29.6.09

Nomenclatura para organizações de gente alienada

A par de um duche gelado tomado a rigor, de fato e gravata, antes de sair de casa gosto de me refrescar pela manhã com notícias que me provam que há gente em pior estado mental do que eu.

Sendo assim, foi com alegria que descobri , através deste espantoso relato, que existem organizações com nomes desta craveira - Rede Internacional de Pessoas que Consomem Drogas (INPUD) e o movimento português CASO (Consumidores Associados Sobrevivem Organizados).
Primeiro que tudo, maravilha-me o facto desta malta ter efectivamente a capacidade de se organizar. Já não me parece tão extraordinário a forte possibilidade destes nomes terem sido obtidos sob o efeito das suas matérias primas favoritas.

Rede Internacional das Pessoas que Consomem Drogas parece-me uma organização que se manifesta quando a polícia apreende contentores de drogas, apelando à liberdade dos narcóticos e que organiza exposições das melhoress fotos de apreensões policiais, daquelas todas direitinhas, com pacotes ordenados por volume e tudo. Parece-me ainda que é gente para lançar o cartão DrugPlus, com descontos nos principais postos de abastecimento e a oportunidade de trocar pontos por seringas, cartões de plástico, garrafas de água e, expcionalmente, comida.

Já o movimento português, parece-me um CASO sério. Não sei se é a rima Consumidores Associados / Sobrevivem Organizados, se é o facto de ver que nem os arrumadores se conseguirem organizar, mas parece-me pouco credível. Depois houve a necessidade de transformar a sigla numa palavra, levando-me a pensar que os consumidores de ecstasy e LSD têm preponderância no grupo, o que leva à conclusão que num dia podem estar a lutar contra a discriminação do toxicodependente e no dia seguinte pela defesa dos ninhos de elefantes verdes na Assembleia.

E, sendo este um texto escrito no âmbito da EDIOTA (Escritores Desorganizados mas Interventivos, Opinativos e Totalmente Amorosos), sei bem o que se passa nos movimentos associativos menos considerados. Simplesmente, eu não consumo drogas.

As drogas é que me consomem a mim.

The drugs don’t work, Ben Harper cover

26.6.09

Consternação, horror e outras palavras de bom porte

Vou começar por despachar já o assunto – Michael Jackson morreu. Fui dos primeiros a saber, não através do Twitter, mas porque a Alexandra Solnado me ligou a dizer que Jesus se tinha desbocado.
Nos próximos dias isso significa que o Cristiano Ronaldo só vai poder continuar a galar a sua própria cara ao espelho, que o Jacko vai fazer tanto dinheiro como nos útlimos dez anos e que finalmente vai acabar a novela mórbida e restará aquilo que realmente vale a pena – a sua música.

Mas, o meu verdadeiro horror do dia não teve a ver com a notícia que faz com que Portugal pudesse levar com uma bomba atómica em cima e ainda assim não ser tema de abertura em noticiário que se preze.

Não é que ontem se cruza comigo um indivíduo, para aí com 50 anos, sem ar de andarilho (e acreditem, eu sei o que é ter ar de andarilho) e quando vai a passar por mim diz alto e bom som “BOI”.
Estando eu na proximidade do Campo Pequeno, primeiro pensei que era um alerta para algum bovino desgarrado à solta. Mas, ao virar-me constatei que o único animal à vista era aquele com quem me tinha cruzado.

Pensei então que o Sr se estava a apresentar, mas como não ficou para conversar e isto não era um encontro de “Speed Greeting”, descartei a hipótese.
Restavam duas opções: doido varrido ou estava efectivamente a insultar-me. Não consegui decidir-me, pelo que não fui a correr atrás dele para um ajuste de contas.
No entanto, à cautela, tirei o piercing-argola do nariz, só para tirar isso a limpo numa próxima ocasião.

Jackson 5 – Blame it on the boogie

19.6.09

Parábola do coelho, da hiena e da piada


Tempos houve em que os animais (para além dos políticos) falavam. Possivelmente porque não havia tantas restrições sobre hormonas e medicamentos administradas em animais, mas adiante. O que interessa é que falavam e tinham sempre coisas interessantes para dizer, como era o caso do coelho.

O jovem coelho era uma espécie de ídolo do stand up da altura. Sempre de piada em riste, percorria os palcos, da savana ao círculo polar, divertindo a bicharada como se não houvesse amanhã. Sendo um animal, o seu humor era bestial, mas tinha um toque de requinte que nenhum dos outros animais conseguia acompanhar.

