30.9.08

Música e actividades amorosas em viaturas

Em dados serões profissionais, não raras vezes me vejo a procurar música de cariz duvidoso para me ajudar na árdua labuta. Ontem, dei por mim viajando por entre os acordes românticos de Amadeu Mota, artista luso que já me tinha supreendido pelo seu hino quase pedófilo “Ela tem apenas 15 anos de idade”.
Desta feita, foi o seu “Amor no Carro” que me levou a reflectir um pouco sobre o sofrimento que ele nos transmite e que, sem dúvida alguma, nos deixa presos numa malha de agonia musical e sentimental.

Mas, oiça-se o tema e comente-se depois.



Então, vejamos o início: um órgão com um ligeiro mood litúrgico mostra-nos que estamos perante um tema respeitoso, mas a guitarrada seguinte diz-nos que lá por haver respeito não deixa de também constar rebeldia neste tema. O tom psicadélico do Casio de feirante que entra em cena serve apenas para provar que estamos perante alguém que toma medicação.

Amadeu começa por nos referir que passou a semana sozinho obcecado por alguém, que esta noite anseia por encontrar. Nota vinte pela motivação e pela garra que certamente terá no encontro, mas também a clara indicação que podemos estar a lidar com um stalker ou, pior ainda, um desempregado com muito pouco que fazer.

Movido pela saudade, Amadeu mostra alguma incongruência gramatical ao referir “Preciso te ver, não me digas que não”. Isto, para além de alguma falta de atenção na tradução do cancioneiro mostra que, quando contrariado, Amadeu pode tornar-se ameaçador, passando de algum distanciamento às exigências no tratamento por tu.

“Paro o meu carro em frente ao teu portão. Ajeito meu cabelo no retro-visor”. Amadeu não se sente à vontade para entrar na casa da sua amada. Pontos negativos para ele. Isto significa que ou tem panca com automóveis ou os pais dela não aprovam o seu penteado, coisa que tenta disfarçar com uma penteadela de última hora, enquanto que reflecte sobre a necessidade de quebrar a palavra retrovisor para não estragar a rima.

A rima seguinte é um claro indício de que Amadeu não tem telemóvel, já que ainda recorre à buzina para chamar a sua miúda. Pontos contra na modernidade, que podem ser rebatidos se tiver uma buzina com um toque rítmico peculiar. A insistência em ver a sua moçoila para lhe entregar o seu coração poderá indicar que estamos perante um dador de órgãos. O outro órgão, o psicadélico, continua a indicar que a medicação está em falta.
Começa o ritual amoroso. Vencendo o enjôo do perfume excessivo da sua amada, Amadeu tem tempo para fazer considerações sobre a Lua antes de mostrar mais uma faceta perturbante ao referir o efeito da Lua “iluminando nós TRÊS”. O nosso artista tem de facto um grande apreço pela sua viatura ou então, esqueceu-se de deixar um amigo em casa antes de ir ter com a miúda. A opção regabofe a três parece não encaixar com o carácter respeitoso da música.

Já não é segredo quando Amadeu nos revela o que se passa no seu veículo “Amor no carro” grita ele a plenos pulmões, acrescentando “Carinho que não é pecado”. Aí, a doutrina divide-se, já que o facto deste jovem estar envolvido em grande Tetris humano dentro do seu carro, mesmo em frente aos portões de casa da moça não parece ser daqueles actos com a chancela de aprovação do Vaticano.Isto para não mencionar que Amadeu nunca nos fala em casamento, nem há indícios que não tenha andado a dar duas buzinadelas pela rua inteira.

No entanto, o verso seguinte tira algum brilhantismo à fogosidade que acreditamos estar a testar as suspensões da viatura. No meio do pagode, Amadeu indica que alguém se diverte a escrever o nome da moça no vidro embaciado. Se for ela, é mau sinal para o jovem garboso, já que pode denotar alguma falta de engenho nas artes do amor da parte deste. Já se for Amadeu o escritor de janelas, isto pode aludir a um estratagema para se certificar que não se engana no nome da moça...

O solo de guitarra a seguir leva-nos para ambientes idílicos, talvez para nos distrair da javardice que se deve seguir ao referido “Amor no carro”. Mas, para quem tenha dúvidas sobre o que se tenha passado, Amadeu faz um reprise na segunda parte da música, começando logo na parte do portão, focando-se assim no essencial.

A verdade é que, depois de ouvir Amadeu Mota, invade-nos uma sensação de tranquilidade. É bom saber que há por aí gente com estofo para amar em qualquer lugar. Mesmo que seja estofo manchado por música duvidosa e não só...

