31.12.09

O Fim do Ano é quando eu quiser

Infelizmente, se aqui vieram parar acreditando naquilo que leram no título, lamento informar-vos: Não é verdade.

Mas, se isso ajudar, devia ser.

Depois de tanto tempo a ouvir a chalaça "O Natal é quando o Homem quiser (bónus popularucho: e a mulher deixar)", cheguei à conclusão que, a fazer fé nisto, o mesmo se devia passar com a história do fim de ano.

Cada um de nós deveria poder decidir quando quer terminar o seu ano e mais nada. Se aqui há alguns séculos alguém decidiu que iríamos passar a seguir o calendário do Gregório e não o do Juliano, porque raio não posso ser eu a decidir quando me dá mais jeito orientar a coisa?

Há anos, por exemplo, que lá para Março já estão a correr tão mal que mais valia acabar logo ali. "Epá, sim senhor, tenho um azar levado da breca, mas vou aproveitar que se mete a Primavera e começo já um Ano Novo, que pode ser que com o calor isto mude".
Já outros, correm tão bem que é uma pena acabar só porque já estamos no fim de Dezembro. "Ó Manel, avisa lá os miúdos que este ano só acabamos o Ano no dia dos Namorados, que o salão de manicure tem estado a render e não vale a pena estar a fechar para balanço agora".
Para aquela malta que tem a tendência para andar sempre em festa ou tem um carinho especial pela passagem de ano, enquanto ponto alto do ano e momento ideal para prometer coisas que dois meses depois já não se lembra eis a solução: Muda de ano no fim de todos os meses. Assim, não só garante uma cowboyada das antigas mensalmente, como ainda fica mais fácil lembrar-se que é este ano que vai deixar de roer as unhas dos pés.

Para os mais conservadores e pouco amigos de festas - Mudar de ano só a cada 10 anos. Menos festa, menos confusão, menos trapalhada e a beleza de ver gente com 8 anos, já a gozar da reforma, ainda com o encanto nos olhos ao ouvir falar do Pai Natal.

Não me esqueci dos românticos, gente levada da breca e que tende a ficar deslumbrada com momentos únicos que podem surgir quando menos se espera, mas têm outro calor, por exemplo, no final do Ano - A possibilidade de haver um kit passagem de ano, que podem levar a qualquer altura, quando vão com a sua cara metade a qualquer. Imagine-se o doce que é, numa só semana com o seu amor, passar o ano no cinema, na praia, comendo um gelado no parque ou até numa colónia de nudista. "Ai querido, esta semana que passámos juntos, pareceu que foram anos em sintonia".

Mas, até isto ser verdade, parece que é este o dia convencionado para fazer balanços. Pelo menos para vocês, porque da minha parte só a 13 de Julho é que muda o ano.

Chamem-me pós moderno, mas para comemorar esta decisão hoje vou a um jantar de gala e já volto.

29.12.09

Estás à janeeeela... Menino Jesus


Caso tenham andado pelas ruas ultimamente e não se limitem a olhar para cima apenas para amaldiçoar o destino com gestos teatrais ou amaldiçoar um qualquer pombo com gestos obscenos, devem ter reparado numa novidade da época.

Infelizmente, não me refiro à utilização de portentosas modelos escandinavas para posar à janela em lingerie, coisa que deixaria o país para lá do alerta fuschia, mas sim aos paninhos com um menino, Jesus de seu nome, que agora ornamentam vastos lotes de caixilharia lisboeta e não só.

Reza a história, muito apropriadamente, que alguns dignitários católicos incentivaram esta nova tendência, de forma a reavivar a tradição católica do Natal. E porque viram que o negócio dos Pais Natal penduradinhos na janela, rende, acrescento eu.
É que, bem vistas as coisas, a Igreja é das organizações mais inteligentes que existe ao nível do marketing, mas neste caso parece-me um claro tiro no pé. Então o Menino, que sofreu horrores pela Humanidade vai agora parar às janelas, sem sequer ter agasalho, coisa que o Pai Natal, esse espertalhão, evitou com a sua fatiota munida de bom pelo de rena.

Se a questão do agasalho, só por si, devia ter feito até o católico mais devoto pensar duas vezes antes de expor o Menino às intempéries, não me obriguem a falar do Euro2004. Sim, porque o tio Scolari, artista prevenido, nunca pediu para porem Virgens do Caravaggio à janela. Foi lá parar a bandeira e as que, cinco anos e meio depois, ainda sobrevivem aos ventos, embora bastante descoloradas e com uma tonalidade de esperança muito mais presente.

