3.12.09

A terceira idade já não é o que era



Já toda a gente ouviu a frase “a educação, hoje em dia, já não é o que era”, proferida normalmente por um idoso, em relação a um jovem que teve a ousadia de, alegadamente, passar à sua frente ou no autocarro ou no supermercado ou no café ou no cinema ou na distribuição de amostras grátis ou seja lá no que for. É certo e sabido que, se mete “passar à frente”, há um idoso indignado algures.

Este pequeno episódio, fruto da manhã de hoje lida com isso mesmo, mas de uma perspectiva diferente. Às 9 da matina, aqui o vosso amigo está na paragem do autocarro, meio de locomoção que usa quando é calão de mais para ir a pé ou lhe apetece ler 10 minutos. Levava o meu ar de cromo, vestimenta descontraída, mas com toque de homem que sabe o que quer, apesar de ninguém perceber muito bem o quê.

Ao meu lado, um perfeito avôzinho, daqueles que apetece dar um abraço e contar como foi o dia na escola. Bem vestido, gabardine, gravatinha, chapéu, bengala, cachecol e ar afável. Enquanto o autocarro não chegava, eis que atravessa a rua uma bela figura feminina.
Mulher bem parecida e tal, bom porte atlético, que chamava a atenção sem cair na vulgaridade. Ao perceber que o meu olhar a seguiu cinco segundos a mais do que o bom senso recomenda, senti um bocado a voz da consciência “o avô não ia gostar que eu mirasse assim tal donzela”.

Foi nesse momento que me voltei para o velhote, para ver se ele me tinha apanhado em flagrante. Não tinha, nem podia, essencialmente porque ele ainda estava a controlá-la. E, quando eu esperava apenas um ar simpático de “Quando era mais jovem...” eis o que ouvi com tom de sofreguidão:

“Ah, mula do caralh....”


Encolhi os ombros e aproveitei que o gajo estava distraído para lhe passar à frente e entrar no autocarro, que entretanto chegara.

8 comentários:

  1. LOL!!! Definitivamente, já não se fazem velhinhos como antigamente!

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  2. Sabes o que se diz, a idade não faz perder a vontade. "A cabeça de baixo não funciona mas a de cima não se esquece".

    Quanto à frase do velhote. MULA, explica-me. É que um destes dias também me chamaram isso e fiquei a matutar no que quer dizer. É ser alta? É usar rabo de cavalo? Hum...explica lá do alto da tua masculinidade por favor.

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  3. Bem, mais do que do alto da minha masculinidade, onde faz frio e o ar é mais rarefeito, prefiro tentar explicar do meio do meu entendimento sobre léxico bardajão e respectiva gramática.

    Por um lado, mula, cavalona, avião, canhão, tudo isto são elementos de algum porte, que expressam algo "em grande". Seja isto literal ou qualitativo.

    Por outro lado, as mulas/burros/ etc, eram animais que noutros tempos tinham outro valor, já que uma família rural que os possuísse (sem segundas intenções) era mais rica. Daí uma mula ser alvo de cobiça and soi on.

    Assim de repente, arranja-se isto...

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  4. Pronto, esclarecida. Pensava eu que era por ser alta e o barulho dos saltos lhes fazer parecer os das ferraduras das mulas. Estou mais descansada

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  5. Ha! Ha! Ha!

    Tá velho manatá morto.

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  6. LoL! É começar bem o dia, sem dúvida.

    Pipoca, até podias ir a imitar o trote com saltos, mas mula, no caso, é mesmo figurativo.

    Mak, foi arriscado isso de passares à frente. Ele disfarçado de avô bonzinho, se te apanha ainda te dava uma cajadada no pecoço!

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  7. EU conheço-te. Eu sei como tu és. Acreditem leitores, que o autoretrato traçado pelo narrador não corresponde à sua aparência física. Ele é "Mak, o Mau" por amor de Deus!
    Imagino o terror que o pobre velhinho sentiu sentado ao teu lado sem ninguém por perto pra pedir ajuda. O pânico! Os suores frios! Se calhar até verteu umas gotas de urina (por tua causa ou só porque sim). No seu terror ele estava desesperadamente a tentar empatizar contigo pá! Vê-se que não conseguiu...
    (E no fim está a prova - deixou-te passar à frente e não refilou! - aposto que nem entrou no autocarro e ficou colado à sua pequena poça amarela)

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  8. Eu poderia ficar melindrado pelo facto de uma besta qualquer chegar aqui e tecer considerações sobre a minha pessoa.

    Mas, como de besta qualquer só tem o nome, já que consigo perfeitamente fazer a distinção entre e esta e outras bestas, não fico.

    Digo-te apenas para continuar a tomar a medicação atempadamente, enquanto ouve uns discos de Bing Crosby para acalmar. Se fosse verdadeiramente uma besta qualquer, não iria perceber esta referência.

    Como não é, aconchegará a sua fraldinha Lindor e encaminhar-se-à para a sua aparelhagem estereofónica.

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