31.8.09

Pregar surtos à malta


Já me despedi de praticamente toda a gente que conheço. Aproveito agora para fazer o mesmo em relação aos três leitores que também ainda não sucumbiram à pestilência.
A contagem não deixa enganar, todos os dias aumenta na televisão e raras são as vezes em que se ouve falar de gente curada.

Malvada gripe, que todos os dias levas mais gente com os porcos.

Eu não quero não ter gripe. Já me sinto um cidadão de segunda. “O quê, só tens gripe normal? Isso é tão retro-viral”.

No meu estaminé profissional houve uma moça que teve de ficar em casa, porque se suspeitava que tivesse gripe A. Falava-se dela com orgulho, “É a nossa primeira”, “Ah mulher de raça, ali sempre a dar-lhe na Gripe A” ou “Estive com ela na 2a feira, quem sabe serei eu a brilhar a seguir”.
Toca de rezar a São Tamiflu, mas parece que afinal a moça não teve Gripe A. Que era uma vergonha, que as mulheres nos enganam com facilidade, que tinham sido só desculpas e que agora não podíamos usado as 30 piadas que já tínhamos guardado para fazer quando encontrássemos no corredor. No tempo da Peste Negra é que era, agora andam a brincar com a malta.
A Gripe A está realmente a afectar os portugueses. Mas os efeitos mais graves têm sido na cabeça e não nas vias respiratórias.

Confesso que já tenho o ar condicionado aqui do burgo em 25 Graus negativos, estou a despejar água gelada nas costas há uma semana e abraço com sofreguidão todas as pessoas que vejo a espirrar. Não há forma da temida Gripe A me bater à porta, nem ao menos acenar da janela.

É triste admitir, mas sou saudável.

Thompson Twins, Doctor Doctor

28.8.09

O queijo da vergonha




admiti publicamente o facto de só ter ido pela primeira vez a um casamento muito recentemente. Muitas pessoas me escreveram, perguntando se tinha problemas de adaptação social, se não tinha amigos ou se, pura e simplesmente, era um bocado estranho. Senti-me um bocado ofendido com esta última pergunta, até porque pensei que isso já tinha ficado sobejamente comprovado neste blog.

Mas, voltando um pouco atrás, recordarei um pequeno episódio no dito casamento, cujo esquecimento pode ter a ver com a matéria prima do mesmo, mas que reforça o ficheiro secreto que habita em mim.

Toda a gente sabe que os noivos, a cerimónia e o resto é tudo acessório, porque o que interessa é mesmo encher o bandulho. Pelo menos foi o que me disseram, com ar condescendente, pessoas mais experientes na matéria. Assim sendo, foquei-me mais na alimentação e menos na celebração, mantendo no entanto um mínimo de dignidade e deixando passar à frente mulheres e crianças, desde que não excedessem o número de três.

Tudo correu bem, tirando um ligeiro incidente na mesa de queijos. Sendo eu apreciador dessa iguaria, apesar de alguns cheiros se assemelharem vagamente aos das minhas meias depois de actividades desportivas, investi na mesma duas ou três vezes. Na segunda rodada, achei que eles tinha reposto alguns queijos e ataquei um prato que não tinha visto antes e que tinha algumas variedades de eleição. Cortei a bom nível, escolhi como tinha de escolher, até me sentir incomodado com um olhar. “Francamente”, pensei eu “não pode estar um gajo a acumular queijo como se fosse um rato e o Inverno estivesse à porta e vêm logo os apressados”. O senhor aproximou-se e disse “Posso?” e eu, olhando para o meu prato bem composto, acedi.
Qual não foi o meu espanto/embaraço quando vi que o conviva era nada mais nada menos do que o dono do prato que eu tinha estado a fatiar como se não houvesse amanhã e que só se tinha afastado para ir buscar bolachas, aguardando calmamente depois que eu o desfalcasse de queijo, com calma, compostura e, certamente, com a benevolência de quem está perante um refugiado do Sudão.

Afastei-me rapidamente da mesa e comi todo o queijo que tinha a grande velocidade. Não porque tivesse fome, mas sim para esquecer semelhante figura de urso.

E assim consegui, até hoje.

