30.5.08

Eu não vou dizer que não vou

Bastou eu começar com a habitual bazófia do “Ah, tu vais?” em tom desdenhoso, do “Epá, vai tu que eu não” em toada jocosa ou do brejeiro “Vai andando, que eu não vou lá ter” que as entidades superiores que controlam o Universo decidiram reunir-se para deliberar o seguinte: “Este ano, este palhaço vai”.

Vai daí, a minha vida mudou. Para onde quer que me vire há um bilhete que insiste em aninhar-se no meu bolso. Seja de prenda, oferta, brinde, sorteio, herança ou de castigo não há escapatória. É porque a tia vai ficar ofendida, ou a prima que não tem companhia e mais as dez crianças ucranianas cegas que precisam de um guia para poderem ir ouvir Boss AC & Vitorino; de todo o lado surgem imperativos morais que, conjuntamente com esta ideia de conspiração do destino, me levam a pensar que pode não haver outra solução.

Ainda hoje ao almoço, depois de ter fintado em corrida dois parentes de bilhete em punho apenas para ir parar aos braços de uma colega, que me veio dizer que tinha sido um dos premiados com um bilhete num sorteio interno, me virei para os céus e gritei: “Porquê eu?”, apenas para abrir os olhos e ver as nuvens formarem a frase “Porque sim”. Visto isso e dado que sempre fui um espírito rebelde respondi mentalmente em tom de desafio: “Ok, tudo bem, vocês é que mandam”.
Ia jurar que ouvi risos ribombantes algures.

No ir - Amy Winehouse, Back to black

29.5.08

How do you Phil?

Li algures que o Phil Collins ia deixar a música. Dizia ele que se vão acabar os concertos, os novos álbuns e as coisas do género. Vale a intenção Phil, mas parece-me que estás em clara fase de negação.

Para além de te agradecer o gesto, ainda que tardio, queria esclarecer-te acerca de um aspecto. É que, caso não tenhas percebido, foi a música que te deixou a ti e olha que já foi há uns bons anos.

E isso até um macaco percebe.




Monkey business - Phil Collins, In the air tonight.

27.5.08

A segunda dimensão


Para além de uma panóplia de benefícios, as minhas funções profissionais permitem-me, de quando em quando, ver o pôr e o nascer do Sol sem sair do sítio. A par dessa experiência divertida que é lidar com a privação do sono, estes episódios permitem-me descobrir alguns fenómenos interessantes, como aquele que passo a relatar.

Por volta das sete da manhã, resolvendo que talvez fosse altura de ir para casa, eu e o meu parceiro de trabalho decidimos fazer esse caminho a pé. Talvez pelo cansaço, ele não percebeu que essa decisão me favorecia, já que moro a vinte minutos do trabalho, ao passo que ele reside para lá daquela aglomeração de água a que se convencionou chamar Tejo.
De qualquer forma, a nossa primeira grande surpresa deu-se quando chegámos à rua - de facto, pessoas que fazem uma directa ficam com um aspecto muito pior quando vistas à luz do sol. A segunda surpresa surgiu com o facto de o meu colega conseguir andar, dormir e falar ao mesmo tempo fora dos cenários clássicos do sonambulismo. Pelo que me contou no dia seguinte também é capaz de o fazer a surfar, mas isso já me parece patranha.

Mas, o que me surpreendeu mais às sete da manhã, enquanto fazia calmamente o caminho inverso ao das muitas pessoas que já se encontravam na rua foi constatar que a fauna urbana é muito diferente às sete do que é às nove e picos, a minha hora habitual. Às sete da manhã há menos maquilhagem e glamour, menos estilo, menos ar de quem domina o mundo a partir do seu fatinho, menos ipods e menos óculos escuros de marca. Há mais olheiras, mais cansaço, mais feições crispadas, menos perfume e mais cheiro a produtos de limpeza. Se calhar, o que há mesmo mais é gente que realmente trabalha.
Sorte que o meu aspecto era enganador o suficiente para não desconfiarem. Sabe-se lá o que podia ter acontecido.

26.5.08

Rise and shine

Quando o elevador que nos leva até ao andar em que trabalhamos rejubila de alegria ao som de Venga Boys e o seu “We’re going to Ibiza”, pode-se esperar o pior do resto do dia…

Mute – Ainda a recuperar do choque matinal.