29.9.08

Forever a Newman



Há gente que só é boa depois de morta, outros garantem esse estatuto ainda em vida, não por se esforçarem por isso, mas sim por efectivamente o serem. Paul Newman faleceu aos 83 anos, mas o seu lugar na história há muito que já tinha sido estabelecido. Combinando distinção no ecrã, com um pensamento próprio e uma actividade extensa como filantropo, Newman nunca se esforçou por ser um queridinho em Hollywood, preocupando-se muito mais com aquilo que realmente importa - a vida real.

Como é óbvio, houve altos e baixos no seu percurso, quer como actor quer como homem mas, olhando para trás, para além de performances notáveis desde os tempos de The Hustler / O jogador (1961) e outros, um casamento de 50 anos que termina apenas com a sua morte ou uma empresa na área alimentar que desde há anos distribui os seus lucros pelos mais necessitados, falamos de alguém que soube marcar uma posição na vida, incluindo na sua fase derradeira.

E, quando vejo a sua família optar por um funeral privado, longe do mediatismo e transmitir a mensagem de "Se querem demonstrar o vosso afecto por Paul Newman, façam hoje algo por alguém que realmente necessita", creio que ele deixou tudo realmente bem encaminhado.

É que, afinal de contas, nem tudo se guia apenas pela cor do dinheiro.

26.9.08

Cover, my ass


Assiste-se actualmente a uma febre no mundo da música, dita mais trendy. Primeiro surgiu um e foi engraçado. Mais dois ou três e olha, por acaso até tem piada. De repente, já eram 50 mil e não páram de crescer. Refiro-me, é claro, aos covers. O que antigamente era território de bandas jovens e, acrescente-se, claramente pouco confiantes no seu futuro no ramo musical ou, ocasionalmente, de tributo entre grandes artistas, tornou-se um regabofe pós-moderno.

Por norma apanágio de gente com bons dotes técnicos, mas com fraca criatividade de composição, o cover é neste momento o sushi da música ou seja, mesmo que não gostes, tens vergonha de o admitir em certos círculos, porque não é fashion. E isto chega-vos pelas mãos de alguém que até aprecia um bom cover.

Como é óbvio não se trata aqui de marionetes tipo Milli Vanilli ou paródias de Weird Al Yankovic. São moças modernas que tentam reinventar 50 êxitos desde Def Leppard a Screamin Jay Hawkins em versão bossa nova ou com um beat muito lounge. São cromos bem parecidos com pinta de crooner ou artistas old school que se aperceberam do filão que há a explorar nos covers.

A verdade é esta, um bom cover reinventado é interessante, é novo e dá uma frescura musical a temas que já conhecemos há muito. Uma avalanche non stop não é, pelo simples facto de ser uma procura constante da mesma solução pelo mesmo tipo de artistas que, sendo um pequeno nicho têm algum valor, sendo uma grande classe não entretêm porra nenhuma, servindo apenas para reinventar a expressão “Aonde é que eu já ouvi esta trampa?”.

Venham de lá os defensores das Nouvelle Vague, do Paul Anka ou do Richard Cheese, apesar de a minha irritação não ser com nenhuma banda em particular. É um pouco como o Paulo Coelho escrever 20 livros iguais ou todos os bancos portugueses andarem a arranjar musiquinhas do cancioneiro nacional para vender mais corda para a malta se enforcar...

Bom fim de semana, que eu agora vou ali espancar alguém para dar o convite que me deve para a festa da Eristoff hoje.

Carlos Paião, Playback

25.9.08

Investimento sexy




Não consigo deixar de ler estas declarações do Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e pensar em varinas desinibidas com arrojados vestidos transparentes...


Também só se for assim é que os nossos mercados animam...





Depois desta imagem, vou ali enfiar o meu cotovelo nas amígdalas e já volto

24.9.08

Eu sou adepto do Buffett

Esta frase, que poderia ser proferida por qualquer parasita social que faça parte do chamado jetset nacional, tem aqui outro contexto. Não se trata portanto de croquetes, empadas, shots de sopa (para quando um bar da especialidade em Santos?) ou qualquer outro nenúfar de alface mascarado de alimento distribuído em ambiente de festa.
Refiro-me a um senhor chamado Warren Buffett que, entre muitas outras coisas, se diverte a ser bilionário. Ora, até aqui nada de novo, artistas com olho para o negócio que se divertem a atafulhar dinheiro lá para os Estados Unidos é coisa tradicional desde o Rockefeller ao JP Getty. Nem vou questionar o tipo de negócios a que o senhor se dedica ou se afogou cem mil criancinhas vietnamitas num ritual para atrair fortuna.