26.8.09

As mulheres e os super poderes



Na sequência do chorrilho de alarvidades anterior, escapou-se-me um aspecto interessante. As mulheres, no seu quotidiano, parecem às vezes sacar do baú super-poderes capazes de fazer até o Hulk (o tipo verde musculado e não o avançado do Porto) corar de inveja.

Um deles, que tive a oportunidade de testemunhar algumas vezes de perto, tem a ver com a capacidade de duas ou mais mulheres juntas conseguirem tornar qualquer homem invisível. Não me refiro à invisibilidade tipo barreira de gelo, que pretende evitar a aproximação de qualquer pacóvio ou camafeu desconhecido.

Aqui trata-se daquela capacidade de, a meio de uma conversa num gurpo em que esteja um homem presente, torná-lo invisível. Normalmente, começa com um “Eles” e depois tem em anexo uma panóplia defeitos ou insuficiências masculinas que ilustram facilmente porque devem ser as baratas e não os homens a sobreviver a um desastre nuclear.

O homem presente, quando não surdo, tenderá a sentir-se incrédulo e a tentar mostrar que está presente. Nunca, em situação alguma, deve pedir uma bofetada para comprovar que existe sob o risco de perder a invisibilidade e ganhar alguns traumatismos. Tentar participar na conversa pode ser um caminho, mas só se as senhoras se sentirem na disposição de uma sessão espírita, já que não reconhecem presenças adicionais.

Nesse caso, o homem não deve tentar superar a sua invisibilidade temporária com frases tipo “Eu não concordo nada com isso” ou “Mas eu não sou assim”. A conversa feminina iniciada com o termo “Eles” e não “Vocês” indica aos homens presentes que acabam de ser invisibilizados e, como tal, a tentativa de chamar a si o protagonismo, é ridícula e acarreta o risco de o transformar de homem invisível em criança invisível com um falsamente acalmante “Oh tonto, não era de ti que falávamos”.

No entanto, o homem não deve sentir que o facto de estar invisível é um poder seu, quando na realidade é das mulheres. Daí ser desnecessário avisar para o risco de, caso esteja emocionalmente ligado a uma das mulheres, controlar outras ou ter alguma atitude mais indecorosa, como pôr o relato da bola mais alto. A invisibilidade, por si, não acarreta dor, mas pode ter essa consequência nesses casos.

A solução: Esperar que a invisbilidade passe. Com sorte, não há-de durar muito tempo. O suficiente para aprender a dar valor à expressão “O silêncio é de ouro”.

25.8.09

Super poderes a la carte

Influenciado pela Marvel e também pela lycra dos maillots de ginástica, o meu encanto por super heróis tem-me acompanhado desde pequeno. Gostava daquele mundo em que pessoas picadas por aranhas radioactivas, gente verde ou, por exemplo, extra-terrestres adoptados andavam normalmente por aí sem ser em reality shows ou no noticiário da TVI.

Acima de tudo, gostava da ideia de ter super poderes e, no meio das histórias que lia, pensava frequentemente como seria bom poder ter um só para mim. Inicialmente, os super poderes com que sonhava tinham muito a ver com a capacidade de mudar o mundo, o meu mundo claro está. Poderes como comer mais de cem chocolates sem enjoar ou entrar no balneário das miúdas em modo invisível, em ambos os casos com inegáveis mais valias para a humanidade.

Conforme fui crescendo, as prioridades foram mudando e, entre várias hipóteses, havia uma que me seduzia mais – a capacidade de ler pensamentos. Esqueçam os enredos de filmes babacas com o Mel Gibson ou, mais recentemente em séries tipo Heroes. Falo simplesmente no poder de olhar para alguém e saber o que ela pensa. À primeira vista, parecem ser só vantagens, com um super poder que não nos obriga ao contacto com animais estranhos ou nos envolve em cenários de pancadaria de três em pipa, possibilitando ainda uma simpática progressão de carreira pessoal e profissional e, ocasionalmente para desenjoar, ajudar os outros.

