as palavras licra e vaselina apesar de surgirem inocentemente como material de apoio ao corredor, foram depois utilizadas por um grupo de machos, no qual me incluo, para piadas grosseiras, bitaites profanos e afirmações indecorosas, no meio de risos trocistas.

Não é classe pura, mas ajuda a distrair dos quilómetros a passar e de algum cheiro a suor latente.

19.11.10

Desculpa, mas não tens piada.

Durante a nossa vida, existem coisas que temos dificuldade em explicar às pessoas. Às vezes, são coisas corriqueiras, seja como se vai do Hotel Zenit para a Maternidade Alfredo da Costa, as razões que nos levaram a sair à rua com uma camisa amarela às bolas cor de rosa ou os princípios da física quântica. Mas, noutros casos, são matérias que mexem com a vida das pessoas.

Se é claro que nunca será fácil explicar, ainda que seja evidente, que alguém está a ficar gordo/a, careca ou que aquela nórdica esbelta nua deitada na cama é apenas uma sem abrigo que encontrámos encharcada na rua e que acolhemos sem outra intenção que não a da pura caridade, mais difícil ainda é explicar aquilo que tem a ver com as características humorísticas de alguém.

De um lado temos os receptores, entre os quais é difícil encontrar quem reconheça “Ah, eu tenho um fraco sentido de humor” ou “Epá, eu não tenho propriamente um faro apurado para o humor”. É muito complicado explicar a alguém que não tem sentido de humor, pois se o tentas fazer de modo engraçado, a pessoa não percebe a piada e se o tentas fazer a sério, a coisa passa a ser uma lição sobre humor. E, se há coisas que as pessoas não gostam, mais até do que não perceber uma piada, são lições em que lhes falam das suas limitações no campo do entendimento humorístico.

Do outro lado, o bico de obra – gente que tem a mania que tem piada. Sem recurso à violência, é quase impossível explicar-lhes que isso não é bem assim. Primeiro que tudo, se lhes dissermos “Epá, não tens piada”, eles vão acusar-nos de sermos as pessoas que descrevi no parágrafo anterior. Se fizermos o apelo de grupo “As pessoas não te acham piada”, para além de querer saber nomes, se for preciso o pseudo-engraçadinho vai confrontar toda a gente e haverá sempre gente que sofre de falta de frontalidade. Finalmente, o grande problema – ele vai mostrar-nos que tem piada o que, não a tendo, se vai certamente tornar num calvário.

E é por isso que, a bem da sanidade mental, há coisas que não se devem explicar, tal como a piada que este blog podia ter.

18.11.10

O problema dos homens com discurso grande



...é sujeitaram-se a ficar marcados por uma frase pequena.

És daqueles que conheces pessoas?

Há pessoas que têm a mania que têm contactos e conhecem pessoas, especialmente quando querem mostrar que é importante ter contactos e conhecer pessoas. Por norma, quanto mais mania têm, menos importantes são os seus contactos e menor é a sua relevância junto das pessoas que dizem conhecer.
Isto porque, quem realmente tem contactos e conhece pessoas, não tem a mania. É lhes perfeitamente natural conhecê-las e não há mais razão para destacar isso do que eu dizer que conheço o meu primo Fernando. É natural, é meu primo, mesmo que às vezes eu finja que não o conheço.

Por isso, por oposição, respeito mais as pessoas que falam com os jogadores durante um jogo de futebol, dando-lhes dicas e recomendações que possivelmente não lhes ocorreriam, como “Passa a bola”, “Chuta” ou “Não deixa, não deixa”. Também respeito mais pessoas que falam com os filmes que vêem em casa, dizendo aos actores “Não vás por aí”, “És tão burra” ou “Epá, és tão nojento”. Apesar de não conhecerem as pessoas de lado de nenhum, a sua proximidade, ainda que ligeiramente alucinada, é sincera e com boas intenções.

Já as pessoas que dizem ter contactos e conhecer pessoas, por norma não me servem de muito nem me dão grandes alegrias. Servem-me apenas para eu poder dizer que conheço bem esse tipo de pessoas e que tento não ter grandes contactos com elas.

O doping do povo

Dizia um senhor filósofo de barbas e sotaque alemão que a religião era o ópio do povo. Dizem os tempos modernos que a bola é o doping do mesmo povo que, pelo que se vê, é danadinho para as drogas.

Por isso, ontem (e hoje por rescaldo) o povo português teve direito a um dopingzinho de primeira, servido no Estádio da Luz. Noite fresquinha, mas sem vento e chuva que valha a pena referir, campeões da Europa e do Mundo do outro lado e uma boa dose de adeptos espanhóis animados, a pensar que iam ser férias e passeio.

Depois, os vapores do doping começaram a fazer efeito e, em 90 minutos, veio uma festa com quatro golos (que foram cinco), alguns olés de trazer por casa, muita gente a saltar ao som do êxito da noite “E quem não salta é espanhol” e o facto de que o penteado do Paulo Bento resulta melhor que a careca do Queiroz.