O que em mim me fascina, há já algum tempo, no Sôr Buffett é que um dia olhou para a sua fortuna, avaliada em cerca de 60 biliões e, antes que dissessem que estava gagá ou que casasse com alguma mamalhuda de poucos escrúpulos, disse “Epá, esta merda é dinheiro a mais” e resolveu fazer alguma coisa acerca disso.

De facto, no que a riqueza diz respeito (e talvez em muitos outros campos da natureza humana) é difícil encontrar quem saiba reconhecer os seus limites. O tio Buffett, talvez um iluminado ou apenas um anormal com um laivo de inspiração resolveu doar 83% da sua fortuna a uma fundação para que a coisa fosse canalizada para melhores caminhos.

Tudo bem, a fundação era do Bill Gates, rapaz que também já deve ter as suas contas pagas para as próximas 38774 encarnações, mas isso é secundário. É saber reconhecer que é humanamente impossível gastar esse dinheiro todo e não deixar a questão para depois de morto. É garantir que a família fica com alguma coisa (17% de 60 biliões ainda são uns trocos) suficiente para nunca mais se preocupar, mas prevenindo o desbaratamento de algo conseguido por trabalho e mérito e não por simples herança.

Por mim, acho isso deveras inteligente. Anormais filhos de ricos é coisa que não falta neste planeta. Gajos como o Buffett escasseiam muito mais. E garanto-vos, anseio pela oportunidade de fazer o mesmo e, de momento, embora não o possa fazer com dinheiro, vou doando o meu património de alarvidades a quem o queira ler. E não vos vejo a agradecer, meus bandalhos.

23.9.08

Dia Europeu sem tangas

Ontem, dia 22 de Setembro, celebrou-se o Dia Europeu sem Carros. Lisboa rejubilou com o encerramento parcial de algumas ruas na Baixa, duas vielas na Serafina e um beco em Marvila, naquele que foi o encerramento da Semana Europeia da Mobilidade.

Então e se se mobilizassem todos para o fundo do rio abraçados a blocos de cimento? É que, se algumas das acções do programa me parecem interessantes, quem tivesse lido o dito cujo parecia que na capital e arredores se anda a partir carros à marretada em prol de um ambiente melhor. E não é isso que se passa, antes pelo contrário. Aliás, se perguntarmos à malta que anda à solta por Lisboa se deu pelos efeitos do estrondoso Dia Europeu sem Carros, 85% vai responder: “O que quer dizer - sem carros?”

Dia sem Carros a sério houve uma vez, no primeiro ano desta iniciativa, creio que em 2000. Aí, a cidade de Lisboa viu o que era ter a circulação reduzida em cerca 70% nas suas vias centrais e os resultados foram contraditórios. Boa parte da população clamou que depois do terramoto de 1825 (História, essa disciplina sempre tão maltratada) nunca se tinha visto tanto prejuízo, destruição e histerismo. Gajos como eu, andaram satisfeitos pela rua, insultando apenas o taxista ocasional e suspirando pelo dia em que uma catástrofe simpática torne algumas ruas intrasitáveis.

Depois disso, tudo voltou a ser...o mesmo. Reduziu-se a iniciativa cada vez mais a um papel decorativo, sendo que hoje em dia é apenas uma boa bandeira para inglês ver. Eu percebo, é difícil a malta custa-lhe a subir colinas de bicicleta e a rede de transportes ainda parece, muitas vezes, saída de um livro de anedotas do António Sala. Mas, se é assim, não encerrem rua nenhuma, não atirem poeira para os olhos da malta e não me façam programas que vendem Lisboa como uma cidade verde.
E, por falar em verde, vão mas é pastar mais os eventos de fachada e os histerismos colectivos.

20.9.08

Como acabar com as beatas



Na sequência de proverbial troca de bitaites com este artista, eis um pensamento: "Tantas vezes vão as beatas à igreja que um dia a __________ parte".

19.9.08

Spam, machismo e outras questões imbecis

Para quem só tenha desenvolvido polegar oponível há relativamente pouco tempo ou não tenha fácil acesso à internet na caverna onde reside, vou discorrer brevemente sobre o que é o Spam.
Por Spam entende-se todo lixo informático que não pedimos e nos chega às caixas de email o que, no meu critério, inclui chainletters manhosas e composições com fotos de bebés, gatinhos e outro tipo de bicharada. Mas, confesso que me intriga um pouco a maioria da temática dos mesmos.