O seu fã número era a hiena. Fã de uma boa gargalhada, seguia o coelho para todo o lado, e não havia devoção maior. Ao fim de vários anos, encontrou o coelho à entrada de uma reserva natural, onde este ia dar uns espectáculos. Aproveitou a ocasião e resolveu meter conversa:

Hiena – Grande coelho pá, tu é que a sabes toda. Admiro imenso o teu trabalho. Epá, só de pensar naquela do urso polar que era bi. Ah, ah, ah!

Coelho – Obrigado, mas olha que isto dá trabalho. Sempre a saltar aí de um lado para o outro.

Hiena – Epá, ah ah ah, sempre a saltar, muito bom, tu estás lá. Diz-me lá, qual é o segredo para ser tão engraçado, curtia saber ah ah ah!

Coelho – Bem, suponho que...

Hiena – Ah ah ah! Epá, sempre a dar-lhe. Tu não perdoas coelho, ah ah ah!

Coelho – Sim, mas...

Hiena – Ah, ah, ah. Pára, pára, que eu não aguento. Ah ah ah!

Já meio irritado, o coelho salta para o trilho, pronto para se fazer à estrada. Virou-se para a hiena e diss:

- Olha, v....

Distraído, não reparou no jipe da reserva e ficou, como se dizia na época, esmigalhado.
A hiena ficou estática por uns segundos. Abriu a boca, fechou, olhou para o que restava do coelho e finalmente conseguiu articular alguma coisa:

- AH AH AH AH AH AH AH – as lágrimas brotavam-lhe dos olhos – LINDAAAAA. GRANDE COELHO, sempre a bombar. SEU GRANDE MALUCO. AH AH AH AH AH!

E depois, foi andando.


Moral da história – As melhores piadas surgem muitas vezes por acidente, mas desprezar até o fã mais idiota pode ser a morte do artista.

18.6.09

Saída do armário a 300 metros


Convenhamos, ser gay e sair do armário já não é o que era. Sim senhor, ainda há casos em que isso causa grande emoção, etc e tal, mas a verdade é que os tempos mudaram e quando se vê “Música no Coração pela 43a vez” aquilo já não é propriamente novidade...

Vislumbre-se um episódio jovem a sair do armário com os pais:

Jovem – Mãe, pai, vim cá jantar hoje para vos dizer algo importante.

Mãe – Ó filho, pensei que viesses por causa do cabrito.

Jovem – Sim, o cabrito é sempre bom, mas eu...

Mãe – É por causa de seres gay?

Jovem – Mas...já sabiam?

Pai – Então, mas tu achas que somos parvos? Olha, passa aí as batatinhas.

Jovem – Eu sei que não é fácil, mas acreditem....

Pai – Não é fácil? Difícil foi a tua mãe preparar o cabrito. Mas olha, se já te decidiste, aproveita e vê lá se convidas o teu primo Hugo para sairem mais à noite.

Jovem – O Hugo é gay????

Mãe – O Hugo e a filha da Arlete, a Carminho. Esteve cá a lanchar com a namorada a semana passada.

Pai – Era simpática a rapariga, despachou-me foi meia garrafa de aguardente.

Jovem – Eu não sabia...

Pai – Pronto, não fiques assim, agora já sabes. E, quando puderes, traz-me daquele creme que tinhas para a cara aqui na casa de banho. É que me faz um jeitaço para depois da barba.

Jovem – É que, nem no emprego sabem...

Mãe – Falando em trabalho, o teu pai diz que abriu um escritório de consultores lá no edifício dele Acho que têm assim um ar bem cuidado e essas coisas. Tu no teu CV dizes que és gay? Olha que podia dar jeito...

Jovem – O que é que isso tem a ver? As pessoas não têm nada a ver com isso. Cada um...

Pai – Mas filho, tu é que vieste falar connosco....

Jovem – Epá, vocês são impossíveis. Eu vou andando...

Mãe – Olha, leva cabrito!


Como se vê, necessitamos de novas saídas do armário para dinamizar a expressão. Talvez pessoas que gostassem de dançar em ranchos ou contabilistas que gostem de declamar poesia lírica. Não se acanhem, eu já assumi o meu amor pelas rendas de bilros.

Little Boots, New in town

16.6.09

Se vai de férias, visite pessoas


É certo e sabido que este blog tem sido maltratado, nomeadamente por mim, mas a verdade é que, tematicamente, isto nunca foi bem tratado. No entanto, achei que era altura de ele crescer e, como tal deixei-o sozinho para ver como se safava. Tal como eu pensava, os blogs são um bocado lerdos, e este ficou assim para o parado.

