30.10.08

Argentina nas mãos de Deus (e do Diabo)

É curioso ver como, por vezes, as coisas se encadeiam e refiro isto apenas como a justificação de que preciso para falar de futebol. Vem isto na sequência de, na semana passada, ter tido a oportunidade de ver o documentário “Maradona by Kusturica” onde confirmei apenas algo que já previa - quando se juntam dois tipos que têm algo de génio/louco (e amizade por substâncias ilícitas) o resultado, quando não há instrumentos afiados pelo meio, pode ser engraçado.

Nesse documentário, confirmei também que há dois sítios na Terra onde Deus não é um individuos de longas barbas brancas, túnica a condizer e voz ribombante, mas sim um gordito atarracado com cabelo para dar e vender, problemas de atitude e uma relação mágica com uma bola de futebol – Argentina e Nápoles. Da criação de fenómenos como a Igreja Maradoniana ao estatuto imortal alcançado numa cidade pobre do sul de Itália, é fácil observar que a adoração pelo pequeno marciano (assim definido pelo irmão para aí aos 10 anos) vai muito para além da lógica.

Já esta semana, observei essa mesma ausência de lógica ao ler que Maradona foi designado seleccionador argentino. Quem assumiu essa decisão não assumiu um risco, assumiu vários e snifados em sequência. Este Deus nos campos, fora deles é um homem com falhas, muitas e variadas, muitas delas assumidas pelo próprio, mas que nunca se negará aquilo que ama - o futebol argentino.

Maradona já ganhou o estatuto de imortal, apesar de episódios como este. Não precisa de tentar mais milagres ou converter mais fieis. Posso estar muito enganado, mas, para além de um efeito moralizador, vejo muito pouco de bom em ter o Diego à frente do comando técnico de uma selecção como a Argentina. Imaginem, o Eusébio à frente da selecção, seria bonito mas muito pouco rentável parece-me, embora por esta altura tudo pareça melhor que o Queiroz.

É lógico que a mim me dá jeito, pois piadas fáceis são o prato do dia, tal como “Vamos ver a Argentina a jogar colada à linha”, “Maradona procura fonte de inspiração no banco” ou ainda “O resultado ficou em branco, o nariz de Maradona também”, mas o facto é que não me dá gozo bater num ceguinho que me dá tanto gosto rever em cada momento que passou no relvado.

A não ser que Maradona queira ser seleccionador português. Nesse caso, esqueçam tudo o que eu escrevi...

29.10.08

Posts com pinta

Eu ia falar sobre o Maradona (e ainda vou), mas valores mais altos se levantam. Até hoje, eu pensava que era criativo. Depois de ter visto o site da empresa Tintas com Pinta, percebi que não passo de um traste... O senhor desta empresa, depois de promoções com presuntos e cordeiros, continua a inovar e até já tem honras de destaque na TSF.

Vejam o site com som e maravilhem-se com a mente humana...

27.10.08

As balelas públicas dos condomínios privados


Como o mercado imobiliário já era pouco especulativo (e que se lixe a facada da Subprime party), de alguns anos para cá foi-se implementando a bela estratégia do condomínio privado a granel.
Se, em teoria a ideia de um condomínio privado tem algum cabimento, embora importada certamente de cenários além fronteiras onde a grandeza (falo também de espaço físico) é mais comum, na prática já chegámos ao ridículo.
Condomínio privado, para mim, é sinónimo de habitação de luxo em espaço reservado, que pelas suas características tem algo que a valoriza e distingue das demais. Seja pela localização de eleição, seja pelos pormenores de construção, seja pelo facto de 80% das habitações estarem reservadas a supermodelos nórdicas. E, por isso tudo e mais um par de botas, os condomínios privados eram caros, muito caros, fora da dimensão comportável aos mortais mais comuns,

Mas, a lógica empresarial inverteu o cenário. Alguém se lembrou que se podia continuar a utilizar a nomenclatura “condomínio privado”, enquanto espelho de habitação distinta e admitamos – elitista, mas agora apenas como chamariz. Ao início, reduziu-se apenas um pouco no luxo, na localização, que agora já não tinha de ser bem perfeita, na % de modelos finlandesas, que também já só era preciso ser para aí de 40%. Tudo isto discretamente, continuando a gritar “condomínio privado”, já que a coisa se vendia e a bom preço.

