30.6.08

Euro2008 - Os comentários fora de jogo


O meu elitismo intelectual, cultivado ao longo de anos nas ruas da Brandoa, não me permite alinhar pelo diapasão daqueles que consideram horrendo gostar de futebol. Eu gosto, eu vejo e ontem quase que comi um croissant com tortilla e pimentos (sim, vende-se disso no Corte Inglês) em honra de Espanha. No entanto, o único sofrimento que me atingiu ao longo destas semanas não foi o excesso de jogos de futebol na TVI, nem muito menos ver a nossa selecção cometer hara kiri futebolístico. O que me deu a volta ao estômago, para além do supracitado croissant, foi a praga verborreica do comentador/relatador de televisão.

Imaginem que entram numa padaria. É normal que aí se fale de pão, bolos e, ocasionalmente, do facto da Dona Laurinda insistir em fazer compras usando apenas um avental. Anormal seria que o padeiro vos dissesse que aquele pão de centeio é 85% das vezes usado para barrar com manteiga ou que na história da broa de milho, só por duas vezes foi utilizada como arma do crime. Para não falar da carcaça, que se tornou no último ano o pão mais representado de sempre em padarias nacionais e do pão da avó, que 88 anos depois da sua criação conseguiu finalmente ser usado para tostas mistas. É tudo informação muito interessante, mas satura facilmente quem só queria comprar um pão de Mafra e pôr-se a andar.

O problema dos comentadores deste Euro foi isso mesmo, a gula do conhecimento. A malta quer é ver pontapés no esférico, nas costas do adversário ou até na gramática por parte dos jogadores, temperado com alguns dados, mas ao de leve. A febre da estatística, do mostrar que se sabe que o Fernando Torres só usa cueca Abanderado e usa um champô com manteiga de karité (isto dava outro tema) 3 vezes por semana ou que o Ballack costuma tirar 7,5 macacos do nariz nos jogos da primeira fase e apenas 2,5 nas eliminatórias não leva a lado nenhum, tirando ao ridículo.

Teóricos do futebol comentado sempre houve, saravá ao Gabriel Alves, mas actualmente a febre estatística e pormenorizada leva a que compense muito mais ver o jogo ao som do último álbum do Quim Barreiros (tentando perceber se ainda é possível inventar mais alguma rima com inuendos sexuais) do que a descobrir que o Platini pesa agora mais 38 quilos do que no dia em que deu uma palmadinha no traseiro do Jordão, em 1984.

E assim cai o mito que futebol não é cultura. Pena que seja à custa da paciência de quem já vê estatísticas muito bonitas ao final do mês no saldo da conta.

Fora de jogo - The sounds of silence, Paul Simon

27.6.08

Deves, deves

Vivemos tempos difíceis e em Portugal muitas são as pessoas que vivem com a corda na garganta. Mais seriam ainda, se muitas delas não tivessem aproveitado para empenhar também a corda, sobrando agora apenas os atacadores dos sapatos para o efeito.
Mas, crise financeira conjuntural financeira á parte, estou para descobrir uma só pessoa, mas uma mesmo que diga – “Gosto de pedir dinheiro emprestado” ou “Não me importo nada de ficar a dever dinheiro”. É que, não havendo dinheiro, poderia ao menos sobrar honestidade. No entanto, com qualquer pessoas que me cruze, e tenho no meu portfólio de conhecimentos alguns cravas/caloteiros de gabarito, o ódio pela dívida, por quem deve dinheiro faz sempre parte do discurso. Já a prática, diz algo diferente, não podendo lixar bancos e instituições semelhantes, é sempre bem mais fácil lixar amigos e conhecidos…
Caso estejam a pensar que devo ter sido alvo de algum calote recente enganam-se, caso isso tivesse acontecido as minhas mãos não estariam agora no teclado, mas sim no pescoço do artista em causa. Esta é apenas uma situação que me irrita.

