9.9.09

Passatempo Dr. Tédio - Apocalipse fiNow

Nota Prévia: Já era hora de esta história ter um fim. Bom, mau ou assim-assim, o importante era não continuar a gozar com pessoas com problemas e isso inclui-me a mim, a vocês e também ao Vicente.

Um digestivo para o caminho.

Com a refeição a caminhar para o fim, a ausência de notícias da sua noiva, fazia a crispação de Vicente aumentar. E, se alguns dos convidados pareciam querer ajudá-lo, conversando e rindo, outros pareciam ter uma mira apontada para si.
Levantou-se, ajeitou a camisa e preparou-se para ir buscar uma garrafa à cozinha. “Ouve lá” disse-lhe o avô, que até ali intervalara pratos com sonecas, “Estás todo janota, isso é de alfaiate?”.
“Não avô, é fatiado hermético...”, o absurdo das suas palavra era quase tão embaraçoso como a recusa do avô em usar aparelho auditivo. “Ado Ermetti? Muito bem, fatinho italiano, hein, pareces um jogador do Sporting. Qualquer dia és fino demais para pegar nuns euróis e pagar uma bejeca ao avô”.
“Não arrebente a fábula avô. Está aí albardado em beldroegas, quando é o avô que me deve umas a mim”. Correu para a cozinha para lavar a boca com Super Pop, a fazer se não dizia tanta merda.

Aqueles minutos na cozinha valeram olho, pensava ele. Pegou na garrafa, “onde é que está a merda do caga-trolhas?”. Encontrado o dito cujo, abriu-a e voltou para mais um round.
“Então Vicente, não encontraste nenhuma moçoila disposta a casar contigo aí escondida na cozinha?”. A voz da tia Isaltina, só por si, dava vontade de a enforcar nos laços de sangue que os uniam.
“Não tia, mas essa conversa de pachacha não a vai fazer soltar um brilharete”. O horror...

“Filho!!” A expressão da mãe dizia tudo...
“Francamente Amélia, o teu Vicente está um bocado rude hoje. Se calhar é melhor irmos andando já que, ao contrário da má educação, noiva nem vê-la.” Isaltina começou a levantar-se.

“Oiça lá, sua pinchona bufa...” Vicente ficou surpreendido, porque estas palavras não saíram da sua boca, mas sim do seu pai, que raramente dizia mais de três palavras por jantar.
“Então o rapaz arrefanhou talento por todos os poros, para fazer um jantar em grande para a família e os amigos e dar uma novidade que todos já sabemos qual é e agora não tem aqui a noiva e ainda tem que a gramar?”

Vicente estava preocupado, será que o pai também tinha batido com a cabeça?

“Pegue lá no balão insuflado do seu marido”, o pai estava embalado e não havia quem o segurasse “e aproveitem a recta à saída do prédio para irem dar uma curva. Só tenho pena da Clara, porque se calhar tem que ir convosco”. Ouviram-se palmas camufladas, por parte dos amigos de Vicente.

“Amélia!!! Não dizes nada?” Isaltina estava da cor do seu vestido “Deixas o teu marido tratar-nos assim?”
A mãe de Vicente não tinha palavras, talvez porque o marido e o filho as estivessem a usar todas. Ana, sempre oportuna, interveio.
“Vicente, o teu telemóvel está a tocar lá dentro, se calhar é melhor atenderes”.

Com gente aos gritos na sala e a IIIa Guerra Familiar a estalar, Vicente desatou a correr, ouvindo o seu apropriado toque kitsch “Words don’t come easy” ao fundo. À entrada do quarto, não calculou bem um salto e aterrou em cima do tapete, que deslizou e levou a cabeça de Vicente a conhecer de perto a mesa de madeira, antes de lhe apagar as luzes.
“Words don’t come easy
to me
How can i find a way, to make you see...”

O toque não o deixava desmaiar em paz.
Abriu os olhos.

“...I love you.
Words don’t come easy”

Tinha o telemóvel na mão, os dentes ainda na boca, mas não estava no quarto, mas sim no aeroporto, sentado na zona das chegadas.
Atendeu o telemóvel, que já não se podia com o sacana do FR David.

“Estou?”
“Pelos vistos agora estás” o sorriso da sua miúda via-se até pelo telemóvel “Já te tinha tentado ligar, já estou à espera das malas, afinal isto não atrasou tanto como se previa. Recebeste a minha mensagem?”

“Sim...” esfregou os olhos para ver se agora é que estava acordado ou se isto é que era um sonho. “É que fiquei com um tatu no tutu e....” ao ouvir as suas próprias palavras, sentiu um frio na espinha.
“Ficaste com o quê?”
Vicente respirou fundo “Desculpa, ainda estava a acordar”.

“Acorda lá”, ela tinha uma maneira carinhosa de o fazer sentir uma criança “e vai ter comigo que já estou a sair. E espero que não te tenhas esquecido que hoje é o jantar da tua prima Clara, para anunciar às tropas que se vai casar. Vá, até já, beijo.”

Ah, um jantar de família. Era mesmo disso que Vicente estava a precisar.

6 comentários:

  1. Sem palavras.
    És um ARTISTA!
    AP

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  2. Ahhhhhhh!

    Já agora, tens brinde no meu estaminé, é que com esta deste-me a volta!

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  3. Gostei!!
    Mais passatempos!:)

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  4. Muito bom... O Vicente acabou por se revelar um poço de léxico ao bater com a cabeça, mas tácticamente, foi muito bem feito mesmo. Mais vale ter sido o Vicente a bater com a cabeça do que tu, a tentar escrever um texto com a quantidade de palavras complicadas que certas pessoas sádicas aí te deixaram. Esta gente que cá vem, realmente...

    O twist final está excelente. E ficou bem, o Vicente :)

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  5. Maravilha pá!
    E bem nos lixaste a todos. As palavras com que contribuiste foram muito superiores às que te deixaram. Tens aí cada mimo... Estou a lembrar-me p.e. daquele sorriso que ia bem com o tal punho fechado... :)))

    Para a próxima temos que caprichar para chegarmos ao teu nível, a ver se não tens que fazer um downgrade do cérebro para incluires as do pessoal.

    :)))

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