Vendo tudo isto a acontecer nos peitoris de Lisboa, o cérebro católico por detrás desta operação deveria ter sugerido, em vez disso uma manta para o sofá com Jesus a aquecer os corações e não só da família ou até Jesus no topo da árvore de Natal, dando folga à estrela. Mas não, tinha de ser para a janela, para mostrar ao Pai Natal quem é que manda no Natal. Sem pensar no Menino, no mau tempo, nem sequer nos pombos, que para além de sacos de plástico e artimanhas semelhantes, têm agora uma figura divina a partilhar o seu espaço de lazer.

Eu percebo, certamente não se pretende que este Menino fique lá para sempre. Tal como se renovam votos, na Páscoa virá o paninho ou a cruzinha do Calvário. Depois, quando o Menino meter férias, chama-se um Santo António para lembrar a tradição católica dos Santos Populares. Findo o Verão, o Dia de Todos os Santos será certamente uma boa altura para lançar o Mega Poster, com mais de 100 santos oficiais e hipótese de compra pano adicional para juntar novos canonizados.

E, enquanto isso acontece, vamos todos estar à janela, a ver esta loucura passar.

28.12.09

ResCaldo verde do Natal



Bacalhau assado com batatas a murro e espinafres, arroz de pato, bacalhau à Zé do Pipo, arroz indiano com especiarias e frango, linguiça e morcela, mini-rissóis, mini-pataniscas, patas de caranguejo, camarão, frutos secos da mais diversa cepa, queijos e mais queijos (tantos que me fizeram esquecer todos os seus nomes), pão torrado, pão sem ser torrado, pão a precisar de ser torrado, tostas, bolo rei, bolo raínha, estilo bolo rei mas com gila, sonhos de abóbora, sonhos normais, sonhos de um dia deixar de comer sonhos, coscorões, filhós, bolo de banana (com um dedo do je, também utilizado para provar a massa), mousse de chocolate negro, farófias, bazófias, gelatina com frutos, salada com frutas, gelados, bolinhos de amêndoa, broas de mel e não só, bombons bons e bombons assim assim, arroz doce, isto só para citar alguns. Tudo isto enxaguado com – vinho, sumo, água, moscatel e uma mangueira de pressão.


Como devem ter reparado, tive as mãos e parte da minha anatomia ocupadas neste últimos dias. E se há coisa que me mete nojo é teclar com os dedos gordurosos, daí lambê-los antes de começar cada post.
Para além disso, desenvolvi a teoria de que se vai a casa de familiares enfardar no Natal para depois estarmos cheios demais para protestar com a prendas. No entanto, as minhas foram boas, provando também que cartas anónimas 15 dias antes da época ajuda a melhorar a qualidade das mesmas.

Em expiação dos meus pecados, ontem fui correr 10km com as luzes de Natal da Baixa por cima. Tudo bem que para baixo todos os santos ajudam, mas sabendo que estava a dar o litro por ele, o artista do São Silvestre bem podia ter ajudado a puxar a carroça na subida da Avenida da Liberdade. Obrigadinho ó campeão, nem uma velinha levas para o ano.

23.12.09

Natal no Circo Romano


A vantagem de só ter um amigo é que se despacha rapidamente o martírio das compras de Natal. Como esse amigo sou eu, melhor ainda, porque que sei que sou preguiçoso de mais para ir trocá-la no caso de ter escolhido mal para mim próprio.

Depois deste momento esquizofrénico, passemos ao espectáculo mais lastimável desta época.

Não vou aqui bater no Natal dos Hospitais, no das Prisões, no das Minas da Panasqueira, nem sequer no da Casa de Meninas “Triângulo das Mamudas”. Esqueçam o Cardinali e afins, as iniciativas das pessoas que só são boas dez dias por ano e isso tudo.
Querem emoções fortes? Querem cheiro a sangue e instintos primários? Querem sentir o fragor da luta mesmo ali ao lado?
Então façam como eu e vão ao Toys R Us sem intenções de comprar nada, só pela diversão.