Notas no ar – Bros, I owe you nothing (sim, é castigo)

24.6.08

Muro das conclusões


Terminando o meu périplo por terras berlinenses, gostava de vos dizer que guardei o melhor para o fim. Infelizmente não o fiz, guardei apenas o fim para o fim. Tendo isso em conta, vou debitar sem demora o que resta para dizer da minha passagem por pequena localidade, que segundo o que consta tem apenas quatro vezes o tamanho de Paris.
Sossegando as mentes mais perversas, começarei pela oferta cultural mais alternativa de Berlim - a prostituição de rua. Já me tinha constado que era legal (esta última palavra tem um sentido exclusivamente jurídico), mas surpreendeu-me o facto de ter lugar em ruas movimentadas da cidade, lado a lado com restaurantes distintos e o facto das senhoras terem um ar respeitável e muito bem cuidado. De facto, só me apercebi efectivamente do seu ramo profissional quando achei que era demasiada coincidência que de 20 em 20 metros estivesse uma jovem sozinha à espera de alguém à entrada de um prédio entre dois restaurantes. Ora, por muito saudável que isso seja, acho que é algo enganador para com o consumidor que cá, pela mini-saia estrategicamente colocada dois palmos abaixo do pescoço, pelo ar de quem foi atropelada duas vezes e os tamancos certificados pelo Chapitô, não tem qualquer dificuldade em reconhecer a profissional do amor em qualquer rua.

A minha viagem também me deixou perceber quão injusta é a informação de que os velhos em Portugal às vezes são piores que os jovens. Na verdade, os velhos podem ser piores que os jovens em qualquer parte do mundo e Berlim serviu-me de exemplo. Sabendo eu que não faltariam voltas por museus e locais públicos altamente frequentados, descuidei-me e não levei na bolsa de férias o repelente de idosos mal-educados. Episódio de referência nesta matéria passou-se no Reichstag, o parlamento lá da terra, onde as filas para entrar, apesar de extensas escoavam com alguma rapidez. No entanto, um grupo excursionista de 6 ou 8 idosos possivelmente de Klingenhoffen Unter den Linden (o nosso equivalente a Valadares da Beira) achou que filas são coisa de papalvos e toca de trepar a escadaria com a agilidade de pequenos saguins até uma zona onde se lia em vários idiomas “ENTRADA PROIBIDA”. Dissuadidos pelo segurança que controlava a entrada, acharam que o percurso de regresso ao fim da fila era demasiado penoso e pensaram “Que tal descermos apenas dois degraus e ficarmos ao pé destes jovens com ar de campónios”. Apesar de ter o bigode feito, senti-me ofendido pela alegação mental dos idosos e pela sua atitude fasc…(resolvi ficar a meio da expressão, para não ferir susceptibilidades na zona). Por isso mesmo, tomei como missão impedir que vissem o que quer que seja à minha frente naquele edifício. O que se passou a seguir foi aquilo que o Paulo Ferreira devia ter feito ao Ballack, em vez de se ter limitado a ser empurrado como uma menina. Cenas de marcação intensa com idosos a tentarem passar à frente nas mais diversas áreas do edifício e eu a mostrar-lhe que há formas viris de bloquear passagens, mantendo algum graciosismo. Sim, sou infantil, mas com 1,85m posso dar-me a esses luxos.

Finalmente, uma breve palavra (para evitar imagens mentais aterrorizadoras) sobre o pessoal de cabine seleccionado pela Easy Jet em solo germânico. Não havia mais ninguém disponível ou o Carnaval na Alemanha tem lugar em Junho? É que o meu conceito de assistentes de bordo, embora lato, não inclui personagens saídos directamente da Passagem do Terror e do Clube de Fãs do Liberace.

