20.11.09

Homónimofóbico

Não sendo das mais invulgares, a minha conjunção primeiro-último nome também não será a mais vulgar. Sendo assim, poder-se-ia dizer que primo pela mediania em termos de nome. Poder-se-ia, mas não se pode, já que o meu misto criatividade-imbecilidade pura, a par de uma modéstia de gabarito, dão um cunho muito pessoal ao meu nome. Tanto que tenho a mania que devia ser só meu.

Mas, a verdade é que não é. Aqui e ali vão aparecendo alguns indivíduos que teimam em usar o meu primeiro e último nome. Um claro abuso que só do alto da minha magnanimidade vai sendo tolerado, com um claro risco para eles. É que, cada vez que alguém fala no meu nome, eles têm a vã esperança que se fale deles. E depois ficam tristes, chamam-me nomes, quando deviam estar mais preocupados era em trocar o deles.

E depois, nascem episódios assim;

Certo dia, estava eu no recato do meu espaço laboral, quando me ligam da recepção. Não era do Fisco, nem sequer do Pirilampo Mágico, mas sim uma senhora que estava lá à minha espera. Ora eu não estou habituado a ter senhoras à minha espera na recepção, já que prefiro dar os autógrafos no exterior do edifício.

No entanto, lá fui eu, com uma barba digna de qualquer pirata dos piores bairros das Caraíbas, t-shirt de dizeres pseudo-engraçados e atitude a condizer. A jovem de tailleur conservador e ar assustado só não caiu redonda logo ali porque tinha uma entrevista. Comigo, pelos vistos.
Foi exactamente isso que me disse, depois das duas beijocas da praxe. O meu ar estupefacto era visível por debaixo do ar de parvo, o que ainda a assustou mais. “Mas, senhor X falámos por email a acertar pormenores da entrevista. Hoje é dia Y não é?”

“É, mas se falámos por email alguma vez na vida, deve ter sido noutra encarnação, porque nesta eu não me lembro”.

O vermelho no rosto da jovem não condizia com a camisa “Mas, é o senhor X não é?”, “Sou”, “Eu sou a Z, da parte do QB. Liguei-lhe primeiro e depois enviei-lhe o CV por mail. Combinamos hoje e lá em baixo na portaria disseram-me que era aqui”.

A loucura já deitava por fora “Mas mandou o CV para a XPTO. É que nós ainda somos uma empresa ainda bastante grande”.

“Ah.....não” O tom roxo também não condizia “Mas não é o senhor X da Bling-Bling Joalheiros?”.
“Não, sou o senhor X, mas da XPTO. A Bling Bling também deve ter um senhor X, neste edifício e neste andar”.

“Não acredito” a moça encostou-se como se precisasse de água. Como o garrafão ainda era longe, dei-lhe antes uma palmadinha nas costas.
“Eu também não, esse senhor não se devia chamar assim, mas acontece. Ande comigo que eu digo-lhe onde é”.

E lá fomos os dois, corredor fora, até à porta correcta onde trabalha o senhor com o nome errado. Ela ainda estava atabalhoada “Desculpe lá...E agora, estou tão enervada com isto tudo...”.
“Não esteja. O nome do senhor indica que é boa pessoa e, além disso, se a entrevista correr mal, sempre tem uma história engraçada para contar ao chegar a casa”. O garrafão de água ainda estava mais longe agora, dei-lhe outra palmadinha no ombro.

A porta abriu. A jovem entrou. Fui-me embora sem ver o senhor X, que até lhe poderia dar um emprego, mas nunca lhe proporcionaria uma história assim.

É o que dá não trocarem de nome. Depois, arriscam-se.

4 comentários:

  1. Vinha saborear um croissant com chocolate quentinho e engano-me no post...

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  2. Dá-lhe mais umas horas e quem vai lá sou eu ;)

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  3. Muito bom... Devo ter os vizinhos de baixo a pensar que mora um louco no andar de cima, tal o volume das gargalhadas!

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