Aí se revive, na época de Natal, a melhor tradição do circo romano. Pais degladiando-se por caixas de brinquedos, bonecos com pingos de sangue devido a refregas intensas, desconsolo e gritaria por causa de jogos de consolas, o choro de adultos, confortados por crianças que lhes relembram que vergonha é roubar, não é ter que recorrer ao plafond de crédito para chegarem aos 20kgs de prendas.

O melhor que podem fazer não é julgar, até porque não serve de nada e a maior parte das pessoas não fica bem de toga. Se querem ter mesmo um impacto na vida daqueles que procuram a felicidade no volume de embrulhos, saiam pela saída sem compras, enquanto pares de olhos esbugalhados, de braços carregados e paciência sobrecarregada, vos seguem com raiva, presos em filas para a caixa e para os embrulhos e para o espírito de Natal.

E, minha gente, se isto não vos divertir, então alguém anda a passar demasiado tempo a comprar prendas para saber apreciar as coisas boas da vida...

22.12.09

Sobre Monstros da Lagoa Negra



Apesar de ser um tipo jovial e de espírito aberto, como fica bem dizer, já tenho aqui e ali uns cabelos brancos. O que, no meu caso, significa que tanto me consigo lembrar do que comi ao pequeno almoço, como me lembro da euforia em torno da transmissão televisiva do “Monstro da Lagoa Negra”.

“Monstro da Lagoa Negra?” perguntam os petizes que julgam que Mr.Myagi é um qualquer restaurante japonês, quando ouvem falar em tal mítico nome. Sim, tempos houve em que o 3D causava um fervor semelhante ao que existe nos túneis dos estádios dos principais clubes portugueses. As pessoas acotovelavam-se para comprar revistas que ofereciam óculos 3D, feitos de cartão com dois bocados de acetato como lente, um azul e o outro vermelho. Depois, o filme, em que uma espécie de dourada escalada com pernas tentava assustar pessoas, foi uma banhada total e os óculos tiveram como efeito de realce o facto de darem óptimas fotografias com os animais de estimação lá de casa e também com criancinhas.

A partir daí, jurei fazer perdurar o nome do dito monstrengo, associando-o a todo o tipo de evento que gera expectativas e depois falha em cumpri-las. Exemplos:

O casamento de X e Y foi de arromba e passados seis meses estão divorciados? Que granda Monstro da Lagoa Negra.

O jogador Z ia ser o salvador da pátria e revelou ser mais perna de pau do que o gelado da Olá? Saiu-lhes um belo de um Monstro da Lagoa Negra é o que é.

Gente que todos os anos diz que este ano é que é e depois acaba na passagem de ano a comer 1 passa e a beber 12 garrafas de champanhe para esquecer o Monstro da Lagoa Negra em que finda se tornou.

O Mak promete tanto, parece que este blog podia ser uma coisa tão engraçada e depois vai-se a ver e saem os dois uns belos duns Monstros da Lagoa Negra.

Monstros da Lagoa Negra não faltam. Basta escolher.

21.12.09

Os mistérios dos WC’s Masculinos


Sobre mulheres e WC’s públicos, já muito se falou, não necessariamente por esta ordem. O mito dos pares, o mistério das bolsas e os segredos das grandes decisões femininas tomadas entre paredes de uma casa de banho, são alguns dos temas abordados, em histórias que passam de boca em boca, ao longo de gerações.

Já dos homens e das casas de banho, traço geral, só se descrevem cenários apocalípticos de miséria e desgraça. Bebedeiras e nojeiras, visões do Inferno que fariam corar Dante e levá-lo até a praticar outra actividade muito associada ao WC masculino – o vómito.

A verdade é que nos WC’s masculinos não existe o glamour do seu correspondente feminino. É como quando se traduzem letras de músicas fantásticas de inglês para português e se tem como resultado uma piroseira total. Ou seja, é a mesma trampa, mas o charme é totalmente diferente.

Não pretendo inverter esta evidência, que me permite continuar a olhar com curiosidade para as portas dos WC’s femininos e imaginar o que se passará lá dentro para além do curso natural do organismo humano. Mas, acredito que existem sinais de mudança para se esperar algo mais de um WC masculino, do que a desgraça habitual.

Obviamente refiro-me a WC’s públicos de antros não propícios a desgraças. Metam-me numa discoteca, num recinto de festival ou numa estação de serviço e não há glamour que valha a ninguém. E, infelizmente, muitas vezes é mesmo o melhor das pessoas aquilo que está a vir ao de cima.