E, por agora, de Berlim é tudo.(tirando a música, que fica pelo menos até amanhã)

23.6.08

Muro das satisfações



É verdade, estou de volta. Pensei sinceramente que sobreviviam mais de cinco dias sem mim mas, depois de verificar que haviam camionistas a fazer bloqueios na estrada, que as gasolineiras aumentavam os preços de embarda em sinal de protesto, que o Ronaldo ameçava tentar falar castelhano e que a selecção portuguesa ficou tão afectada que abandonou o Euro antes de tempo, resolvi acabar este pequeno interregno veraneante. Assim, se esta bandalheira continuar, pelo menos não me podem culpar a mim.
No entanto, resolvi aguardar uns dias antes de publicar este post pro-germânico, para deixar acalmar os cromos da bola. Essa sensatez só prova que a minha passagem por Berlim me deu novas perspectivas sobre muitas coisas, como por exemplo:

- Eles criaram as bolas, nós aperfeiçoámos a coisa. De facto, a bola de Berlim em Berlim não tem o mesmo encanto que a Bola de Berlim na Costa da Caparica. Podem mudar-lhe a cobertura, o recheio, mas falta-lhes o sol para lhe dar aquele toque gostoso, que faz a ASAE levar as mãos à cabeça.

- Seria de pensar que, entre um povo que levou pancada da grossa em duas Guerras Mundiais e numa cidade fatiada durante perto de 30 anos (coisas que convenhamos são ligeiramente piores do que ficar chateado quando o nosso clube perde), conseguisse descortinar aquela frieza que dizem ser típica do povo alemão. Nem vê-la, gente simpática e prestável por todo o lado (mesmo que respondessem em alemão a perguntas feitas em inglês), de tal modo que por uns dias até me senti como se fosse um estrangeiro no Algarve.

- Metro sem torniquetes – Nós evoluímos na tecnologia, eles evoluiram na sociedade. Coisa inconcebível por estas bandas, confiar que as pessoas compram os bilhetes, sem ter que pôr torniquetes, cancelas, sistemas de prevenção, etc. Não vi um revisor uma única vez, mas ao que parece os berlinenses acreditam que só têm a ganhar se pagarem, em vez de serem trafulhas. Faz sentido, a rede de transportes deles é um luxo, em termos de eficiência. Pelo sim, pelo não, como bom português que sou descobri um esquema lucrativo: a multa por viajar sem bilhete é cerca de 60€, a denúncia de alguém que viaje pode dar uma recompensa até 500€. O resto do esquema, partindo do princípio de que são duas pessoas é fácil…

- Custo de vida – Vendo o custo de vida em Berlim, a ideia de que é em Lisboa que se vive muito a custo sai reforçada. Uma casa no centro da cidade é mais barata do que em Lisboa (e não estamos a falar de uma barraca forrada a pacotes de leite), quer em termos de arrendamento, quer de compra. O preçário de restaurantes, desde o mais gourmet para o turista à roulotte das Bratwursts é mais barato. As compras de supermercado são ligeiramente mais caras, mas apenas em certos artigos, isto ao nível de bens essenciais. Não cheguei à parte do Tide e da cinta ergonómica, fica para uma próxima oportunidade. Consegui bater o meu recorde na relação preço-quantidade em visitas a museus. Para além de um dia em que os museus estão abertos até às 22h (sim, dez da noite) e a partir das 18h são à borla, a zona onde estão alguns dos principais museus disponibiliza um passe combinado de 12€= 6 museus. É overdose, mas é em conta. Por cá, não consegui ainda descobrir oferta semelhante, até porque como trabalho tenho dificuldade em, primeiro que tudo, encontrar museus abertos.

(continua, com temas tão interessantes como, prostituição de rua, velhos em Berlin, Low costs fazem mal à vista)

Sons do Muro (Porque com uma banda chamada Berlin estavam a pedi-las) Berlin, Take my breath away

10.6.08

Eu sou uma bola

Não me atrevendo a explanar o meu germânico com a fluidez aqui do jovem, mas esperando um aplauso idêntico aos que ele recebeu, então vou ali comer um pouco do muro e ver os restos da bola e já volto.