Entre os senhores responsáveis pelo envio do Spam, há uma conclusão assumida sobre o que preocupa os homens em geral – Aumentar a conta bancária e o tamanho do pénis (não necessariamente por esta ordem), reduzir as dívidas e enfardar Viagra como se não houvesse amanhã. Aliás, fossem resolvidos esses três problemas e não só o Spam deixaria de ter razão para existir, como a felicidade da Humanidade aumentaria exponencialmente.

“Enlarge your penis”, “You won a National Lottery”, “Cheap Viagra” ou “Consolidate your debt” são de facto propostas diárias que um gajo tem na sua mesa virtual. Seria interessante pensar num Spam único que englobasse as propostas numa só, do género “You won a National Lottery, so you can consolidate your debt and use the rest of the money to enlarge your penis and get cheap Viagra”.

Mas, o que e eu gostava mesmo de saber é se o Spam é machista. Será que as mulheres têm, diariamente, de lidar com Spam que não se preocupa com as suas necessidades? Que só pensa em sexo e dinheiro? Ou o Spam mais inteligente sabe agradar a uma mulher, recomendando “Buy beautiful flowers”, “Pick nice restaurants and spas that treat you like a queen” “You won a trip to the NY Fashion Week”. Aposto que o Spam que mantém uma mulher feliz tem mais hipóteses de depois vender o Viagra e tratar das questões íntimas de grandeza...

Prodigy, Spam my bitch up

17.9.08

Esquerever, essa arte


Não sou elitista, acho até que toda a gente devia aprender a ler e a escrever, incluindo muitos que já sabem. Tenho inclusive muita pena das pessoas cujas condicionantes da vida, dois garfos espetados nos olhos ou gerações consecutivas de relacionamentos consanguíneos as impediram de atingir um grau de alfabetização mais elevado.

No entanto, não tenho pena nenhuma de quem, tendo a obrigação de saber escrever a um nível mínimo, o faz com a delicadeza com que o Petit trata das canelas a artista da bola nas margens do Reno e afins.
É fácil rir da ementa na porta da tasca que parece vítima de um ataque da Al-Qaeda do terrrorismo ortográfico ou dos miúdos que escrevem no Messenger e nas SMS como se fossem onomatopeias de quem fala com a boca cheia de esparguete. Mas o que se faz quando se vai a um pináculo da elite cultural lisboeta, o cinema King e avistamos um cartaz que diz algo como:

“Avisam-se os ESPETADORES que o ar condicionado nas salas poderá não estar a funcionar correctamente”.

Acompanhado de alguém com um sentido cívico que a minha falência moral não permite ter, chegámos à conclusão que talvez fosse melhor alertar a senhora nas bilheteiras, uma vez que tínhamos dúvidas se a mensagem se destinava a alguns heroinómanos ou auto-mutiladores que apreciem frescura e cinema independente ou se era apenas uma gralha (na melhor das hipóteses).

Resposta da senhora “Ah está? Pois, sabe que nós até estivemos a debater isso, mas como no corrector do computador não deu erro, pareceu-nos bem assim...”

Fechei os olhos, dei meia volta (sem perder o equilíbrio, o que acontece por vezes quando se fazem habilidades de olhos fechados) e fui à minha vida. Dá Deus correctores ortográficos a quem não tem mentes...

ABC, Jackson Five

PS – Para o analfabeito mais interessado e menos informatizado, um corrector no Word e afins só aponta erros de facto e não erros de fato. Se não perceberam esta, então batam à porta no blog ao lado.

15.9.08

A ovelha da família negra

Este filme, que tive a oportunidade de ver ontem, tem um retrato de família bem negro. Aliás, se andam com vontade de matar um parente (ou vários, em fascículos), das duas uma - ou recomendo que o vejam para ganhar coragem ou aconselho a que não o vejam e escolham antes o Wall-E para tentar povoar o vosso imaginário de ideias fofas.

A questão da família sempre foi para mim a prova de que existe uma inteligência superior que nos observa e se gosta de divertir às nossas custas. Porque, como toda a gente sabe, tirando a mulher/marido, a família não se escolhe. E, isso é brincar com a malta.

É certo que para muitos a família é um farol na vida, que apoia nos momentos em que tal é preciso, que dá conselhos válidos, que nunca falha, etc e tal. Para outros, continuando no campo de metáfora marítima, é uma âncora atada às pernas, que nos arrasta para o fundo do mar, com problemas e situações que não toleraríamos em qualquer outro caso se - "Não fizesse parte da família"...