Volto agora para lhe limpar a baba (não me refiro a si, prezado leitor) e volto com dicas de elevado gabarito. E, acabando por agora a temática de viagens, não o faço com mais fotos de New York City e relatos de fatias de cheesecake do tamanho do Bruno Nogueira.

Nos guias turísticos não vem isto, mas é bom visitar pessoas, quando se vai para fora. Para já, ao contrário dos monumentos, respondem-nos e dão-nos informações, ao passo que os monumentos e coisas parecidas ficam para ali paradinhos a fazer-se à fotografia.

As pessoas são ainda a base de boas histórias de férias. Desde o porteiro que apreciava brincar com a dentadura, ao oriental que tentava “sugar” energia das obras de arte no Metropolitan, passando pelo empregado de recepção que me pediu para lhe traduzir para inglês o que hóspede espanhola gritava ao telefone (e que era “Está um bêbado aos murros e a mijar-me na porta do quarto”) isto são só exemplos das últimas férias. As gajas e os gajos bonzões (ou as crianças, se costumam fazer férias pedófilas), as pessoas irritantes e os personagens, é essa tropa toda que vai diferenciar as vossas férias das dos demais. Porque as fotos e os sítios vão estar lá para todos, salvo catástrofes naturais (incluindo doenças venéreas e pandemias).

Finalmente, só as pessoas nos sítios a que vamos de férias têm curiosidade genuína em saber o que cada um de nós faz ou como é a vida em Portugal. Muitas vezes é só para ver se compensa matarem-nos e roubarem a nossa identidade, mas não deixam de ser uns minutos de conversa interessantes, que nunca temos hipótese de pôr em prática no quotidiano. Aliás, a última vez que tentei pôr isto em prática nos transportes públicos fui posto fora antes de chegarmos às Galinheiras.

Sendo assim, recomendo – lá fora, nem que seja para variar, aproveite as pessoas (não confundir com “aproveite-se das pessoas”).

Thievery Corporation, El Pueblo Unido

1.6.09

Viagens a New York – o que não te dizem nos guias

Então, essas férias? Não é preciso responderem, isto é o que se chama um cumprimento retórico, apesar de ser uma pergunta que tenho ouvido com frequência nos últimos dias. Essa e “Quando é que pagas a guita que me deves?”.

Pormenores à parte, podia vir agora todo ufano falar-vos do requinte que é ir a NY, de tudo o que se pode por lá fazer e não é (muito) ofensivo relatar e ou de como dei uma cabeçada numa gaja do Sexo e a Cidade. Mas, sabendo eu que uma paragem no blog de 3 semanas deve ter deixado este espaço estilo escritório em que foi dada tolerância de ponto, não vou continuar a escrever para mim próprio. Para isso já me bastam os postais de Natal.



No entanto, irei deixando aqui um pequeno guia de curiosidades, caso algum incauto venha cá parar através da pesquisa do Google, por outras palavras que não “Miúdas desinibidas, canalizador, pickles ou moonwalking”.

1º - No avião – Nos vôos de longo curso, os monitores individuais permitem que cada um escolha o filme/série/etc que quer ver. O que é óptimo, mas aumenta o efeito típico dos transportes, em que o vizinho cobiça sempre mais o que estamos a ver do que ele próprio escolheu. Ah e no quadro de visualização do mapa de viagem na altura de partir, para além de Lisboa consta também a Amadora, destino muito popular para o viajante mais exótico.

2º - Comissários/Assistente de bordo – as companhias estrangeiras mimam os passageiros portugueses com humor de cabine, já que entre vôos Lisboa-NY têm sempre um luso-descendente açoreano ou um brasileiro radicado nos EUA ao serviço. Não imaginam a piada que isso confere ao ouvir traduzidas para português umas monótonas indicações de segurança, avisos de turbulência ou respostas pedidos feitos por passageiros armados em espertos, vulgo eu.

3º Entrar nos USA – Para além de parecer que se está na secção de maquilhagem do Corte Inglês, dê cá uma mãozinha, depois a outra, mostre esses olhinhos, sim senhor está aí um turista todo janota, os aeroportos americanos têm a vantagem que parece que estamos logo em Times Square, tal é a montanha de gente de todos os lados. Os japoneses eram os mais fáceis de distinguir, não pelos olhos em bico, mas sim pelas máscaras anti-gripe ex-suína, tipo A apanhe ali o acesso H1N1. O tipo que me admitiu, um tal de Watkin, fê-lo com uma afectuosidade que o meu ar moreno ligeiramente árabe nos dias de Verão deve ter despertado. Sorte que o carimbo foi no passaporte e não no peito, senão lá se iam umas costelas.

Vão-se entretendo a contar prédios, que eu já volto.



Fun Lovin' Criminals - King of New York