Falo de sítios respeitáveis o suficiente para que o papel higiénico e um pedido de ajuda não se confundam no mesmo apelo. Sítios de onde não se sai a correr com um esgar de terror gravado na face, mas sim com uma sensação de alívio natural e uma história engraçada para contar.

Eles existem. E não são a merda do costume.


James Brown, It’s a man's world

18.12.09

Há um pouco de Tom Cruise em mim

Mas só neste clip específico. Não sei se é o requinte com que se trata os colegas de trabalho, o peculliar estilo corporal ou o facto de me representar com uma visão bastante distorcida.

Seja como for, ambos temos um pequeno dançarino dentro de nós. Só que por fora ele também é minorca e eu não.

17.12.09

Como eu gosto de afiambrar



Há palavras às quais o nosso dicionário não lhes faz jus. Seja pelo formalismo a que estão convencionadas as definições do dito cujo, seja pela riqueza que a sua utilização permite, muito para além do que diz um qualquer calhamaço ou site de definições.

Senão vejamos o que o flip.pt diz em relação ao meu muito prezado “afiambrar”:

afiambrar
v. pron.
1. Esmerar-se no trajar.
v. tr.
2. Preparar carne à maneira de fiambre.


Jovens amantes saudosos da Macarena, se me disserem que estas são as únicas utilizações que conhecem para a palavra, então estão sujeitos a que eu vos afiambre uns bons açoites, nem que sejam verbais.

Não sei se foi fruto de uma certa paixão nacional em relação às carnes frias, mas “afiambrar” ganhou asas e saiu das zonas de charcutaria em que nasceu para conquistar todo um mundo. Aliás, até mesmo em relação ao vestuário, o afiambrado há muito que cedeu posição ao aperaltado e expandiu o seu negócio vocabular para outras áreas.

Assim é que, nos dias que correm, podemos encontrar no trânsito gente disposta a afiambrar este mundo e o outro, porque lhe deu um toque no carro, porque não fez piscas, porque vai ao telemóvel ou porque simplesmente aquela é a pessoa certa para afiambrarmos com o stress que temos acumulado.

Enquanto esses afiambram à moda antiga, de punho erguido, noutro canto da cidade encontramos um indivíduos todos afiambrados em determinada mulher, provavelmente outra que não as sua, mostrando em jargão charcuteiro que, às vezes, por umas fatias de presunto há quem tenha que levar com o porco todo.

E, porque não quero que pensem que me estou a afiambrar a esta sabedoria toda, ora aí está esse belo significado. Afiambrar, enquanto arte de se apropriar de modo garganeiro ou até ilícito de algo.

Mas, não pensem que se ficam a rir com todo um conhecimento afiambrado. É certo e sabido que onde há expressões com comida, mais depressa esta acaba do que findam os significados. Por isso, afiambrem-se a mais uns sinónimos que eu até agradeço.

16.12.09

Linkações Perigosas

No tempo em que os computadores eram do tamanho de casas, quando se falava de ligações o cenário podia ser algo assim: o X dava-se com gente duvidosa e a Y estava ligada a uma escandaleira, desde que foi apanhada com o Z e o W ao mesmo tempo, vejam lá.
Apesar do tamanho dos computadores ter vindo a mirrar, dizem que no mundo real as coisas ainda funcionam de certa maneira assim: tu também és definido até certo ponto pelas pessoas com quem te dás. Mas, aqui que ninguém nos ouve, nos blogs as coisas às vezes também são um bocadinho assim.

Queres ser intelectual ou fazer parecer que até tens uma posição em relação a temas importantes. Então há dez blogs que não deves deixar de linkar. O qué, és uma pessoa sem tabus e para ti, como dizia a outra, “falar de sexo é como comer um iogurte”? Então há blogs que devem constar na tua lista free-spirit.
Talvez isto não seja a tua onda, já que és uma alma atormentada e nos teus links só há ligações profundas e reflexões poéticas sobre a vida e os seus desencantos. Tudo bem, para te contrabalançar haverá outros tantos que só serão divertidos se linkarem os blogs dos melhores comediantes ou só mostrarão o seu girl power se linkarem os blogs das gajas com mais atitude da blogosfera.