Ainda a sentir os efeitos do doping, o povo foi para casa contente e expressões como “a crise”, “orçamento de Estado” ou “cimeira da NATO” deram lugar a gritos de “Assim é que é”, “Ganda Ronaldo” ou “Pão c/ chouriço quentinho, é comprar, é comprar”.

Não há relatos de mulheres que tenham levado porrada quando os machos vieram da bola. Também não há relatos do inverso. No entanto, o doping do povo pode ter contribuído para uma ou outra faena mais ardente de amor doméstico.

O efeito passa depressa, a pomada da NATO também faz efeito mas, por uma noite, o povo foi dopado e não houve grande mal nisso.

17.11.10

Duelos de argumentação - Confúcio vs Ivete Sangalo

Quando numa reunião pejada de gente com poder para te fazer a folha ouvires o seguinte argumento pseudo filosófico:

“Como dizia Confúcio, se não tentarmos chegar à Lua nunca tiramos os pés do chão.”

Deverás então contrariar com todas as forças do teu ser, a vontade de responder:

“Mas, para tirar os pés do chão não é preciso recorrer a Confúcio, basta ir à Ivete Sangalo.”

Assim, viverás mais tempo no seio da firma para poderes utilizar os seus recursos e fazer posts que as pessoas venerarão pela sua sabedoria.

O sexo e o convento

Num cenário espiritualmente trend setting, juntaram-se quatro amigas e velhos hábitos. Com aguardentes artesanais, as paredes húmidas de um convento e um baralho de cartas numa tarde fria e já se sabe que a coisa só podia aquecer.

- Irmã Laura, disse-me uma santinha que já conhece bem o frade italiano que está a passar uns meses na abadia – a Irmã Sara fez uma pausa para sorver um pouco da sua aguardente de melaço, não sem antes sorrir maliciosamente.

- Vá, não seja assim Irmã Sara – era a vez de Irmã Carolina falar, enquanto mantinha o olhar na sua mão de poker – A Irmã Laura não conhece melhor o frade italiano do que você conhece aquelas courgetes que estavam no cesto dos vegetais.

A irmã Sara preparava-se para responder, mas foi a Irmã Mónica que se antecipou, apagando o cigarro de cânhamo na caixa de esmolas que estavam a usar como cinzeiro:
- Quem diz courgetes, diz alho francês, cenouras e até um cacho de bananas que por lá andava – Irmã Sara olhava agora para o chão, enquanto servia mais um copo daquela pomada que tanto conforto lhe dava – E digo-lhe mais Irmã Sara, se quer ter encontros com o Senhor assim, por favor não descasque as coisas. É que depois nota-se, quer no sabor da sopa, quer da salada de frutas.

- Irmã Mónica, deixe lá a rapariga e a sua devoção por vegetais, que é a sua vez de jogar – Irmã Laura fez uma aposta e recostou-se na cadeira – O Irmão Giuseppe quis passar a tarde de ontem a rezar e agora estou que nem posso das costas.

Depois de pensar por uns instantes, Irmã Mónica mandou o seu jogo abaixo e suspirou – Pois é Irmã Laura, tem sorte em ter quem a acompanhe nesses mistérios. É que eu, por mais que reze, não tenho um Irmão Giuseppe para me dar hábitos Deus&Gabana...

Irmã Carolina não evitou uns risinhos, enquanto cobria a aposta de Irmã Laura – Quem vê hábitos não vê sandálias não é Irmã Mónica? Porque quando cá esteve Monsenhor Manolo de Espanha, devem ter sido preciso muito terço e muita penitência para ficar com umas sandálias como as suas...

Já com muitas contas de rosário em cima da mesa, o trio de Valetes de Irmã Laura bateu os dois pares de Irmã Carolina, que não evitou o desabafo “Nem Santa Rita me vale contra um trio...”

Foi a vez de Irmã Sara ripostar “Ora, deixe lá Santa Rita atender as preces de quem precisa, porque quando da última peregrinação, não a vi queixar-se quando teve de lidar com os três missionários argentinos...”

Riram-se todas e brindaram com mais uma rodada de aguardente artesanal. Em breve os sinos tocariam e aqueles momentos dariam lugar a outros mais severos. Mas, enquanto houvesse fé no mundo, aquelas quatro amigas não faltariam momentos para conviver e mostrar que há hábitos que nunca se esquecem.

16.11.10

O cinzento profissional fica-vos tão bem

Não tenho andado a ver demasiados programas de rebenta a bolha do guarda-fato, nem tenho nenhum autocolante do Tim Gunn colado no monitor. Mas, trabalho num edifício onde não faltam consultores, xpto advisors, seres supremos na arte da auditoria, especialistas financeiros e tecno-yuppies pós modernos e constato um pormenor que me intriga.