A média deveria andar num número equilibrado entre parentes que nos fazem valorizar a família e parentes que nos fazem valorizar a existência de drogas letais. Mas, como disse, não podemos escolher e, se é certo que há famílias que têm muito orgulho em poder apontar a sua ovelha negra, há muita ovelha que suspira ao pensar na família negra que tem para aturar.

Já que a leis do livre arbítrio não são aceites de base nesta matéria sugiro que se crie, ao estilo dos animais para adoptar, uma espécie de Lares de Adopção para familiares, onde não só se pode deixar aquele Tio que claramente não presta ou a Prima à qual só faltam chifres para ser considerada zoologicamente uma cabra e, quem sabe, trazer um avózinha em 2a mão em relativo bom estado e que saiba fazer bolo de chocolate.

Dessa forma, talvez o que se passa neste filme não pareça poder ser tremendamente real...

Me, Myself and I

O facto de ter sobrevivido aos acontecimentos anunciados no post anterior fez-me aperceber que não podia adiar mais este texto, pois nunca se sabe o que o futuro ou 18 caipiroskas nos reservam. Assim sendo, dado os resultados da sondagem que avaliou o que pensam que eu ando a fazer durante o dia, cabe-me esclarecer o seguinte:

Em todas as opções havia algo de verdade, uma vez que acredito muito mais nas virtudes da mentira diluída face à versão pura. No entanto, devo dizer que a audiência deste pasquim não vive totalmente alienada já que uma das versões mais votadas é sem dúvida a mais verdadeira.

Houve quem se entretivesse a fazer flutuar o voto para garantir o equilíbrio, coisa que acho mal e que é digno de gente com baixos estatutos morais, como eu próprio. No entanto, posso dizer que este espaço não é para mim um escape para um trabalho cinzento diário. Utilizo-o sim para dar vazão à torrente de baboseiras que não consigo canalizar no meu trabalho.

Sei utilizar bem números, nem que seja para aldrabar nas contas ao almoço, mas sempre fui um gajo de letras. A verdade é que inventar é prato do dia e tentar perceber o que vai na cabeça das pessoas para depois as espremer até ao tutano também faz parte do acordo.

Para mais detalhes, aceito que me paguem almoços, mas eu escolho o local. Sei bem que a malta que frequenta este estaminé não é confiança. Começando por mim.


De la Soul - Me, Myself and I

12.9.08

Beat this, Zandinga


Não é preciso ter muitos dotes de vidente para prever o resultado da junção entre as palavras Festa+Empresa+Praia+Álcool+Sabe-se lá o quê...

Resta-me, tal como os cronistas de outras eras, entrar no barco e enfrentar as tormentas com os demais...

10.9.08

Só à chapada

Mudar de hábitos não é fácil. Se fosse, não se chamavam hábitos. Tendo em conta que é muito difícil convencer um idoso de que não é necessário forrar a casa de sacos de plástico para prevenir o fim do mundo, muitas cadeias aproveitaram o filão ecológico para encher a mula à conta da cobrança dos saquinhos de plástico.

Todavia, o fascínio do cariz multiusos do saco de plástico perdura. Afinal, se o saco dura centenas de anos, porque não tentar preservar o ambiente dentro de um?

Fazem falta umas quantas chapadas e sou gajo para ser voluntário a distribuir...

Claques do Além


É certo e sabido que, até agora, os clubes de futebol já eram, em grande parte, cemitérios: cemitérios financeiros, cemitérios de expectativas ou até cemitérios de credibilidade.

Mas, a partir de hoje, na Alemanha, mais precisamente em Hamburgo vai ser possível fazer algo que só os doentes do Boca Juniores na Argentina podiam fazer – não só morrer pelo clube, como também ser enterrado pelo clube.
É certo que em Inglaterra já é possível ser cremado e ter as cinzas espalhadas no relvado do seu clube de sempre, onde se viveram grandes momentos, se marcaram grandes golos e, ocasionalmente, os maiores craques deram uma cuspidela. Mas visto que isso é proibido na Alemanha, este é sem dúvida um passo em frente.

Ser enterrado com as cores do clube, ouvindo o hino do clube, a pouca distância do estádio não é loucura, é um bom negócio, já que com o dinheiro que isso implica, os clubes garantem que, até depois de mortos, os seus adeptos continuam a pagar quotas.