Por mim, tudo bem, cada um faz como entende, mas até agora mantenho para blogs a mesma lógica que tenho para livros – são mais importantes os que já leste do que aqueles que tens na prateleira. Até que descobri que há efectivamente gente a linkar para este antro. E isto não dá credibilidade a ninguém.

É lastimável que se divulgue este pasquim e se arraste ainda mais gente para a desgraça. Não posso fazer quase nada em relação a isso, tirando continuar a escrever imbecilidades e tentar que alguém veja a luz e decida pôr um paninho negro sobre este espaço. Mas, disfarçando-me de Padrasto Natal, posso urdir uma teia, fazer-vos o mesmo e ponderar linkar para o vosso blog, caso ainda não o faça. Só para ver se aprendem.

Por isso, se és jovem e gostas de arriscar, diz-me em 20 palavras ou menos, qualquer coisa como “Epá, meu estafermo, achas que para além de tudo o que de mau já me acontece seria possível linkares-me?”

Com sorte, eu respondo “Não”.

15.12.09

Pedido formal de desculpa aos congelados


Peço desculpa aos douradinhos e também aos medalhões de pescada e aos bifinhos de frango, isto para não falar das batatas noisettes, do esparregado em cubos, dos vegetais tradicionais, das sobras ocasionais e outros que tais.

A verdade é que eu não sabia. Pensei-vos preparados para o efeito, toda a gente me dizia que sim, que fazia sentido e que era assim que as coisas se passavam. Que vocês não sentiam nada e que tudo se passava tranquilamente até ao dia em que nos víamos outra vez.
“Mas, eles aguentam?”, lembro-me eu de perguntar, preocupado com as vossas qualidades e também com a qualidade do nosso convívio. “Então não” diziam-me “eles foram feitos para isso”. E eu acreditei, com uma ou outra dúvida ocasional, mas sempre descansado em relação ao vosso bem-estar.

Até que saí à rua hoje de manhã bem cedinho. E, de cachecol no trombil e palavras de ordem a ficarem geladas nos lábios, percebi tudo. Há frio pra além da morte pelo frio e a vida num congelador é, ironicamente, um Inferno.

Por tudo isso, que me desculpem os congelados. Da próxima vez que vos bater com a porta na cara, já posso dizer com propriedade – A vida num congelador não é fácil, mas calha a todos.

13.12.09

Aproveitem o frio e dispam-se de preconceitos



Quis o destino que eu resida actualmente a 10 passos de um clube de strip. Não foi uma decisão premeditada, quer da minha parte, quer da parte dos senhores do clube, embora estes tenham saído a ganhar pois tenho amigos que passaram a chegar com 4 horas de atraso quando combinamos alguma coisa à noite.

Nada tenho contra tão laboriosa actividade já que, graças a ela, já testemunhei cenas com tipos acalorados a discutirem na rua o facto de terem sido barrados à porta com frases épicas como “Atenção, não é por não ter 35€, é pela atitude”. Isto para não falar da minha piada recorrente de “O sonho de qualquer stripper é ter um filho varão”.

No entanto, pelo me é dado a saber, depois do boom inicial dos clubes de strip em Portugal (ex: Champanhe ou Passerelle, com vedetas do estrangeiro), multiplicaram-se os antros de qualidade duvidosa na matéria, com autênticos presuntos pendurados em varões por Lisboa e Portugal fora.

E se o strip, arte tão recriada em filmes de Hollywood com mulheres deslumbrantes e flexíveis a ponto de fazer corar de inveja a malta do Cirque du Soleil, estivesse a esse nível por cá, eu bateria as palmas e diria - sim senhor, quem vai a uma casa de strip tem uma desculpa tão legítima como aqueles tipos que dizem que compram a Playboy (estrangeira, que a nacional não existe) pelos artigos. Seria “artístico”. Aliás, deve ser com base nesse imaginário que as aulas de varão singraram aqui e acolá, com mulheres comuns a tentarem encontrar a Demi Moore que têm dentro de si e tipos a tentarem roubar varões nos transportes para levar para casa juntamente com o CD do Joe Cocker.

Mas, pelo que me é dado a conhecer e a minha (pouca) experiência transmite, em termos de sensualidade artística, o panorama actual tem muito pouco. Depois, o que sobra entretem apenas grupos festivos forrados a álcool e amantes da caça à febra encoberta.

E, para isso, já existiam as Festas de Natal das empresas.