Creio que se confunde facilmente um ambiente profissional mais formal com um cinzentismo oficial de embarda. E, se por um lado “beneficio” de ter um ambiente que é precisamente o inverso, onde até o calção é permitido e é fácil cair na viagem na maionese, o fatinho standard e a gravata colorida assumem o papel de fato de macaco do profissional moderno de serviços.

Sim, Portugal é um país de serviços, mas não tem de ser um país de cinzentos. E isto não tem a ver com códigos formais (embora, creio eu, ainda estejamos longe de ver um caixa de banco com brinco, como já vi em Londres), tem a ver com facilitismo.

De facto, homem de fato e gravata é coisa elegante, reforça diversos aspectos e confere distinção. Mas eu entro num elevador e vejo um gajo que pensou no que ia vestir e oito que foram ao armário em piloto automático. Ok, o patamar também se diferencia em termos do dinheiro investido na farpela, mas isso não é tudo.

Epá, mas isto agora é preciso um livro de estilo e essa bichanice toda, só para ir trabalhar?
Não, basta o senso comum. Se olhamos para um grupo de homens de fato de macaco, mesmo sem falarmos com eles, estabelecemos uma imagem mental das suas capacidades e daquilo que representam. Se olhamos para dez gajos de fato, cópias uns dos outros, e o mesmos objectos de status a compor o ramalhete (do telemóvel ao MP3, passando pelos óculos escuros e o jornal de relevância, o que será que os diferencia?

Será certamente, num campo mais profundo, a sua competência mas meus amigos, vivemos numa era da imagem. E o facto é que um fato, por si só, hoje já não chega para fazer a diferença.

Agora que já me obrigaram a falar de roupa, vou ali abaixo mandar uma garrafa ou duas garrafas abaixo, mandar uns bitaites ordinários às empregadas e dizer que amanhã vou arranjar porrada com uns espanhóis no estádio. É que estou com medo de ficar com vontade de falar de papel de parede já a seguir.

Interlúdio alucinado das 15h

Depois de se rir à grande com mais uma piada do seu amigo imaginário, voltou-se para ele e disse-lhe "Epá, tu não existes".

No maravilhoso mundo das refeições fotográficas

Há quem goste de ir a sessões fotográficas pelo glamour da coisa, pela envolvência no cenário ou, pura e simplesmente, por ser porreiro poder dizer que se vai a sessões fotográficas. Eu sou mais mundano nas minhas razões, vou essencialmente pelo catering.

Há qualquer coisa no catering das sessões que, estando bastante longe do universo gourmet, tem um toque que me seduz particularmente. Seja a forma como dispõem as peças de fruta, tal e qual naturezas mortas prontas a ir viver para um quadro ou as pequenas pirâmides de miniaturas que nos fazem sentir faraós da gulodice, não faltam pontos de interesse por detrás das câmaras.

A miúda em bikini era interessante, pô-la a dançar foi divertido, ouvir dicas de maquilhagem dá sempre jeito na presença de senhoras e fazer um ar de compincha quando algum dos machos presentes acha por bem fazer uma piada em surdina sobre o porte atlético da jovem já faz parte do cenário.

Mas, descobrir queijos diferentes no meio de pães que fazem corar de inveja o comum papo seco, provar sumos xptos e avaliar uma empada como mediana quando questionado pelo fotógrafo, isso sim é para mim o verdadeiro sal das sessões fotográficas. É que a luz pode estar crua, o bolo é que não, a foto não pode ser muito picante, mas a chamuça deve ser ousada na matéria e a miúda nunca será um pãozinho sem sal, se as carnes frias estiverem em condições.

No fim, todos saímos felizes. E, para além da felicidade e de boas fotos, há quem também traga uns frutos secos nos bolsos.

15.11.10

Dois minutos que se podem ter de volta

Convencionou o grande livro da boa educação e da etiqueta que é recomendável cumprimentar as pessoas pela manhã, quando nos encontramos pela primeira vez. Nada a opôr nesse aspecto, embora desconfie que exista muita gente que, nesse livro, não passou da capa.

No entanto, a coisa fia mais fino quando se trata da chamada conversa de circunstância, para a qual, em média, possuo cerca de 2 segundos de paciência. Acreditem que, e quem me conhece sabe que é possível, quando disposto a isso sou capaz de manter uma conversa sobre nada durante horas, se sequer suar do bigode.

Só que há gente que gosta de uma saudação matinal com atrelado, não porque se preocupe ou lhe interesse, mas porque sempre são uns minutos que se queimam a encher chouriços. “Então esse fim de semana?”, “Olha, afinal só choveu à noite”, “Tenho uma unha encravada” ou “Hoje acordei sem ramelas” são exemplos de conversa que não vai a lado nenhum.

Por esses e por outras, salvo excepções, tenho frases chave para interlúdios matinais e que, ao longo dos anos me têm ajudado a fazer muitos amigos.

“Bom dia, tudo bem. Ah, este “tudo bem” é uma afirmação, não é preciso responder.”

“Olá, bom dia. Espero que esse fim de semana tenha sido bom e que guardes a resposta para alguém que realmente queira saber.”