É caso para pensar - quando chegará a moda a Portugal? Os célebres 6 milhões de adeptos certamente teriam muito gosto em dar o corpo, ainda que morto, ao manifesto...



PS - Em relação à votação que decorreu, está a ser ultimado um balanço final.

8.9.08

A verdadeira treta da Verdadeira Treta

Enquanto as horas para o final da votação expiram, urge em mim a vontade de vos falar sobre algumas das iniciativas que ocuparam o meu fim de semana, excluindo obviamente a rasteira passada a um idoso incauto no Pingo Doce.

Para começar, já que o ambiente estava um bocado morto, porque não ir ver um filme a condizer – Diary of the Dead, do ícone George A. Romero. É de louvar a capacidade de adaptar à actualidade (ao longo de 30 anos) a temática dos filme de zombies, que normalmente não vai muito além de gente invulgarmente lenta e invulgarmente morta a perseguir gente invulgarmente estúpida.

Mas, se é um facto que saí do S.Jorge com a clara vontade de não querer comer nada mal passado nos próximos 50 anos, a verdade é que a noite de Domingo trouxe um novo pitéu artístico – o “ensaio geral” da Verdadeira Treta, ou Zézé e Toni strike again. Antes de mais, uma nota – gosto de humor, de muitos trabalhos dos dois artistas, tanto em conjunto como separados, incluindo até outras Tretas. Talvez por isso me custe ver um filão tão explorado até à exaustão e só por fazer uma frase com tanto “ão” já podem avaliar o meu desânimo. Haverá sempre gente a rir de início ao fim, mas também é certo que “Os malucos do riso” são campeões de audiência, o que não abona muito em favor do riso fácil...

O meu problema é ver bons humoristas remetidos a um formato cómodo, de fórmula repetida, em que é mais do mesmo e durante tempo a mais. Há nos diálogos bons apontamentos, mas pouco há que não tivesse já sido visto noutras Tretas. Zézé e Toni estão velhos e precisavam de algo mais do que um lifting de temas para continuarem a fazer sentido. Assim é só garantir um sucesso de blheteira, que ajuda a pagar as contas é verdade, mas também deixa algum vazio em quem quer algo mais do que ver comédia estilo mortos-vivos.

Mas, não vão por mim, dêem lá um saltinho e tirem as vossas conclusões. Se for eu que sou esquisitinho, não perderam nada, se concordarem comigo, pelo menos no Casino de Lisboa ainda podem tentar recuperar o dinheiro do bilhete.

Press Kit, vem me buscar


Escrevo isto antes de ver o resultado da votação, mas sabendo que ao exemplo de boa parte dos iogurtes no frigorífico do meu local de trabalho, estou fora de prazo. No entanto, sei que as estatísticas não me eram favoráveis e duvido que no fim de semana tenham mudado, até porque não tive oportunidade de pôr os meus PR skills (termos anglófonos não é apenas coisa de economista) em acção.

A verdade é que, ironia da vida, passei o meu fim de semana a trabalhar, em assessoria de imprensa é certo. O que prova que não sou acessor em organismos públicos e afins, áreas em que tirando em crises, inaugurações ou festas de algum calibre, é raro ver um espécime da minha raça em trabalho.

O meu trabalho, basicamente, passa por convencer jornalistas que a minha empresa é realmente importante para o trabalho deles, coisa que também tento subliminarmente implantar na vossa cabeça (tentando fazer deste blog uma necessidade diária). O que se torna difícil, visto que há mais de 50 mil jovens a tentar fazer o mesmo e poucos meios para contactar.
Mas, não se pense que bater papo com jornalistas é a única coisa que faço. Também tenho um blog a gerir é certo e há outras tarefas, como por exemplo uma coisa que se chama “comunicação interna”.

Trabalhando num departamento de comunicação, a parte da assessoria é a mais pomposa e, como tal, a que eu vos tentei impingir. Depois há que lidar com a gente que cumprimentamos com sorrisos falsos no nosso dia-à-dia. E, numa empresa de alguma dimensão, é muito Pepsodent que se gasta. É preciso manter esta malta motivada, a pensar que há alguém lá em cima que se preocupa com eles (e não, não trabalho para o Vaticano) e fazê-los perceber o que é que realmente se faz nesta empresa.
É importante saber que a boazona que toma café às 10.38 também é a responsável pelos Recursos Humanos ou que o narigudo que usa chumaços não deve ser alvo de piadas, nem que seja por ser o tipo que nos transfere o salário ao fim do mês. E, acima de tudo é preciso que saibam que o tipo de cabelo encaracolado é bom rapaz e vale a pena pagar-lhe uns almoços de quando em vez. Isto para não falar que é possível que muita gente não saiba o que efectivamente faz esta empresa.