O consumismo desenfreado, a mania das grandezas e a estupidez em doses generosas fizeram o resto. Hoje em dia temos condomínios privados a 10 minutos do centro de Lisboa (percursos feitos em F-16 é certo) e a 2 minutos de bairros sociais (e gente perigosa, daquela que convém ter muros para evitar). Temos condomínios literalmente debaixo da ponte, temos “Quintas”, “Jardins”, “Terraces” e outros nomes pomposos que escondem projectos feitos às três pancadas e antigas Charnecas e outros lugares de nome bem menos atractivo. Temos construção de segunda a preço de primeira e têmo-la em catadupa, até que a malta perceba que por vinte condomínios que nascem, só um ou dois têm mesmo potencial para o ser e olhem que estou a ser generoso.

Mas, tal como os carros de luxo, os condomínios privados continuam a ser vendidos muito mais facilmente, do que muita habitação mais fiável, mas certamente muito menos chique. É o que dar viver numa era onde mais importante do que pensar se a corda aperta no pescoço, é saber se se vai ficar bem na fotografia quando se for enforcado.

Madness, Our house

24.10.08

Pronúncia do Norte

Queijo Brie e Croissants são por norma as únicas coisas provenientes de França que me fazem sorrir, tirando a Laetitia Casta é bom que se acrescente.
No entanto, sou um tipo que, quando questionado, gosta de dizer que não tem preconceitos, pelo que ontem me dirigi ao cinema para ver o "Bem-vindo ao Norte". Aproveito também para uma especial saudação à gestão do Alvaláxia, por ter cedido uma sala a duas pessoas só para visionar este filme. Não é todos os dias que se encontra gente tão simpática, mas há que referir que, sendo eu a pedir, tudo se facilita.

Não é o primeiro filme francês que gosto, e sei que é danoso para a minha imagem pouco intelectual admiti-lo, mas neste caso o interessante é ver que esta é uma comédia simples, sem pretensões elitistas, mas também sem cair de chapa no território da alarvidade. Para quem domine o francês ao meu nível (baguette, raquette, manette) é certo que alguns trocadilhos de linguagem se vão escapar, mas também é verdade que, neste caso, a tradução não assassina o filme.
É daqueles filmes em que um bom argumento (também não é caso para dizer que é um argumento épico) e actores competentes fazem de um filme cómico aquilo que é suposto - uma hora e picos de boa disposição, sem muito que pensar.

O trailer, que aqui vos deixo, não faz a honra devida ao filme, mas é como este blog, eu também sou muito melhor do que aquilo que escrevo.

23.10.08

É-Vidente que não



Entre aqueles que efectivamente têm capacidade para prever o futuro, haverá certamente uma expressão que lhe surgirá na mente ao lerem estas linhas – “Eu já sabia”. A verdade é que depois de este mês ter sido apresentado à Maya, senti que a minha espiritualidade está atingir novos patamares, quase ao nível do meu bom senso.

O meu problema é com a escola de videntes portuguesa, e deixo assim já de fora a classe colegial africana de Metres, Professores, Doutores e outros grandes académicos publicados nos mais reputados suplementos de classificados e em cartões distribuídos à saída do Metro.
Entre grande parte dos videntes portugueses há toda uma espécie de estratégia que me leva a pensar que, ou esta gente vê mesmo o futuro ou então não vê um palmo à frente do nariz. Vejamos este exemplo que se passou perto de mim:

José M. é vidente ou pelos menos pensa que é. Usando o seu talento visionário, vislumbra um espaço numa pequena superfície comercial no centro de Lisboa. Deve também ter visto que nesse espaço já tinha funcionado recentemente um quiosque Vodafone e uma sucursal de unhas para madames, ambas com fracos resultados ou melhor, nenhuns resultados.

