29.7.09

Rica vida tem a morte


É certo e sabido que, traço geral, a malta não é assim grande fã da morte. Fazem-se piadas sobre ela, trivializa-se o seu efeito, mas quando nos toca de perto, a vontade de rir desaparece num instante. O que é chato, porque a maior parte das pessoas que conheço ficam mais bonitas a rir do que a chorar. Tirando umas quantas, que não há boa disposição que as safe.

O nosso problema com a morte é que não somos racionais, o que até se pode justificar pelo facto de ela também não nos estender essa cortesia. Há mortes esperadas, há mortes inesperadas, há mortes trágicas, há mortes heróicas, mas não deixam de ser mortes. E isso signifca que alguém que nos é próximo passa a ser para sempre distante. A culpada do costume: a morte, claro está.
A realidade é que essa é uma culpa fácil, porque a morte em si não faz nada, é um bocado parada. São as doenças, os acidentes, a idade e tudo o resto que matam as pessoas. A morte é o ponto final num texto, não tendo qualquer responsabilidade sobre a forma como o fim da história se desenrolou. Mas nós transferimos para ela todo o nosso sofrimento.

A verdade é que não gostamos muito da dita Sra pelo facto de assinalar, de forma marcante, o momento em que o sofrimento passa definitivamente para as nossas mãos. E isso dói. Dói ainda mais porque nessas alturas vem ao de cima o nosso egoísmo, o egoísmo próprio de quem está vivo e sofre.

Mas e então, devemos gostar da morte? Se tivermos uma funerária, sim, porque é ela que nos garante a vidinha e é um sector em que nunca há falta de matéria prima. A verdade é que também eu não gosto da morte, mas também não sou grande fã do nosso culto à volta dela.
A versão religiosa serve para dar conforto face ao desconhecido, mas é tudo muito virado para nós, para amplificar o nosso sofrimento. O cerimonial foca-se na partida, num tom carregado e, adequadamente, fúnebre, mas nem tanto no que de melhor teve a vida de quem morreu.
Sim, porque se estamos ali, é porque algum impacto aquela pessoa teve na nossa vida e, por mais trágica que a forma como nos separamos dela possa ter sido, isso não devia apagar o que de melhor nos juntou, nem sequer secundarizá-lo. Mas, a saudade e o sofrimento tornam-nos egoístas. A reacção é natural, mas também é muito cultural.

A maior parte dos nossos cemitérios é apenas um espelho disto tudo. Pedra e mais pedra, placa e ostentação, sinais que falam para os vivos, mas homenageam pouco a vida. Nada substitui uma pessoa, mas uma lápide fria terá sempre menos vida que uma árvore, uma planta, algo verde e colorido. É certo que não temos espaço para exemplo estilo americano ou inglês, mas à escala poderíamos ter espaços bem mais naturais, verdes, tranquilizantes e, porque não, vivos para honrar os nossos mortos. Eles certamente ficariam satisfeitos, especialmente por nós.

2 comentários:

  1. Concordo! Talvez até fosse mais fácil enfrentar a distância causada pela morte se a visão que tivéssemos fosse de um grande e lindo jardim... A ilusão de que existe aquele tão falado "lugar melhor"! Bjo!

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  2. E teriam, de certeza, mais vezes quem deles gosta, por perto.

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