PS - Nem vou falar de strip masculino, porque depois de bater no amblíope, tenho pouca disposição para aviar o ceguinho.

11.12.09

Epá, juro que...



Qualquer pessoa que não tenha passado boa parte da sua vida a imitar um repolho ou outro tipo de vegetal inerte, já participou numa conversa em que este início de frase foi proferido. Sendo eu um tipo com um nível de educação que roça a perfeição (e o verbo roçar não tem aqui qualquer conotação marota), ocorrem-me dois ensinamentos da minha mãezinha a propósito da situação.

Um deles, “Quem mais jura mais mente”, faz todo o sentido recordar. O outro “Não batas em pessoas de óculos, porque te podes aleijar nos vidros partidos” é sempre válido, especialmente se quem jura for um belo de um caixa de óculos.
Pondo as coisas em pratos limpos, com bom cuspo e pano de boa cepa, o cenário é muito simples - não aprecio malta que jura isto e jura aquilo, primeiro porque juro me faz sempre lembrar prestações a bancos. O que por sua vez me leva ao conceito corja de ladrões e malfeitores. E isso não é bom. E juro que não inventei isto agora à pressão.

Jurar depende de simplemente de uma coisa – alguém nos quer convencer de algo, usando unicamente a fidedignidade da sua palavra para o efeito. Tendo eu alguma dificuldade em acreditar em pessoas, certamente compreendem a dificuldade que tenho em acreditar em palavras.

É porque tão depressa se jura um presidente, como a seguir se jura que não se tinha posto as meias sujas no lava loiça. Rapidamente se põe em jogo a saúde com o deveras tradicional “Juro pela minha saudinha”, como se disponibilizam bens e parentes estimados à laia de “Juro pela saúde dos meus ricos filhos”. Mesmo que não tenham a certeza que os filhos são deles.

Jovens amigos do palavreado com sabor a juro, comigo não vão lá. Até eu ver gente que jura pela sua saúde a adoecer com pestilências nauseabundas e criancinhas chacinadas pelos falsos juramentos dos pais, a coisa não vale. O mesmo se aplica a quem passa a vida a jurar isto e aquilo, só porque sim.
Aliás, só quando cotarem o valor da palavra de cada um em bolsa é que eu me fio nisso. Até lá, diversifiquem o léxico, invistam em palavreado de categoria e vão ver que mentem melhor.

9.12.09

Como correr com quem não gosta de correr


Se não gostas de desporto, este texto não é para ti. Mas espreita à mesma só para ficares raivoso.

Passei uma boa parte da minha ainda não totalmente lastimável vida a fazer desporto. Não por obrigação, mas sim por gosto. Da ginástica desportiva ao futebol, ao futsal, ao BASKET (a letra grande confere a importância que tem para mim), à natação, ao ténis de mesa, ao ténis sem ter mesa, até à corrida.

Desde o total amadorismo à prática competitiva, federada, séria e com mau-perder de nível olímpico, entre estas modalidades há uma característica comum – o escape. Para além da diversão e da competitividade que reside em mim, há também muita trampa que me arrasta muito mais para “O Mau” do que para o “O Tipo Afável, ainda que com a mania que é esperto”. E, essa trampa é muito fácil descarregar, quer em nós próprios, quer nas pessoas que nos são próximas, quer num ceguinho que calhe a ir passar, distraído.
Como me tenho em elevada estima, aprecio os ceguinhos e, pronto, até sou benevolente para quem me é próximo, o desporto sempre foi um escape natural.

E chegamos à corrida, caminhada para os menos apologistas do suor em bica. Haverá forma mais simples de descarregar energias? Creio que não. Nem que seja correr para fugir ao assunto.

Existem mil argumentos para me contrariar. “Que não gostam de desporto”, “Que não gostam de correr”, “Que não gostam de correr sem sentido”, “Que não gostam de levar com vento/calor/chuva/meteoritos em cima”, “Que têm outra actividade como escape”, “Que conhecem um mecânico que arranja escapes”, “Que a vossa religião não permite”, “Que a vossa religião é um escape” and soi on.

Aceito tudo. Na boa, sem problemas, com um sorriso simpático e com um abracinho de compreensão.

Mas depois, que não vos apanhe a dizerem “Que a vida passa a correr”, “Que passam a vida a correr”, “Que fazem tudo a correr”, “Que devia ser tudo corrido”, “Que não têm tempo e é tudo a correr”, “Que só viram não sei quê em corrida”, “Que andam numa correria louca”, “Que corre tudo bem”, “Que corre tudo mal”, “Que não corre nem sai de cima”.