“Bom dia minhas senhoras. Hoje estão tão bonitas que seria um sacrilégio desperdiçarmos este momento de contemplação com converseta.”

“BOM DIA. DESCULPEM ESTAR A FALAR ALTO, MAS PASSEI A NOITE A DISPARAR UMA ARMA E FIQUEI MEIO SURDO.”


Posso parecer rude, mas ao valorizar o meu tempo, valorizo o dos meus interlocutores. Assim podem passar esses dois minutos a falar de pessoas rudes como lenhadores, em vez da habitual conversa de lamber balcões.

13.11.10

A carochinha e os canhotos

Dizem que só uma em cada dez pessoas é canhota. Faço portanto parte de uma minoria, a par da minoria de gente que consegue mexer a orelha esquerda por si só.

Mas, ao contrário da minoria de gente que mexe a orelha esquerda por si só, tem-se falado muito mais ao longo do tempo dos canhotos. Do tempo das bruxas, ao pessoal que levava porrada de três em pipa para esconder o facto de ser esquerdino, muitas coisas mudaram até hoje. Bem, os italianos ainda continuam a dizer que somos sinistros, mas pronto o que é que se há-de fazer.

Ainda hoje me disseram que é natural os canhotos terem uma esperança de vida inferior, por serem mais dados a morrer de acidentes, num mundo construído essencialmente a pensar em dextros.

Não acredito muito nisso e, pelos vistos, estes senhores também não e fica aqui um abraço para esse grande canhoto, o tio Obama. E só não perco mais tempo a explicar-vos porquê, porque me estou a esvair em sangue depois de um infeliz incidente com um descascador de batatas pró-dextros.

12.11.10

Discografia Trolha

Quiseram os deuses do Olímpia que eu crescesse entre discos, malfeitores e na vizinhança de uma estátua de cera do António Calvário (mais tarde vim a saber que não era uma estátua, mas sim o próprio do senhor).

Daí que tenha ficado para sempre em mim uma ligação ao universo do crime musical. E, quando se fala em crime, música e sons que não só nos ficam nos ouvidos como ainda nos roubam a carteira, é impossível não falar em António & Os Andaimes.

É impossível esquecer o tempo em que iamos juntos para perto do rio atirar pedras, não à água, mas sim aos idosos que gostavam de pescar por ali ou das vezes em que fomos cantar as Janeiras munidos apenas da vossa voz e um cutelo de cozinha e as pessoas nos davam alguns trocos, apesar de estarmos em Agosto.

É também impossível esquecer o convite que me fizeram para ser uma espécie de manager da banda. Especialmente porque esse convite não aconteceu. Mas estou convicto que irá aparecer, bastando para isso um aperto de mão, nem que seja ao pescoço deles.

Entretanto fiquem com esta malha, que esta rapaziada tem....bem tem seja lá o que for, desde que não seja deles.


V, de “Ainda há bilhetes para o Voyeurismo?”

Chateia-me um bocadinho esta história da trivialização do voyeurismo. De repente, olho para trás e vejo um paralelismo idiota entre o voyeurismo e o teatro de revista.
Antigamente, o teatro de revista era uma coisa valorizada, quer pela crítica de costumes, quer pelo facto de escassearem alternativas quer até pelo facto de, ao tempo da censura, ser uma forma de humor popular e ao mesmo tempo inteligente, gerando curiosidade em volta dos temas que abordava. Hoje em dia a revista sobrevive a custo, são grupos de reformados e gente de outros tempos aqueles que lhe vão dando uma réstia de público e o seu sentido como que se esvaziou. A crítica de costume, feita de forma inteligente ou mais apelativa, está difundida por uma variedade de meios e plataformas e o motor da revista, embora continue a ser a crítica, tem muito mais de boçalidade do que de desafiador e inteligente. A revista, pura e simplesmente já não é o que era e dificilmente voltará algum dia ao seu esplendor.

Já o voyeurismo, antigamente também tinha outro requinte. Faziam-se até bons filmes sobre isso e, apesar de ser algo que sempre existiu ao longo dos tempos, tinha assim um certo je ne sais quois que o seu próprio nome francês e a sua carga sexual lhe conferia. Mas, por ter esse ar elitista kinky e, ao mesmo tempo, estar ao alcance de qualquer um, existia uma certa reserva misteriosa sobre voyeurismo, mesmo aquele mais comum ao quotidiano.

Ditou a evolução do tempos que o voyeurismo se trivializasse, com o avanço das tecnologias e o refinar de certos aspectos das mentalidades. Do eixo televisivo que tornou a vida alheia cada vez mais um bem comum (reality shows e tudo mais e um par de botas), ao avanço das comunidades virtuais (Bloggers, Hi5, Facebook, etc) e até aos nossos gadgets (telemóveis que tiram fotos e filmam, entre outros), tudo isto contribui para que o voyeurismo seja o pão nosso de cada dia. Não só sabemos o que se passa na vida dos outros sem grande esforço, como temos vontade de nos expor (mesmo que em certas plataformas o façamos de modo mais ou menos anónimo).

