23.11.09

O Dia da Benificência

Pode ser um choque para vocês, mas até pessoas como eu têm três ou quatro (vá lá, dois) dias por ano em que se dedicam a causas nobres. Como me disseram que este ano pontapear escuteiros não era válido, tive que variar e ir a um almoço de beneficência.

Não se tratava de uma causa qualquer, já que protege e cuida de animais, pelo que havia um certo interesseirismo da minha parte, pois nunca se sabe o que o futuro me reserva. O sítio era chique, o valor não era um choque e o repasto prometia pratos de nomes complicados e outros mais básicos, para quem tem vergonha de pedir comida em língua estrangeira.

Sentia-me à vontade, depois de ter treinado três ou quatro vezes comer com talheres. No entanto, há algo que me mexe com os nervos – eventos em que a média etária é o dobro da minha idade. Para já, os mais jovens acantonaram-se todos numa mesa, não tanto no espírito “mesa das crianças”, mas mais no género quem não usa fralda, tem a maioria de dentes próprios e não conviveu com o Rei D.Carlos que se junte aqui por favor.

Depois, almoço que meta buffet e idosos é como assistir a um arco-íris ou uma aurora boreal. Há sempre algo místico que nos fascina, quer seja o número de problemas de articulações e mobilidade que se curam dizendo apenas “Podem dirigir-se ao buffet” ou a forma como o Alzheimer e o apetite convivem salutarmente, já que se consegue ouvir gente dizer “Ah, eu como muito pouquinho”, enquanto se abastece de sobremesas pela 5ª vez.
A doença de Parkinson regride em quem tem de segurar pratos com empenho e os problemas de gota só se aplicam se se referirem ao abastecimento sôfrego de um simpático vinho tinto.

Aliás, a única parte de dor e sofrimento vem de quem, jovem e saudável, tem que levar com bengalas, andarilhos e cotovelinhos ossudos para chegar à comida. Mas pronto, lidei com tudo usando um bonito sorriso (emprestado), já que captei o espírito da coisa e, sem qualquer cariz vingativo, conto chegar a velho e aí vão ver quem é que rula na beneficência, no buffet e na arte dirigir cotovelos a diafragmas alheios.

3 comentários:

  1. É um investimento a longo prazo. Nesta altura, dei a beneficiar...

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  2. Também já tinha reparado no fenómeno que consiste em meter o Parkinson em "pause"... Naquelas tabernas onde os velhos bebem shots de vinho tinto. Quando é para agarrar no copo cheio até ao limite o Pakinson parece que fecha ali os olhos por um instante e diz: vá, vá... despacha lá isso.

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