José M. terá então amaldiçoado o facto de não ter trocado o seu baralho de Tarot enquanto estava na garantia, já que a visão que este lhe proporcionou estava bastante turva. Decide então arriscar e tornar-se ele próprio o “dono” desse espaço, para exercer o seu mester.
È nessa altura que José M. amaldiçoa também o facto de ter usado um abrasivo na limpeza da sua bola de cristal, que não lhe permitiu ver que o espaço não reunia a privacidade necessária para dizer à Dona Laurinda que o filho não é sensivel, mas sim homossexual. Vai daí, José M. monta uma tenda de campanha dentro do centro, com a discrição que só as cornucópias de diversas cores e feitios conferem. Não contente, resolve queimar incenso na sua tenda/gabinete de atendimento, o que faz com que cada vez que a abre saia de lá uma bruma deveras mística.
Nas primeiras semanas, o entusiasmo de José M. era bem visível, através dos inúmeros cartazes que afixou em todo o centro. Apesar de amaldiçoar os búzios retidos na alfândega tal não lhe retirou vivacidade, já que insistia em falar sozinho como se estivesse a dar uma consulta dentro da sua tenda, uma estratégica comercial inovadora que merece louvor mas que, quando analisada num ponto de contra-luz, se pode revelar pouco produtiva.

E assim, ao fim de um mês, o vidente José M., ter-se-à porventura dedicado a outra actividade quase tão nobre como essa – dar milho aos pombos, uma vez que desmontou a tenda e se fez à estrada, na primeira atitude clarividente que o vi ter. Certamente que, se lhe tivessem perguntado, a previsão da crise do Sub-prime teria sido fácil. Tentar fazer a vida com o futuro das pessoas sem ter condições para isso, isso sim é difícil, especialmente dentro de uma tenda e enebriado pelo fumo do incenso.

22.10.08

Mete Gelo, Lisboa



Já plenamente recuperado dos km’s à beira praia tenho, no entanto, algo que me arrasta o palavreado ainda para o fim de semaninha - A forte chuvada instantânea de sábado à tarde em Lisboa, isto se a descrevermos como as pessoas normais a viram, ou a “devastadora tromba de água”, o “apocalipse revisitado”, o “sinal dos tempos” ou “o horror, o horror”, se forem pela conversa de certos meios de comunicação e de gente que toma comprimidos para o pânico quando se corta numa folha de papel.

Meus amigos, gandulos de tshirt e calções e meninas descascadas na rua já no fim de Outubro, isso é que não é normal (sem querer com isto repreender as meninas). Tudo bem, caiu pedra e gelo durante 15 minutos, mas as consequêcias só provam que nós até a meter água metemos água, passe a redundância.

Depois de muito tempo sem chuva de jeito, é natural que qualquer pluviosidade digna do seu nome ia causar dano, até porque as sarjetas são como as casas de certas pessoas, só levam uma limpeza decente quando recebem visitas importantes. Se a isso juntarmos a intensidade da coisa (sim, por momentos pensei que o vizinho de cima tinha despejado um barril de missangas na minha janela) o caldinho estava feito.

Ai, os túneis ficaram intransitáveis. Ai, ai, as vias coitadinhas ali todas alagadinhas. Ui, ui que o pobre comerciante arrependeu-se de ter aberto um cabeleireiro em vez de um aquário para vender peixinhos. Confesso que, embora não me dê gozo a desgraça alheia (tirando em casos pontuais), esta chuva não me causou pena nenhuma, primeiro porque pecou apenas por tardia, segundo porque é sempre a mesma história e já não consigo ter pena de algo que, embora previsível, toda a gente fica simplesmente à espera que aconteça, para depois se queixar.

A seguir a qualquer Verão, especialmente os Verões de 5 meses que começam a ser hábito, as primeiras chuvas são sempre a mesma coisa. Ninguém faz notícias dizendo “Choveu intensamente e tudo correu bem”, “Os comerciantes revelam o seu agrado pela óptima isolação que o seu estabelecimento possui” ou “Automobilistas festejam com buzinadelas túneis sequinhos e vias com alto poder de absorção após a chuvada de hoje”. Isso é fantasia, o resto é o país real e acreditem que não se prevê que as coisas mudem nos próximos 500 anos.
Se não gostam, mudem-se para África ou, melhor ainda, metam gelo, mas daquele que cai em catadupa do céu, para ver se vos passam as manias da desgraça.