Se em relação ao teatro de revista tenho uma opinião muito própria e definida – não gosto do que sobrevive porque é fácil e boçal (uma espécie de Malucos do Riso em palco), no que toca ao voyeurismo é difícil. É bom, é mau? Aproxima as pessoas, retrai aqueles que valorizam a privacidade? Terão as pessoas a noção das fronteiras?

Não sei e duvido que haja alguém que tenha já uma perspectiva clara do que será o futuro do voyeurismo enquanto ferramenta instituída ao nosso alcance. Mas no entanto, vou ali espiolhar uns perfis a ver se encontro a resposta no Facebook.


PS - Dúvidas sobre o paralelismo idiota? É natural.

11.11.10

Adeus ao Sr. do Adeus


Sendo eu um personagem, tenho uma certa deferência para com outros personagens. E quem conhece Lisboa, ao passar pelo Saldanha, não terá sido raro alguma vez ter encontrado o Senhor do Adeus, um verdadeiro personagem. Mas, ao contrário de tantos outros personagens de má cepa, dizia o próprio que a sua missão era fazer sorrir as pessoas, acenando-lhes à passagem de carro.

Creio que o conseguiu e, visto que aos 80 anos fez o seu último adeus, fazem falta outros personagens do seu género para fazer sorrir as pessoas. Sem dramas nem confusões, nem épicos da sensação bacoca.

Obrigadinho Senhor do Adeus, foste um personagem às direitas.

10.11.10

Metáfora visual sobre gestão de expectativas

Tarragona não é apenas uma boa terra para trocadilhos de má índole.
Muito se pode aprender sobre gestão de expectativas no seu concurso de maior pirâmide humana.

Cada um tire as suas conclusões.
Até porque se costumam vir a este blog, não têm porventura expectativas muito elevadas...

Casteller from Mike Randolph on Vimeo.

Audiófilos pouco anónimos

Não peço milagres, porque sei que nos transportes públicos isso incomoda algumas pessoas. Mas, caso seja possível, agradecia do fundo do meu coração enegrecido que aumentassem as probabilidade de, na próxima vez que encontrar alguém a ouvir música no seu mega hiper supra telemóvel com colunas xpto que dão 300 megawatts audíveis até no meio de uma festa de martelos pneumáticos, essa pessoa fosse a ouvir música de jeito.

Não peço grandes hits, a minha banda favorita ou uma playlist de me fazer corar de inveja. Peço apenas algo que não pareça que estou a fazer viagem na parte de trás de uma roulotte que serve bifanas à noite, que acabei de ficar sem fichas nos carrinhos de choque ou que estou na apresentação de uma compilação que tenha os nomes “Mix”, “Now”, “Top” e uma numeração para cima de 10.

Sei que não peço muito, mas sei também que há quem não me vá dar ouvidos. Nem que seja por ter a cabeça em papas depois de 15 minutos do Kizomba Mix Volume 17 Bora Dançá ou o DJ F$ck MY BRAINS OUT Greatest Hits.

9.11.10

Sondagem pouco científica sobre danças muito idiotas

A dança pode ser algo sensual, elegante, forte, arrebatador, suave, fluído, uma descarga de emoções, um batido de sensações, isto e aquilo, oh la la, si me gusta, tcharam da silva.


Mas, também pode ser uma parvoíce pegada, num conjunto de movimentos capaz de fazer inveja ao maior humorista físico, especialmente quando, mais do que dança, se transforma numa coreografia bacoca. Por esta altura, já alguns de vocês assobiam para o lado enquanto consultam a Burda Internacional distraidamente, afirmando que este tema nada tem a ver convosco.

No entanto, eu sei. Sei bem que, pelo meio de alguma festa, de algum copo a mais, de alguma tentativa para impressionar alguém, o momento chegou. E foi aí que, mesmo que repetindo imensas vezes “Eu não gosto disto hein, estou a fazer isto mal de propósito, hein”, foram apanhados a fazer uma destas coisas:

Dançar a Macarena, aquela mixórdia das Ketchup ou das filhas do Tomates ou lá o que era, a Whigfield e o diririrararara, o bicho que te ia devorar e o crocodilo com mau penteado eu sou, o follow the leader siga-me vai acima vai abaixo, no para ou uma dessas mixórdias que ciclicamente vão aparecendo, com coreografias que tentam superar descoordenações motoras e o senso comum.

Por isso, neguem à vontade. Mas fiquem sabendo que admissão, é o primeiro passo. Se fosse o segundo, era o passo doble.

O pré-mofo de Natal

Dizem-me a experiência e os armários que tenho em casa que, traço geral o mofo só se instala ao fim de algum tempo de os termos. No caso do Natal é o contrário, o mofo instala-se primeiro e só depois é que vem a época em si.