21.5.08

Flat Screen, Fat People

Não sei se já repararam mas, traço geral, as televisões tendem a ser cada vez mais magras e as pessoas cada vez mais gordas.

Non Stop - REM, Drive

19.5.08

Vinho eu, vinho eu…

Regressei agora de uma palestra formativa onde descobri que existem cada vez mais maneiras inovadoras de sacar informações às pessoas para as vender às empresas que, por sua vez, as usam para vender de tudo às pessoas (notam aqui um padrão?). No entanto, no meio de tanta técnica valiosa e metodologia futurista, houve algo que me pareceu destoar do cenário.

Não é que o ilustre orador avança com uma suposta “inovação” em que, por exemplo, uma garrafa de vinho num dado lugar interage com a pessoa que passa por ela, iniciando uma comunicação entre ambas. Se é certo que o propósito comercial da coisa possa ser recente, há muito que o diálogo entre os homens e as garrafas de vinho acontece, por vezes com consequências gravosas para os primeiros.

Quantas vezes não houve já quem chegasse a casa a horas tardias da madrugada, justificando o seu estado lastimoso à sua cara metade com “Eu vinha directo para casa, mas duas garrafas meteram conversa comigo e eu, sem saber bem como, acabei neste lindo estado”. Ou quantas relações homem-garrafa de vinho não acabaram já por falta de diálogo, deixando um vazio no homem que o obriga a contratar os serviços de uma bebida de leste.

Por isso meus amigos, não me venham com teorias. Modernidade tudo bem, garrafas de vinho que falam com a malta, isso é chão que já deu uvas…

Som de qualidade, naturalmente – Nat King Cole, Nature Boy

15.5.08

Tiro ao chefe

É certo e garantido em que não há um dia em que a figura do chefe não leve uns açoites. Não é caso dramático, muitas vezes é mais a figura do que o próprio chefe a ficar amolgada. No entanto, seja em que contexto for, o chefe é um alvo fácil, acima de tudo porque é isso mesmo "o chefe". Contudo, o conceito de autoridade, ao contrário do que os chefes pensam, foi feito para que os não-chefes (uma clara maioria, apesar de muita mania) tivessem um escape condizente com as frustrações do dia-a-dia.

Ter um chefe à mão de semear, para além de tudo o resto, é ter uma boa desculpa, uma óptima razão ou um excelente pretexto para fazer uma pausa e aproveitar para descarregar um pouco do que nos vai incomodando na companhia de outro não chefe, seja trabalho, conhaque ou um cocktail de ambos. Até o chefe mais virtuoso não está imune, pois junto com a chefia é atribuído um íman que, num dia mau, tem a capacidade de atrair um defeito a mais de 2Kms de distância.

Sendo não chefe, não posso obviamente deixar que esta prosa se torne chefe-friendly ou até pro-chefe, até porque na verdade não tenho pena nenhuma dos chefes. Todos eles, salvo raras excepções, foram algures no tempo não chefes e, se me é permitido um paralelismo starwariano, cederam ao lado negro da força. Ora tendo isso em conta, não podem agora esperar que tenhamos pena deles e achemos que nada mudou e continuam a ser um dos nossos, com a pequena diferença de que agora mandam em nós. Balelas, se nada tiver mudado então é porque não são realmente chefes.

Diz a lenda que dos não chefes não reza a história, o que é certamente uma frase inventada por chefes. E que os não chefes deixaram passar, apenas para depois poderem dizer "Já viste, fomos nós que fizemos a história toda e agora não só nos chamam fracos, como ainda por cima nem sequer vamos ter qualquer reconhecimento. É sempre a mesma coisa". De outra forma, não faz qualquer sentido. E podem dizer isto ao chefe.

13.5.08

Deus é informático


Diz-se que o Senhor criou o Mundo (e a Amadora) em seis dias, tendo descansado ao sétimo. Ora, apesar de omnisciente, certamente que Deus gostava de fazer os seus downloads, quiçá ver alguns videos da Beyoncé no Youtube e, como tal, nada melhor que uma tarde livre para isso.