Travis, Why does it always rains on me? (sim, é uma música "sensível")

20.10.08

10 km de Parvoíce



Depois de ontem ter corrido os 10km na Marginal num inovador esquema de preparação que incluiu não treinar, posso dizer que, apesar de não ter dormido mal, hoje estou cheio de Oeiras.

17.10.08

O galheteiro sai do armário



Depois de algum tempo em reclusão, milhares de restaurantes celebraram hoje, com pequenos almoços de carapaus assados com batatas cozidas, o regresso às lides por parte dos galheteiros após anúncio nesse sentido por parte do Ministério da Agricultura.
Tolerante que sempre fui em relação à promiscuidade do galheteiro, tive oportunidade de entrevistar um deles que se dirigia com ar pouco avinagrado para o seu novo local de trabalho, numa série de entrevistas que estou a fazer com objectos inanimados mas, ainda assim, faladores:

Mak - Então meu granda galheteiro, que tal é sair do armário?
Galheteiro - É bom saber que, ao contrário de nós, este assunto nunca saiu de cima da mesa. É uma vitória clara dos direitos dos galheteiros por esse país fora.

Mak - Pois é. Mas e a pouca higiene faz parte do passado ou a badalhoquice dessa relação entre azeite, vinagre e recargas a martelo continua?
Galheteiro (já um pouco com os azeites) - Ouve lá, mas isso é um mito, construído por essas garrafinhas metrossexuais que tudo fizeram para nos tirar o lugar. É certo que temos vários parceiros e marcas de recarga, mas temos também a nossa tradição e agora a ASAE para garantir que tudo o que se passa é legal. E mais, podia contar-te aqui muita história porca que sei entre essas garrafinhas, ditas "invioláveis", e os donos dos restaurantes, passadas nas traseiras dos mesmos.

Mak - Jovem galheteiro, se eu quisesse novelas oleosas via mais a TVI ou a SIC. E diz-me lá, apesar das dificuldades que passaste, só a servir em casas, surges agora mais moderno e rejuvenescido?
Galheteiro - Sem dúvida, enquanto estivemos a trabalhar em casa e a receber o subsídio de desemprego, coisa que muitos dos nossos empregadores nos disseram ser prática comum, acompanhámos a moda. Lá vamos ao Ikea comprar uns trapinhos a preço acessível ou até, de quando em vez, fazer uma loucura e ir a uma dessas lojas de Design com nome de um gajo italiano de quem nunca ninguém ouviu falar. Estamos modernos sim senhor e vamos dar um novo look a qualquer tasco em Portugal.

Mak – Isso parece-me uma galheteirice das grandes…
Galheteiro – Com essa conversa, vê-se mesmo que deves daquelas garrafinhas modernas de azeite e outra tipo vinagre balsâmico lá em casa. E o galheteiro sou eu…

Mak – Ok, acabou-se o teu tempo de antena, volta lá a servir de encosto para ementa, que é para isso que tu serves.
Galheteiro – Sim, sim, quando quiseres molhar o pãozinho depois vens falar comigo…

Kool&The Gang - Fresh

15.10.08

Ó Brad, andas muito Jolie andas...



Há coisas que me parecem retiradas de um sketch dos Python apesar de me jurarem que fazem parte da vida real. Ao que parece, o casal perfeito Angelina Jolie-Brad Pitt anda a ter aconselhamento conjugal com um especialista na matéria, que deve cobrar mais do que o orçamento de Estado para 2009. Até aí, tudo bem, é natural que lá em casa haja discussões sobre temas tão importantes como quem dá origem a mais fantasias sexuais pelo mundo inteiro ou sobre se a próxima criança adoptada vira do Nepal ou da Suazilândia.

Mas, segundo o que li, a senhora Jolie ironicamente acusa o marido de ser excessivamente feliz e ter, por vezes, uma alegria enervante. Numa época em que o casamento é cada vez mais um hobbie isto parece-me, de facto, um motivo preocupante. Deus livre qualquer casal da felicidade excessiva, que isso é coisa que só fica bem em histórias da Disney. Marido que não anda macambúzio ou anda a esconder alguma coisa à mulher ou descobriu que é gay, já dizia um famoso filósofo que morreu no anonimato.

