19.10.09

Entrevista a dor

É um facto que gosto de dizer mal gratuitamente. Como é óbvio, preferia que me pagassem para isso, mas visto que até agora ninguém se chegou à frente, vejo-me obrigado a esta espécie de mecenato maldizente.

Mas, dentro dos limites, diria mesmo das alarvidades gratuitas que por aqui vão passando, tento que tenham uma coisa – critério. E a palavra critério, por si, já é um bocado ofensiva, especialmente quando se trata do meu.

Serve este breve interlúdio para ver se consigo encher umas quantas linhas de dissertação psico-técnica antes de começar a dizer mal de entrevistadores. Oh, já comecei, pois então que se lixe.

Não acho que tenhamos os piores entrevistadores televisivos do mundo, mas temos os clichés todos do mundo jornalístico-entertaineador. Tinha para aqui um relambório a analisar alguns dos principais entrevistadores/ tipo de programas, mas não é preciso. Basta que fechem os olhos e pensem num programa/entrevistador, para saberem sempre como são todas as suas entrevistas, salvo surpresas.

Inove-se minha gente, seja-se mais fresco, arrisque-se um milésimo. Não vou dar os americanos como referência, porque em programas do Conan O’Brien ou Jay Leno, aquilo também é muito ensaiado, mas há ali um espacinho para o imprevisto, para a naturalidade. E se querem exemplos mais “sérios”, já vi um “60 Minutos” que acabou com o entrevistador a desafiar o Michael Phelps para uma corrida na piscina de fatinho de banho, mas sem palhaçada. Perdeu, mas ganhou no inusitado, sem deixar de ser interessante e válido.

Vi a semana passada a Grande Entrevista da Judite de Sousa ao António Feio. O momento é delicado, mas a atitude do António é positiva, mesmo num cenário complicado. Em vez de demonstrar, subjectivamente (até porque o entrevistado ajudava) que as doenças mais graves podem ser enfrentadas com positivismo, teve que ser aquele esquema óbvio de 10 perguntas sérias sobre um problema sério, porque o programa é sério.
Nem sequer as dicas de bom humor, como a da Amélia Rey Colaço, foram aproveitadas para aliviar um pouco o peso de estarmos perante um homem que luta pela vida, sem perder dignidade nem interesse para o espectador. Já cada pormenor mais trágico ou mais em cima da mesma tecla do cancro, foi sempre bem explorado. Não digo que seja desrespeitoso ou que as pessoas não queiram saber. Mas...

Fujamos do óbvio, sem por isso fugir da realidade.
Por favor.

Tirando neste blog.

Aqui é óbvio que a realidade é má.
Condiz com o autor.


Desculpem, mas tem que ser assim.

6 comentários:

  1. Confesso que fiquei um bocadinho mal disposta pela forma como a entrevista estava a ser conduzida.

    Foi exactamente como disseste: nem sequer as piadas foram "usadas" para passar a imagem de que temos que encarar até a pior das dores com positivismo.

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  2. Por mim, estás desculpado. Desde que não te desvies nunca do mau caminho.

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  3. A nossa classe de jornalistas, tirando alguns que arriscam muita coisa, é quase (diria) vergonhosa. Têm inúmeras oportunidades de «entalar» políticos e outras gentes, mas não têm coragem para fazer as perguntas. Não são ousadados, pautam-se pelo politicamente correcto bolorento e que permite uma série de palhaços continuarem a passear em praça pública como se fossem uns reis. É por jornalismo deste que depois temos Isaltinos a vencer e Paulos Portas a dizer merda quando e como lhe apetece.

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  4. @ RL - Não vou tão longe nessa generalização, porque acredito que há gente competente, dentro dos vários meios. Mas, nos pontos específicos que mencionei, nomeadamente no campo das grandes entrevistas, andamos a comer o mesmo prato há mt tempo.

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  5. Mas vocês querem mudar o mundo?

    Prefiro sentar-me a dizer mal, desisti aos 30!

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  6. Dissertação psico-técnica, e jornalistico-enterteineador... Desculpa mas aqui a realidade ainda é embelazada pela tua prosa.

    Ainda hoje estive a elucidar um amigo espanhol, que estava desolado com a entrevista ao Saramago. Isto é fraquinho na verdade. Se não fazem as perguntas certas é por medo de perder futuras entrevistas. Naquela nem isso. Foi só estupidez.

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Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.