É porque, para issso, mais vos valia correrem a sério, em vez de andarem a chorar sobre corridas derramadas.

A vida não passa a correr. Nós é que estamos demasiado ocupados a vivê-la para perceber isso.

7.12.09

Mulher por um dia

Fizeram um desafio aqui ao artista residente. “Então e se fosses mulher por um dia?”. Eu, que vi “A Mosca” e sou pouco dado a experiências arriscadas, não fiquei muito entusiasmado, mas depois disseram-me, não tens de te maquilhar, depilar, nem passar o fim de semana a ver os DVD’s do “Sexo e a Cidade”. É só a fingir.

Sendo assim, fiquei mais descansado e fui a correr com um amigo à casa de banho para lhe contar as novidades. Depois, comecei a pensar, tendo eu uma boa % de senhoras que me visita (no blog, gente perversa), que posso avançar sem ser extremamente rude da minha parte, nem realista o suficiente para haver malta a começar a pensar que sou mesmo uma jovem desinibida.

Foi aí que me ocorreu: “Espera lá, vais mas é falar de uma coisa chique, com muito nível, que ponha aí as garotas todas contentes e não iradas ao ponto de te lançarem uma fatwa”. E foi assim que chegámos este magnífico blog PeanutOak, onde não faltam acessórios de extrema originalidade e fino requinte. E, ainda por cima, com um passatempo de alto gabarito no Facebook, que a troco de uma simples frase vos pode pôr nas mãozinhas esta malinha original, exclusiva e ÚNICA. Sim, não correm o risco de ver uma cabra (é assim que se diz ou fui muito agressivo?) ao vosso lado com uma igual.



Espera lá, dirão alguns espíritos mais inquietos, mas esta história toda de ser mulher por um dia, não foi um engodo só para nos venderes esta ideia com uma desenvoltura que até apita?

Com um riso ligeiramente maquiavélico digo “Nunca saberão, muahahah”. Mas, AMIGAS (é assim?), se acharem que valeu a pena, não precisam de ir a correr contar-me à casa de banho. Um simples comentário chega.

4.12.09

Explicações de Português

Calma pequenitos, este não é um daqueles posts em que alguém, vulgo eu, chama ignorantes aos outros e se considera a maior autoridade em questões de tudo e mais alguma coisa, apontando defeitos vários, aqui e ali. Para posts do género, consultem o resto do blog.

Este é, pura e simplesmente, o título do livro que estou a ler. “E a gente, que samos pessoas simples, o que é que temos a ver com isso?”, indagam vocês, coçando a orelha. Nada, digo eu, tirando se forem a senhora que ia ao meu lado no autocarro e insistentemente tentava descobrir o livro que eu ia ler. Algo que, do alto da minha benevolência, dificultei o mais que pude.

Por isso, este post é para essa senhora e vocês são meros voyeurs. O que vos deve dar um gozo danado, já que toda a gente sabe que malta que visita blogs deste calibre gosta é de cenas esquisitas.

Quem aprecia Miguel Esteves Cardoso, gosta deste livro. Eu, que lhe apreciava a prosa, nunca me deixei cativar muito pelos seus livros, um pouco por preguiça, outro por teimosia. Mas este título, só por si cativou-me, uma vez que dar explicações e pedir explicações é coisa que fazemos frequentemente, mas raramente no melhor sentido e ainda menos sobre o português.

A nossa língua, minha e da senhora do autocarro, pela vossa não ponho as mãos no fogo, é rica o suficiente para este livro poder ser do tamanho do tijolo do Bolano. Mas não, tem a dimensão certa, apreciando eu sobremaneira os textos sobre o sentido de uma só palavra. Porque é possível escrever sobre tudo e sobretudo sobre nada, de forma interessante. É esse o dom de quem sabe cativar as pessoas pela escrita e o MEC nesses textos captados das suas crónicas, revela isso mesmo.

Quanto a mim, esse dom revela-se no facto de nem a si, senhora do autocarro, lhe conseguir chegar com esta palavras. Por isso, se ainda estão para aí a voyeurizar como se não houvesse amanhã, aceitem um conselho. Com o Natal aí à porta, se vos apetecer, peçam umas explicações de português. Se for o livro, melhor, se forem aulas, pronto já é um princípio.