Afinal de contas, ele já tem 45 anos (sim, é verdade), possivelmente já era hora de começar a ficar amargurado. Além disso, a quem é embaixadora da ONU, da UNICEF, da Cruz Vermelha, do Cangurik e do Clube do meu Pequeno Pónei não convém ter um marido excessivamente feliz, dá ideia de que não se preocupa com a desgraça do mundo e isso não ajuda nada à tarefa.

Por isso tio Brad continue a divertir-se a fazer filmes e na galhofa com o Clooney, mas vamos lá a acalmar ao chegar a casa. É que, embora possivelmente partilhemos a opinião de que a Angelina como actriz não é grande coisa, já percebeu que a gaja dá-lhe bem a fazer filmes lá em casa...

14.10.08

O Síndrome do prisioneiro


Antes de mais, gostaria de dizer que não tenho qualquer formação em psicologia, tirando algumas interessantes cadeiras que tive a oportunidade de visitar durante a faculdade. Aliás, posso até acrescentar que tenho a impressão de que uma boa percentagem das pessoas que tiram cursos de psicologia fazem-no um pouco no âmbito do espírito “Arranje você mesmo”, próprio de quem tem alguns problemas por resolver.

Posta esta introdução, vamos ao que interessa – Há em mim um talento capaz que me equipara ao melhores psicólogos. A um interesse pela natureza humana nas suas facetas mais absurdas, junto uma imaginação mais fértil do que os terrenos da Mesopotâmia dos tempos antigos o que, em conjunto, me permite conjecturar teorias sobre quase tudo.

Daí, foi fácil chegar ao Síndrome do Prisioneiro que, mais do que uma teoria, é um aviso. Ora vejamos, um preso que esteja muito tempo numa cela com um companheiro sujeita-se a isto – Ao início, o companheiro pode parecer-lhe um perfeito anormal que lhe causa repulsa. Ao fim de uns tempos, o prisioneiro começa a dar um desconto ao companheiro “Ele afinal não é tão mau, teve foi uma infância difícil. E aquela tatuagem com um esquelto a violar a Madre Teresa tem a sua piada”.
Conforme o tempo vai passando, o antagonismo vai-se esbatendo, já que a falta de escolha e de tempocondiciona a vida social. Não será difícil que, salvo danos maiores, os defeitos do companheiro, inicialmente um facínora, sejam agora perfeitamente justificáveis e ele tenha agora outro “papel” no nosso coração. Qual? Depende da pena e do desespero...

Transporte-se este cenário para a vida de muita gente à nossa volta. Salvo aqueles que conseguem manter a sua vida social em patamares de alta competição, estamos a maior parte do dia confinados aos mesmo espaços. Com base nisso, temos já terreno para chegar ao Síndrome do prisioneiro. Em escritórios, adegas cooperativas, instituições estatais e não só surgem todos os dias exemplos de uma epidemia deste Síndrome. Nos casos mais graves, gente que se odiava vive agora relações tórridas, nas maleitas mais suaves, é só fruto da falta de tempo.

O que é que eu tenho a ver com isso? Em teoria, enquanto parvo opinativo, tudo. Na prática, mal me comece a sentir afectado e comece a ver qualidades onde antes só via defeitos, a solução é simples – emigro.

13.10.08

A tontura do sono



É preciso ter confiança para, logo a abrir, afirmar que este é um dos posts mais originais de sempre. Aliás, nem precisaria de escrever mais do que isto, para que tal fosse verdade. Especialmente se tivermos em conta que não abundam posts meus publicados às 4 da manhã da madrugada de Domingo para segunda, horário de Portugal Continental e arredores.

Mas ouve lá, clamam vocês que vêem em loop a gravação do Programa da Lucy, tu és anormal ou fazes-te? Um pouco de ambos, posso tranquilizar-vos. Na verdade, de bom grado teria o meu pijama do Noddy vestido e cavalgaria no Vale dos Sonhos num pónei branco, acompanhado por encaloradas miúdas de Leste e pelo Jaime Gama. No entanto, o meu trabalho de ter ideias para salvar o mundo não tem horas, mesmo que a salvação tenha neste caso a forma de um aumento de vendas num determinado produto.