Só que, um episódio da 5a Dimensão ensinou-me que ler os pensamentos é coisa que não foi feita para nós, nem mesmo para super-heróis, no mundo em que vivemos. As pessoas dizem muitas coisas que não pensam e pensam muitas coisas que não fazem. Por isso, ler pensamentos seria como um programa da Tertúlia Cor-de-Rosa em que, por cada segundo que passasse a agonia da realidade seria torturante.

Será que queremos mesmo saber o que as pessoas pensam sobre nós? Será que descobriríamos que há malta que pura e simplesmente não pensa? Confesso que desisti na hora, vendi as minhas revistas de super heróis para arranjar uns bons cobres e investi no super poder de escrever baboseiras sem parar.

O mundo pode não ter ficado melhor por causa disso, mas há para aí 10 pessoas que não andam a fazer asneiras só por estarem a perder tempo a ler isto.

Another job well done, Super-Mak (não confundir com o cão gelado, o Super Maxi).



Ps - Não resisti a pôr o Rod Serling da Twilight Zone.

19.8.09

Ai se Portugal dependesse de nós



Para quem não tenha visto bem a sinopse do filme, vivemos num país onde a sacanice e a chico-espertice são, a par do bitoque, o prato do dia. Misto de optimista e cínico, acredito que um dia vamos lá, mas só se isso não depender só de nós.

Se depender só de nós, vamos continuar a fazer o que sempre fizemos. A deitar as culpas no Estado, esse monstro que, faça o que fizer, não faz nada do que diz. A deixar para amanhã. A amaldiçoar a Segurança Social, mas a continuar a receber subsídio de desemprego, apesar de trabalharmos e passar recibos verdes em nome do avô que já morreu há dois anos. A pedir crédito atrás de crédito, porque temos tanto direito a férias como os outros e carro com mais de 3 anos não é coisa que se apresente.

Além disso, se depender de nós a cultura vai continuar a ser uma coisa muito bonita em teoria, mas na prática preferimos gastar 250€ num telemóvel XPTO e no saldo do dito cujo, só porque até temos pontos e senão nunca mais se aproveita aquilo.
Dependendo de nós, os transportes deviam ser muito melhores, mas mesmo que fossem continuávamos a andar quase todos os dias de carro, nem que fosse para ter mais direito a dizer mal das gasolineiras e dos polícias que só querem fazer dinheiro à conta da nossa inocente vontade de ver os limites do carro ou beber uns copos com os amigos.

E, quando falarmos com a geração futura, se depender de nós vamos dizer-lhe que já não dão valor a nada, mas não vamos poder ensinar-lhes o valor das coisas porque nós próprios já não o sabemos. E, quando perguntarem porquê, vamos dar-lhes um telemóvel novo porque agora não temos tempo para explicações e vai dar a bola.
Mas vamos querer que sejam do nosso clube, que vibrem com o futebol, mas não com os futebolistas que, se dependesse de nós, não ganhariam um décimo daquilo que ganham. Tirando se o nosso filho der um dia um pontapé na bola. Aí, tudo o que ele tiver é merecido e, se depender de nós, faremos tudo para garantir isso.

No fim de tudo, se depender de nós, vamos estar fartos de políticos, mas não de politiquices. Vamos dizer a quem quiser ouvir como deviam ser as coisas, mas que não esperem pelo nosso voto, que ele é como nós e tem mais que fazer. Se depender de nós, Portugal deve mudar, desde que a mudança não comece por nós.

E assim em Portugal, se depender de nós, tudo depende dos outros.

Milli Vanilli, Blame it on the rain

17.8.09

Curta sobre certas cartas


Este fim de semana fiz-me à estrada. Apanhei-a desprevenida e antes que desse por isso, já eu andava de volta de dela. Depois de quase três horas naquilo, pensei que não íamos a lado nenhum, mas pelos vistos fomos, já que quando parei não estava muito longe de Oliveira do Hospital.

Deixei a estrada para trás, depois telefono-te. Abracei nova paixão, de olho azul, fresca e sedutora, apesar da caruma que lhe caía em cima. E, mesmo sabendo que muitas vezes me levaria ao fundo, mergulhei nessa tentação de fim de semana. Sem amarguras nem lágrimas, o pouco cloro também ajudou.