Nada contra o espírito de Natal e anjinhos com cáries, etc, mas imaginem que eu faço anos em Agosto e começo a chatear as pessoas sobre isso em Junho. Não é preciso ter algo de Zandinga para perceber que, antes de Julho, já ninguém me pode ouvir com essa história.

Para além de algumas iluminações natalícias a funcionar desde Outubro, já as grandes superfícies comerciais enterraram o chamado “Regresso às Aulas” com o “Cilindro Compressor de Natal”. Por exemplo, não sei qual é a esperança média de vida de uma Popota, mas esta eu já transformava numa campanha de bifes exóticos.

No espaço comercial em que tenho o prazer de fazer observações científicas quase diariamente, a falta de espaço dá lugar ao chamado “granel de Natal”. Assim, a começar temos decorações gigantescas no ar, cuja a única diversão que me proporcionam é pensar no que pode acontecer se cairem em cima de pessoas de quem não gosto. Depois, temos um stand da Zon 3D, que só está a beneficia a loja óptica do centro, já que quem olha o mega flat screen que lá têm mais depressa pensa “Epá, tenho a vista feita num oito” do que se decide a aderir aquilo que podia ser a mesma coisa, mas pelos visto não é, visto ser uma bosta bem maior.

Não contentes com a falta de espaço, à banca de madalenas com capachinho estilo Playmobil (vulgo cupcakes), juntaram agora um quiosque do que eles chamam “prendas vintage”, a lembrar brinquedos e gadgets do antigamente. Estúpido fui eu que deitei brinquedos e alguns parentes fora quando era miúdo, e que agora podiam valer algum dinheiro. Bem, pelo menos os brinquedos.

Finalmente, a piéce de résistance – uma espécie de espacinho semi privado estilo “Fashion Beauty Feel Yourself Smile” para cuidar da estética feminina. Como aquilo não chega bem a ser privado, a coisa fica meio matança do porco que não queremos ver, tapando a cara com as mãos, mas a qual vamos espreitando através dos dedos. Vá lá que as senhoras não guincham tanto.

O meu único conforto é que ainda não meteram as cassetes de Natal, nem sequer nos elevadores. Quando chegarmos aí, vai ser tão bonito como o dia em que o primo Eurico decidiu que lamber uma rebarbadora era uma prova de virilidade.

Ah, e eu faço mesmo anos em Agosto, por isso tenham a liberdade de ir pensando em qualquer coisinha, que estamos quase lá...

8.11.10

Ver filmes alternativos com um garfo os olhos

Pronto, admito, fui ver um filme alternativo, mas atenção era daqueles alternativos a sério e não dos que só são alternativos do bilhete para fora. A parte do garfo nos olhos é só uma metáfora para vos chamar a atenção e relembrar episódios da vossa infância.

Antes de mais, um esclarecimento da gerência: nada tenho contra o filme alternativo que conta uma boa história fora dos moldes tradicionais das produções big budget. Mas, se por alternativo se entende pastiche presunçoso e umbiguista do realizador, em que a história é opcional face ao exercício de estilo ou uma glorificação de qualquer película simples, só porque é oriunda de um país onde falam de forma estranha, então eu digo-vos para meterem o alternativo numa zona também ela bastante glorificada por outro tipo de cinema.

Agora, a minha reles justificação: moro nas cercanias de um cinema dado ao alternativo. Queria ver um filme, cheguei fora de horas, restou-nos outro. O título tresandava a alternativismo primário mas, desconhecendo a história, arriscámos no desconhecido.
A sala composta dava a ideia que a coisa podia não ser como já a estávamos a pintar.

Uma hora e meia depois, saímos a dizer que a sala composta era efectivamente uma cabra mentirosa e que tínhamos sido “alternativizados” por mais um filme que podia ser um quadro, tal a sua pastosidade.

Era assim tão mau? Bem, já vi bem piores e a pagar. Mas, não era aquilo a que eu chamo um bom filme, independentemente dos prémios que possa ter ganho ou a interessante dicotomia gerada pela temática e o seu enquadramento na realidade descrita e outro tipo de linguajar pós-moderno.

E a mim chateia-me que se valorize tudo o que é diferente, não porque é bom e diferente, mas só porque é diferente. E isto vale para para o cinema e para o resto, sejam películas sobre agricultores que falam com abóboras ou o último disco de uma banda hippie-metal turca.

É por estas e por outras que não deixo que me chamem alternativo. Prefiro, pura e simplesmente, parvo.

Se o Biggest Loser fosse um jornal...

Eu só lia as gordas.



E pronto, também eu cumpri assim o destino de abordar esse programa que tantos quilos de alegria traz aos nossos serões. Ah e deixo uma mensagem de apoio a quem aguarda ansiosamente pela estreia da versão portuguesa. Aquilo é que vai ser um prato cheio...

Dependendo da independência

Olhou para a nota que pairava na mão esticada na sua direcção. O sorriso ao fundo do braço não enganava, aquilo tresandava a armadilha por tudo quanto é canto e, embora o seu instinto inicial fosse agarrar nelas e sair porta fora, deteve-se um momento.