Bela trampa ó choninhas, interrompem de novo vocês, ignorando o facto de que eu só posso considerar as vossas observações depois de publicar o post, tornando infrutífero o vosso esforço. Mas sim, é de facto uma trampa, embora experiências como estas sirvam para provar o quão sobrevalorizado é o sono. Pois se eu consigo estar aqui, já muito perto das cinco da manhã, sem recurso a substâncias ilícitas a debitar palavras com mais de 4 sílabas e graçolas de palmo e meio, então é fácil perceber como é que houve malta a resistir durante muito tempo à tortura do sono.

É certo que no tempo da Inquisição e afins ainda não havia a programação televisiva da madrugada, mas há que não fazer desmerecer o valor.

E agora, vou ali acordar um colega, que adormeceu com a cara no teclado e aquele bip irritante incomoda-me.

Depeche Mode, Waiting for the night
(Atente-se ao luxo que é o novo interface musical)

10.10.08

Atentados logo pela fresquinha

Para além do meu penteado quando acordo, duas coisas me têm intrigado logo pela manhã. Como sei que por aqui não faltam pessoas com pouco que fazer, talvez surja uma explicação minimamente interessante:

Porque raio se acumulam pessoas à porta de estabelecimentos tipo Pingo Doce a mais de vinte minutos do horário de abertura? Será a ânsia de alcançar o primeiro papo-seco? O deslumbramento de sacar a primeira meia dúzia de nectarinas da manhã? Ou há uma máquina de roupa a ressacar por uma dose de amaciador?
Jovens peregrinos madrugadores, aquilo não abre antes das nove, nem que vocês peçam mesmo muito. Por isso, que tal ficar em casa e ver o ritual de acasalamento dos camarões na TV Cabo, só para fazer tempo.

Como é que há malta que ainda consegue combinar as palavras rissol, café e Sumol com pequeno almoço saudável e ainda olhar com desdém para quem olha para elas com ar estupefacto?

9.10.08

Diz-me o que diz aquilo que comes

Nos dias que correm, toda a gente está cada vez mais atenta ao que come. São as preocupações com a saúde, com as condições dos alimentos, os ingredientes utilizados e até com o passado amoroso do que se tem à frente.

Como tal, há uma crescente preocupação em esclarecer o consumidor em relação a essas matérias, para que não haja qualquer razão de suspeita. Isto em teoria, já que na prática algumas empresas preferem aludir ao receituário lírico. Senão vejamos esta imagem:



Comecemos pelo nome do distribuidor – Real Snack. Estamos sem dúvida na presença de algo que só podia vir das mãos dos melhores Chefs. O facto de ser comercializado em reles embalagens de plástico e vendida em máquinas de ocasião mostra apenas o esforço de levar a realeza às bocas dos menos afortunados. O facto da empresa ser sediada na Amadora apenas reforça a sua distinção e cariz premium.

Segue-se uma assinatura a roçar o estrondoso – Produto da imaginação. Esquecendo os 75 cêntimos bem reais que tens que desembolsar para que esta iguaria chegue às tuas mãos, o resto é mesmo imaginação. Fechas os olhos e podes imaginar o sabor delicioso que te inunda as papilas gustativas. Com apenas mais um esforço podes até pensar no bem que te faz este pitéu. Talvez assim te abstraias da bosta que acabaste de engolir.

O nome – “Merendinha” acaba por ser um piscar de olhos ao espírito infantil que uma guloseima destas representa. Isso ou o facto de qualquer coisa acabada em “inha” parecer sempre menos má. Do género "A Peste Negrinha" parece bem menos ameaçadora...

A finalizar, o toque de mestre. Ora então, este manjar leva farinha, água, sal, margarina e.... MELHORANTE DE BRIOCHE. Não é um corante, um conservante, um emulsionante ou até volfrâmio em conserva – é Melhorante e, ainda por cima, de brioche. Difícil seria não acertar neste conhecido ingrediente que tem vindo a melhorar a qualidade dos brioches desde o tempo de Maria Antonieta.

Caros senhores da Real Snack, se querem gozar com a malta não é preciso tanto esforço. Os vossos produtos da trampa chegam perfeitamente.