3.12.09

A terceira idade já não é o que era



Já toda a gente ouviu a frase “a educação, hoje em dia, já não é o que era”, proferida normalmente por um idoso, em relação a um jovem que teve a ousadia de, alegadamente, passar à sua frente ou no autocarro ou no supermercado ou no café ou no cinema ou na distribuição de amostras grátis ou seja lá no que for. É certo e sabido que, se mete “passar à frente”, há um idoso indignado algures.

Este pequeno episódio, fruto da manhã de hoje lida com isso mesmo, mas de uma perspectiva diferente. Às 9 da matina, aqui o vosso amigo está na paragem do autocarro, meio de locomoção que usa quando é calão de mais para ir a pé ou lhe apetece ler 10 minutos. Levava o meu ar de cromo, vestimenta descontraída, mas com toque de homem que sabe o que quer, apesar de ninguém perceber muito bem o quê.

Ao meu lado, um perfeito avôzinho, daqueles que apetece dar um abraço e contar como foi o dia na escola. Bem vestido, gabardine, gravatinha, chapéu, bengala, cachecol e ar afável. Enquanto o autocarro não chegava, eis que atravessa a rua uma bela figura feminina.
Mulher bem parecida e tal, bom porte atlético, que chamava a atenção sem cair na vulgaridade. Ao perceber que o meu olhar a seguiu cinco segundos a mais do que o bom senso recomenda, senti um bocado a voz da consciência “o avô não ia gostar que eu mirasse assim tal donzela”.

Foi nesse momento que me voltei para o velhote, para ver se ele me tinha apanhado em flagrante. Não tinha, nem podia, essencialmente porque ele ainda estava a controlá-la. E, quando eu esperava apenas um ar simpático de “Quando era mais jovem...” eis o que ouvi com tom de sofreguidão:

“Ah, mula do caralh....”


Encolhi os ombros e aproveitei que o gajo estava distraído para lhe passar à frente e entrar no autocarro, que entretanto chegara.

2.12.09

O ABC da Vida – Fazer a ponte


Quando o final do ano se aproxima, há uma coisa que os portugueses adoram fazer. Mais do que enfardar fritos de Natal, mais do que planear o festejo forçado da passagem de Ano, mais do que aliviar a sua consciência num banho de consumismo desenfreado e mais do que ver os vídeos com os melhores apanhados do ano.

O que os portugueses realmente adoram é o acto sublime de ir ao calendário ver os feriados e as pontes que vai haver no ano seguinte. Aquele gozo pequenino, que cresce no nosso interior, ao pensar que, fazer a ponte ali e acolá, mais uns diazitos por aqui e vamos estar a capitalizar as férias ao máximo.

Fosse a matemática dada nas escolas utilizando a lógica dos dias de férias e pontes e pode dizer-se que ficava um problema resolvido. Depois só faltava depois ensinar a miudagem a falar e escrever português.

Há sempre alguém, no local de trabalho, o guru das pontes, que sabe todas de cor até 2024 e explica o padrão cíclico das mesmas, com rigor científico. Algo que depois, quando estamos a beber uma garrafa de tinto, num qualquer dia entalado entre um feriado e um fim de semana, merece pelo menos um brinde.

Depois, há ainda o funcionário estatal, que é por norma empenhado no desfrute de tais dias e que lhes dá um nome mais técnico, a chamada “tolerância de ponto” que, a meu ver, é um espelho fiel daquilo que pior o Estado tem. Aquela capacidade inata de olhar para o lado e dizer, “Pronto, vai lá fazer a ponte, mas não digas que fui que deixei, até porque eu não deixei, fui foi tolerante, que não é o mesmo, mas também não vale a pena expicar, porque estou a falar sozinho, já que hoje é ponte”. O Estado é um nhonhinhas porque nunca tem tomates para assumir as coisas pelos nomes.

Curiosamente, a expressão “fazer a ponte” acaba por ser altamente irónica, já que se formos ver quem faz, literalmente, as pontes no nosso país, vamos ter dificuldade em encontrar por lá muitos portugueses. Ok, pronto, isso é trabalho duro, consultar um calendário, por outro lado, não faz tanto calo.


Mas isto sou eu que tive tempo para pensar nestas coisas, na ponte que fiz segunda-feira