“Então, toma lá, é para comeres qualquer coisa.” O sorriso mantinha-se e a nota abanava no ar, como que se o convidasse para dançar. Aquele senhor sabia muito, mas estava na hora de mostrar que também já tinha aprendido alguma coisa.
“Não posso aceitar. Já está na hora de ser independente...” A voz saiu-lhe ligeiramente arrastada, dando um certo tom de dúvida em relação à sua última palavra, algo que pretendia evitar.

O sorriso passou a gargalhada espontânea. “Independente? Muito me contas...E eu a achar que havia muito tempo para isso. Conta-me lá então, como planeias tu garantir a tua independência, pelo menos no que ao almoço diz respeito?”. Pousou a nota na mesa e bateu suavemente na cadeira ao seu lado, como que a convidá-lo a sentar-se.

Ganhou alguns segundos tirando a mochila das costas e ajeitando o cabelo. Pousou a banda desenhada na mesa e suspirou, sabendo que estava na hora de terem aquela conversa.
“Não posso depender do teu dinheiro para sempre, até porque sei bem que um dia isto me vai ser cobrado. Além disso, já tenho 11 anos e tenho de saber como gerir a minha independência.”

Enfrentou uma cara séria e percebeu que era melhor não sorrir “Certíssimo. Mas, tendo em conta que não queres dinheiro para almoçar na escola, devo deduzir que arranjaste emprego no refeitório?”

“Que tolice, mas eu por acaso tenho idade para trabalhar? A avó deu-me dinheiro e será em função dessas verbas que irei gerir a semana.” Os dedos batiam no tampo da mesa, como se estivessem a falar de evidências.
“Mas, em que é que o dinheiro da avó é diferente do meu? O dela é independente?” Ia começar a sorrir, mas a reacção dele fê-lo lembrar-se que a conversa era séria. “Não, é um subsídio a fundo perdido. Até porque confirmei junto dela e tu nunca lhe pagaste o dinheiro que ela te deu quando tinhas a minha idade.”

Silêncio.

“Ok, vejo que tens tudo planeado...Diz-me só mais uma coisa, ainda queres boleia para a escola ou devo pôr o taxímetro a contar?”
“Bem, vi na Internet e o que vamos fazer é carpooling e faz bem à ecologia e à economia. Por isso, quando eu for mais velho, levo-te eu a ti e deixo-te no jardim a jogar cartas com os velhotes.”

Sorriu, pegou-lhe na mochila, antes que ele também lhe dissesse que isso violava o tratado de independência. Arriscou mais uma pergunta:

“Bem, creio que por hoje, em termos de independência é tudo, não?”
Agora era ele que sorria, com a revista de banda desenhada nas mãos.

“Por agora sim. Depois, mais tarde, quando a mãe chegar a casa vamos falar da remuneração dos trabalhos de casa. Afinal de contas, se é formação profissional, devia ser paga...”

Conforme fechava a porta pensou que era melhor abraçá-lo rapidamente antes que, em favor da independência, as manifestações de carinho passassem a ter preçário.

7.11.10

O Concerto dos Frete

Podia falar, de pantufa posta e ar de quem domina o sofá apenas com o olhar, sobre o concerto a que fui ontem. Mas, os concertos foram feitos para se ouvir, como tal prefiro divagar um pouco sobre as pessoas que vão a concertos.

Existem vários motivos para se ir a um concerto, alguns deles envolvendo até razões tão tresloucadas como - gostar da banda que vai subir ao palco. No entanto, existem pessoas que vão a concertos por motivos mais sublimes como, por exemplo:

“Desejo inalar fumo apertadinho no meio de outros, como se na minha última encarnação tivesse sido um enchido de gabarito.”

“Não há sensação melhor do que atender um telemóvel no meio de uma barulheira infernal, de modo a conseguir berrar inúmeras vezes expressões como – NÃO OIÇO / O QUÊ?? / NUM CONCERTO – CON-CER-TO / NA GAVETA, ESTÁ NA GAVETA.”

“Gosto de imitar um totem, mas tenho medo de chuva. Por isso, nada melhor do que ficar parado no meio de pessoas que se movimentam ritmicamente, comportando-me como se respirar fosse opcional.”

“Concertos são uma coisa tão pobre. É de tal modo enfadonho, que me forço a ir vê-los só para me avisar a mim mesmo para nunca cair no erro de ir a um.”

“Concertos, ya man, são a minha onda. Vivo para isto, por isso é que não podia perder aqui os...ahh..estes tipo da...então são aquele daquele Néu-néu-néu...é a a tal cena. Man, onde é o bar?”


O resto, bem o resto são cantigas.
Tirando para a tipa enfastiada de ar posch e o jovem forcado que a acompanhava que estavam ontem ao meu lado. Dá-me ideia que não havia ali muita música no coração...

6.11.10

Programa de festas para hoje



Prevê-se um ambiente semelhante, mas com um considerável número inferior de pessoas a falar frandês. Tirando eu que, por norma, falo francês em todos os concertos a que vou.