8.10.08

Justifica-te bem essa atitude



As pessoas, e neste grupo incluo até viram a Gala da Ficção Nacional da TVI, tendem a justificar-se. Isto é um facto da vida e, se eu o digo, ganha um estatuto de facto da vida inegável. Tal facto é até válido para aqueles que dizem “Eu não devo justificações a ninguém” argumento que, por si só é uma justificação.
Seja no corte de cabelo, no facto de não gostarmos de alguém ou em decisões importantes, como a razão de ser adepto do Belenenses há sempre um “porque” que nos leva a sustentar um dado argumento.

Até os que dizem sempre “Porque sim” ou “Porque não” se justificam, embora deixem por explicar porque são essenciallmente gente básica sem argumentos. Com que direito digo eu semelhante alarvidade, clamam alguns? Porque sim seus madraços.

Tudo isto nasce da necessidade de aprovação que os seres humanos, definição usada uma vez mais no sentido lato, gostam de ter da parte das pessoas que os rodeiam, mesmo que sejam apenas os que os rodeiam na paragem do autocarro. Mas, o engraçado deste assunto todo não é censurar quem se justifica, mas sim estimular a justificação idiota. Vocês não imaginam a diversão que é responder a um simples “Bom dia” com “Porque é dizes isso?” ou a um “Como é que foi o fim de semana?” com “Achas necessária essa pergunta de cortesia ou queres mesmo saber?”. Isto é apenas um pequeno exemplo e, como é óbvio, é necessário manter uma cara séria, sem ser desagradável, para que o interlocutor hesite e comece a fazer o chamado “Break dance justificativo”.

É divertido? É. Faz de ti um parvo sem igual? Também. No entanto, garante que as pessoas que depois disso continuem a falar contigo regularmente sejam mesmo teus amigos ou gostem muito de ti. O que às vezes se traduz em começares a falar mais tempo contigo mesmo.

George Harrison, My mind set on you

6.10.08

Mamma Mia, Zé Carlos!

Resolvi dedicar este fim de semana aos desportos radicais, como por exemplo ver a programação nacional de TV ou ir ao cinema. Como grande aventureiro que sou, fiz até uma aposta cuja contrapartida passava por cortar um testículo ou ir ver o “Mamma Mia”. Tendo perdido essa mesma aposta resolvi deixar de ser uma criancinha e sujeitar-me ao castigo mais doloroso – ir ver esse pastiche dos ABBA.

As conclusões são fáceis, é um nítido filme de gaja que todos os gajos que vão ver ou querem provar que são sensíveis à sua companhia feminina ou são efectivamente gays. Não sendo isso, então a única explicação é que são como eu, assim para o parvo.
Mais preocupante do que isso é vermos que, sem grande esforço, sabemos de cor 6 ou 7 músicas dos ABBA, o que não abona a favor de ninguém, especialmente se acompanham com palmas.
A história não vale nada, mas também ninguém vai ver aquilo pela história, mas sim pela hipótese de ridicularizar repetidas vezes o canastrão do Pierce Brosnan. Há no entanto que elogiar a produção, altamente inteligente, não faltando até um elemento gay no elenco para agradar a uma franja representativa da audiência e pedir-lhes desculpa, uma vez mais, por terem de ouvir o ex-007 a cantar e contemplar as nádegas do Stellan Skarsgard. Também apreciei o esforço de tentarem realçar ao máximo a voz da jovem apaixonada com traumas familiares, escondendo-lhe, sempre que possível, os atributos físicos, quando tem ali um corpinho a condizer com a voz. E, que não me venham com puritanismos, porque na mesma cena em que o seu jovem noivo está ali a mostrar que não tem faltado às aulas de abdominais, tem ela um fato de banho do tempo da D.Amélia...

Creio que o final com toda a gente em lantejoulas acaba por funcionar como anestesiante em relação a quem pudesse esboçar um certo protesto, mas não apaga da memória a tradução pertinente da questão que é feita a Meryl Streep por uma amiga "Are you getting any?" para "Tens visto o padeiro?". Ninguém mais do que eu adora uma boa metáfora, mas tenho sérias dúvidas que, em registo moderno alguém possa andar a sacar do padeiro algo mais do que papo-secos e o ocasional brioche.

