19.8.09

Ai se Portugal dependesse de nós



Para quem não tenha visto bem a sinopse do filme, vivemos num país onde a sacanice e a chico-espertice são, a par do bitoque, o prato do dia. Misto de optimista e cínico, acredito que um dia vamos lá, mas só se isso não depender só de nós.

Se depender só de nós, vamos continuar a fazer o que sempre fizemos. A deitar as culpas no Estado, esse monstro que, faça o que fizer, não faz nada do que diz. A deixar para amanhã. A amaldiçoar a Segurança Social, mas a continuar a receber subsídio de desemprego, apesar de trabalharmos e passar recibos verdes em nome do avô que já morreu há dois anos. A pedir crédito atrás de crédito, porque temos tanto direito a férias como os outros e carro com mais de 3 anos não é coisa que se apresente.

Além disso, se depender de nós a cultura vai continuar a ser uma coisa muito bonita em teoria, mas na prática preferimos gastar 250€ num telemóvel XPTO e no saldo do dito cujo, só porque até temos pontos e senão nunca mais se aproveita aquilo.
Dependendo de nós, os transportes deviam ser muito melhores, mas mesmo que fossem continuávamos a andar quase todos os dias de carro, nem que fosse para ter mais direito a dizer mal das gasolineiras e dos polícias que só querem fazer dinheiro à conta da nossa inocente vontade de ver os limites do carro ou beber uns copos com os amigos.

E, quando falarmos com a geração futura, se depender de nós vamos dizer-lhe que já não dão valor a nada, mas não vamos poder ensinar-lhes o valor das coisas porque nós próprios já não o sabemos. E, quando perguntarem porquê, vamos dar-lhes um telemóvel novo porque agora não temos tempo para explicações e vai dar a bola.
Mas vamos querer que sejam do nosso clube, que vibrem com o futebol, mas não com os futebolistas que, se dependesse de nós, não ganhariam um décimo daquilo que ganham. Tirando se o nosso filho der um dia um pontapé na bola. Aí, tudo o que ele tiver é merecido e, se depender de nós, faremos tudo para garantir isso.

No fim de tudo, se depender de nós, vamos estar fartos de políticos, mas não de politiquices. Vamos dizer a quem quiser ouvir como deviam ser as coisas, mas que não esperem pelo nosso voto, que ele é como nós e tem mais que fazer. Se depender de nós, Portugal deve mudar, desde que a mudança não comece por nós.

E assim em Portugal, se depender de nós, tudo depende dos outros.

Milli Vanilli, Blame it on the rain

13 comentários:

  1. Sem muitas palavras até porque a expressão adequada é anglo-saxónica: overwhelmed!
    Vou fazer a merecida publicidade no meu blog e retiro-a se não concordar com tal.
    Abraço.

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  2. Se depender de mim, não há problema ;)

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  3. Sim senhor! Tenho que retirar o meu chapéu às tus sábias palavras. Gostei tambem de reconhecer tudo o que disseste, mas não me sentir enquadrado ou parte participante dessas mesmas coisas. Só pode querer dizer que estou no bom caminho!!!

    bom post.

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  4. E o pior é mesmo que ninguém se reveja no teu texto...

    (Ora deixa lá ver onde é que está a seringa, que o cu já encontrei...)

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  5. olá.

    exatamente como no Brasil.

    adorei.

    posso copiar?

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  6. Escolheste uma banda que fazia playback... Escapou-me alguma subtileza?

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  7. Disponham sempre meus caros.

    @tempus - Aquilo não era uma banda, era teatro de marionetas

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  8. Aplauso! Um verdadeiro espelho nacional.
    Parabéns.

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  9. Isso depende de quem dependesse... Se fosse dos outros, estava isto feito..;)

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  10. Genial!

    Eu já comecei com a garota que está no espelho, e mesmo que todo o país não fique melhor, à minha volta e em tudo o que me diz respeito está melhor concerteza!
    É pena é que não consigamos fazer com que o que falta para os 10 milhões, faça o mesmo...

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  11. Agora que falaste em marionetas, realmente eles lembram-me um bocado A àrvore dos patafurdios...

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  12. Muita boa analise da sociedade portuguesa.

    Pena que, mesmo quando se tenta abrir os olhos as pessoas a quem te referes no post, ha um tampao nos ouvidos teimoso que as impede de realmente assimilarem e mudarem de atitudes...

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