5.11.10

Os Eclipsadores de Dinheiro

Esqueçam a crise. Aliás, devido ao excesso de uso, a palavra crise entrou em crise e teve um esgotamento. Já esqueceram?

Ainda não?
Bem, pensem em póneis verdes, parece que ajuda a descontrair. Quer dizer, a mim ajuda-me, rir um bocado a pensar em vocês a pensarem em póneis verdes, só porque eu vos disse.

Mas chega de diversão e falemos coisas que, não sendo sérias, fazem aqueles que têm a capacidade de pensar franzir as sobrancelhas durante 2,3 segundos.
Estou certo que, entre as pessoas que conhecem (caso não sejam vocês próprios), existem um ou mais “eclipsadores de dinheiro”.

Basicamente são aquelas pessoas que, sem motivos aparentes e sem ostentação aparente, ciclicamente dizem “Epá, não tenho dinheiro” ou “Não fiz nada de especial e estou sem dinheiro”. Atenção, não falo de gente com mil encargos, cinquenta mil contas a pagar, flagelados pelo desemprego, mutilados pelo azar, blasfemados pelos infortúnios da vida e afins.

Falo de gente “normal”, em situações “normais”, com rendimento “normal” e uma anormal propensão para não saber o que acontece ao seu próprio dinheiro. E nem me refiro à necessidade de apontar tudo num livrinho, até porque eu fiz isso durante algum tempo quando andava a gastar mais em drogas e em armas, mas depois tive de vender o livrinho porque andava de facto a gastar demasiado em drogas e em armas.

Por mais que tente controlar o seu dinheiro, os eclipsadores de dinheiro pura e simplesmente não sabem explicar o facto de não saberem para onde foi o dinheiro. O que é chato, porque se eu gastasse, por exemplo, o dinheiro todo em pães de alho, gostava ao menos de poder dizer “Epá, enlouqueci e comi todo o pão de alho do mundo e agora não tenho dinheiro” ou, se fosse mais leviano, confessar “Pois, entusiasmei-me a ver o efeito de notas a queimar e agora não tenho nenhuma”.

A dúvida subsiste e o dinheiro não existe, quando és um eclipsador de dinheiro. Devem haver associações que tratam disto, mas em que ninguém paga as quotas ou os tratamentos. Essencialmente por não saberem o que fizeram ao dinheiro.

Cicatrizes que contam histórias

Pois, sim senhor, há pessoas que deixam marcas blá blá blá e experiências que nos marcam a vida para sempre, etc e tal. Lindo e maravilhoso. Acredito piamente que há histórias muito bonitas e muito tristes para contar com base nestes conceitos.

Mas não aqui. Porque isso seria como ir para um banho turco falar do blusão Duffy salmão que encontrámos outro dia lá em casa.

Ao olhar para o meu corpo, depois de chorar uns bons minutos, dei-me conta que tenho apenas duas cicatrizes, o que é algo milagroso. E digo istos, não porque o meu apêndica já tenha tido um divórcio litigioso com o resto do corpo ou tenha andado a combater na selva durante dez anos.
Digo isto porque o ritmo de actividade/desporto físico que sempre mantive, aliado a um certa leviandade de quem responde sempre sim quando outra pessoa pergunta “Este muro é alto, mas dá para saltar não dá?”, já me podia ter dado muito retalho corporal digno de menção.

No entanto, achei que me devia valorizar e não é o facto de nunca ter partido nenhuma unidade do meu corpo (uma ou outra luxação violenta, no máximo) que me vai impedir de relatar a história das minhas duas cicatrizes. Pequenas, mas muito honrosas.

História 1 (pequena cicatriz junto ao calcanhar)

Mãe – Filho, não saltes nesses ferros. Isso pode partir-se e cais para cima dos canteiros e aleijas-te.
Filho ignora a mãe, gozando de belos momentos de diversão a saltar em cima dos ferros que separam os canteiros do passeio do jardim público.
Craaaaac
Ferro parte-se e espeta-se de raspão na perna da criança. Não sabendo ainda muitos palavrões de renome, fica-se pelo “Ai, ai, ai, ui, ui, ui”.Não é eloquente, mas não anda longe de algumas letras nos tops nacionais.
Mãe – Eu não te disse que te ias aleijar filho. Tu não me ouves. Vá, vamos lá tratar disso.
Filho (agarrado à perna) – Mas disseste que ia cair nos canteiros e eu caí no passeio...
Pode ter-se seguido uma palmada instrutiva.
O curativo é feito, a ferida não é profunda para necessitar de pontos, a marca subsiste até hoje.

Se se portarem bem, eu conto a história da segunda cicatriz. Se não se portarem, também não têm grande escolha. Agora vou ali vestir qualquer coisinha, porque o tempo não está mau, mas é um exagero estar tanto tempo nu ao espelho.

Ainda por cima na casa de banho da firma.