Para concluir o fim de semana, optei por vergastar-me com um raminho de oliveira, já que na TV passava um concurso de dança (creio que o milésimo da RTP) com a Catarina Furtado 2, vulgo Sílvia Alberto e, na TVI, o Moniz arranjava uma gala para tentar convencer alguns espantalhos de que são efectivamente actores. O acepipe estava guardado para a noite, com o regresso do Gato mas, talvez devido às lesões causadas pela exposição em excesso à televisão não consegui perceber grande diferença do programa da RTP, tanto que até verifiquei no comando. Tinham mesmo mudado para a SIC, eu é que sou de compreensão lenta...

3.10.08

Entrada livre para senhoras, cavalheiros e indecisos



Apesar de não vos cobrar nada à entrada, fiquem sabendo que a clientela deste blog é sujeita a um rigoroso exame. Ainda ontem, em conversa com um amigo imaginário, depois de debatermos se seria mais interessante correr todo nu pelo Jardim do Campo Grande ou electrificar os teclados da malta no trabalho, abordámos a seguinte questão:

Porque será que, tendencialmente, boa parte (para não dizer a maioria) dos visitantes deste blog é mulher ou é oriunda de blogs assim mais para o feminino?

O meu amigo imaginário, claramente machista e portador de um bigode, veio logo com teorias que punham em causa a minha masculinidade, aconselhando-me a aumentar o número de receitas de cozinha e a falar abertamente sobre os meus sentimentos, para gerar mais clientela entre a mulherada.
Enquanto fazia arranjos florais, neguei tudo isso e tentei explicar-lhe a minha teoria sobre o assunto. Felizmente, ele tinha uma festa de aniversário de outro amigo imaginário comum, e fiquei de explicar isso noutra altura, o que me dá mais tempo para lhe mentir com propriedade, já que não tenho teoria nenhuma.

Aí começa a vossa parte, já que da parvoíce em posts trato eu. Sejam anónimos (alcoólicos ou não), sejam o que quiserem. O que eu gostava de saber é – O que vos leva a perder 20 segundos do vosso tempo inútil para vir até cá? Especialmente vocês, caras senhoras, que segundo o meu amigo imaginário deveriam estar a remendar meias e a confeccionar refeições ou, se estão na net, a procurar sites com dicas para melhorar os vossos talentos nesta área.


PS – Garanto resposta personalizada, tanto em comments como em mails, mas não resolvo os vossos problemas em 48horas

War, Why cant we be friends

2.10.08

10 Minutos de 27

Depois de algum tempo em que o meu périplo pelo bus 27 se viu algo reduzido, eis que hoje regressei ao alegre convívio nos transportes públicos. E, como sempre, bastam 10 minutos para aprender coisas que duram uma eternidade.

- Apesar do advento dos gratuitos, a chamada leitura por detrás da orelha ou do ombro continua a ser um must. Sejam livros, jornais ou talões de compras, o voyeurismo tem sempre lugar (obrigadinho Teresa Guilherme).

- Se os telemóveis causam cancro/tumores ainda não está confirmado. Que causam irritação em quem tem que gramar toda uma panóplia de toques merdofonicamente reais e idosos que usam o telemóvel como megafone, disso já não há dúvida.

- O ipod/mp3 já faz parte do ritual matinal da maioria dos utentes de transportes públicos. Incluindo os que não usam, visto que entre gente que conseguia ficar surdo em menos de cinco anos e aqueles que fazem do karaoke e do lipsynching um hobbie é impossível não entrar no ritmo.

- Em tempo outonal mas de calor, o número de gajos que usa óculos de sol por causa do mesmo é inferior ao número de gajos que usa óculos de sol por causa de decotes.

- Os idosos vêem melhor dentro dos autocarros. Isso prova-se pelo facto de descobrir um lugar do outro lado do bus, mesmo que ele esteja cheio e também pelo facto de conseguirem descortinar um símbolo para a 3a idade nos lugares reservados, enquanto tipos como eu só conseguem descortinar grávidas, deficientes e acompanhantes de crianças de colo.

- É raro ver alguém sorrir de manhã. Dado a elevada percentagem de má higiene oral, é um favor que me fazem.


Haveria muito mais para dizer mas, infelizmente, só pus moeda para 10 minutos.

Steely Dan, Peg