O que é algo que acontece frequentemente nesta sociedade, a malta não sabe o que faz, nem desconfia. E é isso que eu vou ver, mal consulte esta votação...

5.9.08

The Makvertising fundamentals


“Less is more” é um conceito que se aplica muitas vezes à publicidade, nomeadamente em relação a quem redige conteúdos criativos (ou a armar a isso). Por isso, não vou enveredar por conteúdos pastosos e extensos, como em versões anteriores. Simples e directo.

Dêem uma vista de olhos pelo pasquim, vejam esta iniciativa, vejam a estupidez recreativa que é a base do blog. Vejam a escrita em vários registos, os trocadilhos, a mania de que sou engraçado, misturado com pretensões de cultura geral e, quiçá, dominar o mundo.

Se eu não sou publicitário, então é porque levei uma pedrada na cabeça e sou um repolho ambulante. O meu quotidiano passa por ter ideias, dar-lhes forma e, muitas vezes, criar nas pessoas necessidades desnecessárias. Se estiverem a ler isto, é sinal que, votação à parte, fui bem sucedido.

4.9.08

Mak, the Economist – tão certo como 2+2 = 4


É engraçado como os números às vezes falam melhor do que as palavras. Neste caso, ainda eu não escrevi e já os números da sondagem (que vale, o que vale como diz qualquer político) falam a meu favor.

O que poderia ser estranho, um gajo com formação em fórmulas e números a escrever baboseiras como se não houvesse amanhã, acaba por ter uma explicação plausível. O meu pai é um homem ligado claramente à área do cálculo e da matemática, já a minha mãe sempre foi boa em letras, como tal é perfeitamente natural que o filho de ambos seja bom a dar música. É que a Economia, ao contrário do que pensa a malta que foge a sete pés da Matemática como se ela fosse a programação da TVI, não é apenas números e cálculos, é sim interpretá-los e dar-lhes o enquadramento certo. Sendo eu capaz de fazer isso, escrever alarvidades em torno seja do que for é a coisa mais simples do mundo.

Sempre gostei de escrever, mas na faculdade não incentivam a aplicação do humor às teorias económicas, com raras exceepções. O que acaba por ser irónico, já que em Portugal muitas vezes a Economia é o pão nosso de cada dia para muitos humoristas. Agora que trabalho, ou pelo menos disfarço bem, tenho outra disponibilidade. Especialmente depois de ter acordado para a vida e ter descoberto que o futuro se chama Gestão. Ser gestor, desde que não seja de um bar de alterne (e até aí há muito a gerir e com lucro), é como entrar numa fraternidade, onde números, balanços e outras ferramentas como o “reporting” (se não usasse um termo em inglês ninguém ia acreditar em mim) funcionam como uma muralha, atrás da qual muita gente esconde a sua incompetência em termos de gestão. Como é óbvio, não me incluo no grupo, tirando às 5as.

A verdade é que não formei a minha empresa aos 18 anos e não sou milionário. Para ser franco não abri nenhuma empresa, mas também não uso 38 apelidos e 10 parentes como cartão de visita profissional. No entanto, sim, já consegui entrevistas de trabalho graças à contactos de conhecidos (mas atenção, em economia e gestão, às vezes nem nos números se pode confiar), mas se não fosse bom (vá lá, razoável) no que faço não tinha passado da porta de entrada.
Este blog tem alguma coisa a ver com o que eu faço? Tem tudo e tem nada. Tudo porque a vida das pessoas, quer se queira quer não, é feita através de números, probabilidades e análises e eu, de forma pouco respeitável, tenho aqui um espaço para fazer os meus relatórios. Não tem nada a ver, porque nalgumas esferas da economia/gestão o ambiente tradicional de trabalho ainda é tido como sério e respeitável e confunde-se bom humor com falta de profissionalismo. Tirando na hora de receber o ordenado, obviamente.

Posto isto, o balanço final para mim é claro. Os números vão falar por mim e, contra isso, os outros impostores não vão poder fazer nada.