É só até final da semana, mas visto que nas Bermudas não era possível descobrir a diferença entre o mundo livre e o comunismo, tenho mesmo de ir aqui.

Sim, eu sei abandonar o país em tempo de Euro, sem ser para a Suiça/Austria é crime, mas eu sou assim, rebelde.

5.6.08

A Bíblia é uma pedra

Há uma dúvida que, a par das gasolineiras, me tem assaltado nos últimos dias. Sendo uma pessoa profundamente espiritual, dada à meditação e a outras desculpas válidas para não trabalhar, surgiu em mim uma interrogação de proporções bíblicas que passo a partilhar convosco, apesar de saber que há entre bloggers e voyeurs cibernéticos uma grande percentagem de hereges e excomungados.

Porque raio é que no âmbito da “mitologia” cristã nos referimos às Tábuas dos 10 Mandamentos, quando ao que tudo indica o jovem Moisés terá vindo da sua consulta com Deus munido de duas lajes de PEDRA com apontamentos e a barba chamuscada?

Estava a pensar nisso de olhos fechados ontem à noite, quando de repente senti um chamamento e vi uma luz. Ao que parece, já estava a ressonar e isso incomoda quem não consegue meditar tão profundamente. Resolvi então consultar o oráculo da sabedoria moderna, que dá pelo nome de Wikipedia, para resolver o que poderia ser uma má interpretação da minha parte. Na versão inglesa tudo certinho, a história de não cobiçar mulher alheia (e ao que parece o burro e outros animais de companhia) estaria inscrita em “stone tablets”.

Eis que converto o texto para a versão portuguesa e vejo “tábuas de pedra”. Apesar de não dominar as disciplinas de trabalhos manuais, vivi até hoje convicto de que tábuas eram sempre de madeira. Com o dicionário à mão, confirmo – tábua = madeira. Descobri, no entanto, outro dicionário onde à cautela também admitem tábuas como escrituras gravadas em madeira ou pedra. Yeah sure, vendidos...

Sabendo que Moisés era um tipo de recursos que, através de truques como as Pragas do Egipto ou a separação do Mar Vermelho (tendo inclusive inspirado Luís de Matos a seguir uma carreira como ilusionista em vez de revisor da Carris), acredito que fosse capaz de transformar pedra em madeira, mas dá-me ideia que o homem só gostava de números grandiosos, tipo transformar o CCB na Cabana do Pai Tomás.

Até ver, a minha opinião mantém-se. Tábuas de madeira é bonito, mas só se o tradutor abusou do vinho da missa.

Sons bíblicos – dEUS, Little Arithmetics

3.6.08

Informação Extra-ordinária

Na sequência do post anterior, eis outra prova de que o excesso de informação às vezes resvala rapidamente para o conceito “what the fuck?”.

Chopin afinal morreu de fibrose quística e não de tuberculose.

Não percebo a relevância desta notícia fora do círculo científico, da família de Chopin, da Associação de Pacientes de Fibrose Quística e de gente com tempo a mais, como eu. No entanto, creio que a Associação de Vítimas Célebres da Tuberculose já pediu uma contra análise ao coração do senhor, depois de saber da desfeita.

Clássicos do Som – Chopin, Opus pré-fibrose

2.6.08

Onde está Portugally?

Estou deveras preocupado. Há mais de 1 minuto e 18 segundos que não vejo nada na televisão sobre o que está a fazer a selecção portuguesa.
Será que o Cristiano Ronaldo conseguiu acabar de se assoar sem problema? Será que o Murtosa já descobriu que Sudoku e Euromilhões não se preenchem da mesma maneira? Será que o Deco cuspiu aquela grainha de uva que tinha presa na cavidade junto ao 2º molar?
Mas, acima de tudo, será que os portugueses que ainda não têm TV Cabo e afins se suicidaram em massa depois da tarde de ontem? Ou será que não estava em casa, porque andavam de cachecol e bandeirinha aos pulos?

Som de outra dimensão -Twilight Zone