Nos intervalos pensei em escrever cartas aos meus amigos, mas surgiram outros que me deram um baralho já com elas escritas. Poupei trabalho, resolvi abrir o jogo. Disseram-me que não jogava com o baralho o todo, mas pus as cartas na mesa: posso não ser um ás das relações, mas não sou uma carta fora do baralho.
“Só nos saem é duques” gozaram eles. Não respondi e resolvi guardar alguns trunfos na manga. Se não saísse dali a dar cartas, pelo menos tentaria baralhar e voltar a dar.

Muito mais tinta correu, mas por fim joguei a cartada final. Voltei a fazer-me à estrada. Aceitou-me de volta, apesar de estar só de passagem. É uma querida, apesar de eu lhe estar sempre a passar por cima. Cheguei a casa, não abri o correio. Não me apetecia jogar às cartas.

13.8.09

Sobre a acção de despejo de Adão e Eva


Toda a gente conhece a vida do Adão e da Eva tão bem, que até parece que somos porteiras de um qualquer prédio celestial. E, embora nem entre na discussão no plano teológico, há ali muita coisa mal explicadinha.

Primeiro que tudo, Eva era aquilo a que se chama na restauração “um piano” do Adão, isto é, antes de Deus se armar em Dexter. Mas adiante, se o biótipo pele e osso era o que estava a dar na altura, siga.
Agora, um casal nu, ambiente paradisíaco, nada para fazer, nunca lhes passar pela cabeça toda uma panóplia de regabofe? Dá-me ideia que, parra à parte, se tratava de um casal de atadinhos. Para além do mais, se esse tipo de entretenimento não estivesse já nos desígnios do Senhor, para quê dotar a malta de certas e determinadas ferramentas. Só se fizer parte de um sentido de humor muito mórbido.

Tendo todo este cenário em conta, a conclusão é óbvia: só com uma maçãzinha aquele parzinho não dava conta do recado. Para já, Eva teria um claro problema com a bebida ou era esquizofrénica, pois embora se conheçam muitas víboras com duas pernas, as tradicionais não são conhecidas por entabular conversações com a malta. Depois, conheço muitas linhas de engate duvidosas mas coisas do estilo “Bem, já que comeste a maçã, bem me podias comer a mim” criam toda uma nova categoria de actos falhados. (tirando se houvesse já uma predisposição para gostar dos Malucos do Riso)

Daí que a razão mais provável para o pecado original tenha possivelmente que ver com uma de duas coisas que não devem faltar em Jardins de categoria divina – erva ou cogumelos. Sim, porque nada me diz que aquele casal não tinha ali uma pitada de hippie.
E, como é óbvio, por muito complacente que um Senhorio seja, sacar drogas do jardim e manchar a esteira que lá havia para os piqueniques, mostrou logo que há malta em que não se pode confiar. Especialmente se forem pessoas.


Afroman, Because i got high

9.8.09

Da galera para a galera.




Ao contrário dos rumores que têm havido por aí, não é verdade que tenha sido trocado por dois prisioneiros de Guantanamo e uma sandocha de torresmos ou que tenha sido condenado a fazer parte da lista do Santana Lopes, enquanto trabalho comunitário junto dos mais desfavorecidos.
No entanto, certamente que o meu ar bronzeado e sorriso trocista devem ter irritado alguém, já que ando mais soterrado em trabalho que uns artistas que viviam em Pompeia.

Mas, tenho conseguido estar com os meus amigos quase todos, já que tenho impressão que até na praia anda aí malta ligada a certas e determinadas redes sociais. É que a gripe suína já afecta centenas em Portugal, mas a febre do Facebook já atinge milhares, com quizzes e aplicações pandémicas para me moerem o (pouco) juízo.

Back to life - Faith No More, Edge of the world

3.8.09

Cigano virtuoso

Primeiro que tudo, esta conjunção no título desmente os boatos que tais palavras nunca poderiam ser proferidas juntas.
Depois, mostra que eu este fim de semana descobri um pouco mais sobre "Gipsy Jazz" e afins.

E não, não se trata do Bamboleo tocado em saxofone.



Mas tal descoberta não me impede de constatar algo que nos mercados inteiros de Portugal já se sabia: os ciganos são bons a dar-nos música.