3.9.08

Room, Chambre, Zimmer, Mak


Sei que, o denominador comum, aponta para que o vocabulário de um recepcionista de hotel se limite a “Bom dia/tarde/noite”, “Bem-vindos”, “Boa viagem”, “Tenha uma boa estadia” ou “Consumiu amendoins no mini-bar?”. E não anda longe da verdade, sendo eu uma anomalia (no sentido positivo da palavra, se é que existe), que não só o consegue fazer em cerca de seis línguas diferentes, como ainda consegue conjugar uns quantos vocábulos originais.

Perguntam vocês que, salvo raras excepções, devem ter ficado hospedados em hóteis em Lisboa – Mas alguém estuda para ser recepcionista? Respondo eu, sim se tirarem o curso de Antropologia ou áreas similares.
Foi esse o meu caso, mas posso considerar a experiência positiva. Em vez de ir estudar primatas para o Malawi-de-baixo ou investigar tribos em Tuparaquinaovemchateá, faço quase o mesmo a partir de um estabelecimento com spa, piscina, ginásio e muitas outras comodidades.

A verdade é que eu não planeei a minha vida assim. Mas, a conjuntura, essa grande desvairada, levou-me até aqui e ainda não estou disposto a fazer o check-out. Não se pense que me encontram atrás do balcão da Pensão Zeca ou que o meu conceito de recepção é estar fardado a chamar táxis e abrir portas. Ganha-se bem a partir de um certo nível, especialmente se tivermos em conta que a exigência mental não é assim tão grande. Aliás, estou a treinar um pequeno símio para fazer as minhas folgas, combinando Antropologia e Gestão Hoteleira num só ramo.

Confesso que a parte dos turnos é chata, mas também proporciona liberdades extra, desde que não envolvam fraternização próxima com a clientela feminina. No entanto, o facto do meu local ser frequentado regularmente por malta que acende charutos com notas de 500 euros também faz com que, de quando em vez, umas quantas gorjetas possam chegar quase ao salário mínimo.

Continuem a votar nas profissões aparentemente mais nobres, que eu não me incomodo. Apenas comprova a minha teoria de que, em posições estratégicas como a minha (o acesso à cozinha é rápido) aprende-se muito sobre as pessoas e quase ninguém dá por nós. E depois basta passar por cá e escrever sobre isso.

2.9.08

Cenas da vida de Mak actor


Gostava de dizer que faço parte da geração de “actores” Morangos com Açúcar. Mas, mas ao olhar-me ao espelho e ver que o meu cabelo continua a moldar-se de uma forma natural e não parece ter enfrentado o furacão Gustav, é impossível mentir.
O facto de ter colocado actor à frente de explicador tem a ver mais com o lado aspiracional da coisa, já que o orçamento às vezes é assegurado pelo lado das explicações.

Desde pequeno que tenho gosto pela representação. Talvez seja porque cresci a ver o João Pinto e o Paulinho Santos a fazerem pantomimas nos relvados. Ou então pelo facto de ter um irmão que deve ter quase tantos filmes em casa como a Cinemateca, alguns deles, a cores.

Mas porque sou um tipo esperto, ou pelo menos faço bem o papel, cedo percebi que ser aplaudido em casa pelos familiares (quem resiste a um anjinho de caracolinhos?) não é garantia de futuro profissional. Como tal, a minha formação académica, permite-me, pelo menos, ter uma visão culturalmente enriquecida do mundo do desemprego. O que é sinónimo de dizer que, se não fossem os meus talentos artísticos e a capacidade de ludibriar malta jovem a pensar que vão aprender alguma coisa comigo, estava bem entaladinho.

Desde miúdo fui criando os meus contactos, participando em peças, etc, coisa que fui desenvolvendo, no secundário e na faculdade, incialmente através de figurações. Sim, é verdade, eu já fiz parte do elenco de novelas portuguesas em papeis como “O segurança”, “Pastor na 3a fila a contar da direita” ou “mecânico que só se vêem os pés debaixo do carro”, para não falar em “Juíz Decide”... Mas progredi, hoje em dia pertenço a uma pequena companhia de teatro, os meus papeis já incluem falas nalguns filmes e séries nacionais (poucas, mas boas). Faço anúncios de TV para cá para esse país chamado o Estrangeiro e, ocasionalmente, figuras tristes por dinheiro, embora aqui as faça de borla, assim é a ironia da vida.

Hollywood não está nos meus planos, mas trocava as aulas de ténis e explicações de inglês a miúdos ranhosos por fazer a mesma coisa mas a vedetas de Beverly Hills. E olhem que alguns deles bem precisam.

Termino apelando para o bom senso. Não votem noutras carreiras, porque o actor aqui sou eu e o que há de vir a seguir não passa de encenação.