Serve o prelúdio bíblico para falar de algo que reforça esta visão Deus-Informática: o facto de em muitas empresas/instituições (e não me refiro às de saúde mental) haver(em) informático(s) que age(m) como se fosse(m) Deus.O seu conhecimento técnico e a importância que os meios informáticos têm no dia-a-dia de uma empresa conferiu-lhes um tal estatuto que sem uma alimentação saudável e excesso de horas em frente ao monitor pode conduzir ao delírio.

O comum mortal é tratado com desprezo/condescendência quando obrigado a solicitar os seus serviços já que a máquina (computador em português normal) não reage sequer a insultos para voltar ao normal. Além disso, enunciam sempre um ror de tarefas cruciais para o destino da empresa, talvez da Humanidade que os vão ocupar nos próximos três dias e que só depois disso (com sorte) vão ter tempo para tratar de nós. Muitas vezes, quando confrontados com o facto de estarem a ler o “Record”, respondem através da linguagem encriptada, descodificável apenas com password de administrador.

Emails, tal como as tábuas de Moisés, chegam a nós com PROCEDIMENTOS QUE DEVEM SER CUMPRIDOS PARA A SEGURANÇA (os informáticos pensam que a letra grande facilita a compreensão do sentido da vida) e vêem no servidor um filho que vão sacrificar para redenção da humanidade, tal é o fervor com que o defendem e a tristeza com que documentam o seu sofrimento. O demo é visto atrás de cada email com anexos, de cada aplicação não validada, de cada ficheiro importado de outro computador. Cada utilizador é feito à imagem do seu programador, mas nunca alcançando a perfeição do mesmo.

Vendo bem, só há por norma numa empresa/instituição outra pessoa com tais responsabilidades e trabalho hercúleo, nada mais nada menos que o responsável financeiro, que ama cada nota como seu filho e sobre o qual se poderia escrever também uma bíblia.

Infelizmente, para muitos deles, a carreira como pianista de hotel em destino paradisíaco é um sonho que há muito ficou para trás.

Som divino – The Coasters, Down in Mexico

11.5.08

As fitas da queima

Este fim de semana decidi que era tempo de de analisar erros passados e telefonar a todas as pessoas que ofendi nos últimos anos, de forma a ficar de consciência tranquila. Depois de consultar o saldo do telemóvel e constatar que na realidade não tenho consciência nenhuma, em vez diss optei por ir passear a Coimbra.

Coincidiu esta viagem com a chamada Queima das Fitas, mais precisamente com o seu encerramento. Apesar de, a seu devido tempo, ter aproveitado todo o regabofe universitário a que tinha direito, nunca fui grande entusiasta de tunas, fardas de Conde Drácula e o chamado espírito académico tradicional, coisas que me aceleram tanto o ritmo como o Leonard Cohen.

Mas, Coimbra é Coimbra e dois dias depois posso dizer que retirei ilações valiosas deste périplo ao auge da festança estudantil. Por exemplo, a ideia de que as pessoas não investem na educação e largam cedo os estudos é errada, já que me cruzei com diversos "estudantes" trajados a rigor que me davam a ideia de já o serem na altura em que passou na televisão o original da Vila Faia. Um bem hajam por investirem quer no estudo, quer na recuperação da economia através da dinamização da indústria cervejeira.

Um aspecto que também considerei importante é que é muito mais fácil viver experiências como a Queima com o devido distanciamento da fase da vida em que somos estudantes. As vantagens de hotel vs dormir no banco de um carro com três pessoas em versão tétris humano ou jantar de faca e garfo vs comer trampa no recinto ou optar por não comer trampa e gastar tudo em álcool constituem não só um simpático burguesismo como um oportuno retoque na arrogância com que devemos olhar para qualquer biltre que se vire para nós e diga "Mas tu tens que trabalhar e eu não".

No entanto, posso sinceramente acrescentar que o momento mais emocional desta visita aconteceu não ao descobrir que os James ainda estão vivos e até lançam álbuns novos, mas ao resistir à tentação de revisitar o Portugal dos Pequenitos e estragar assim a memória do tempo em que eu visitava várias casas sem a agonia de ter de pensar em áreas, empréstimos e expressões fajutas como "cachet".

O som da tradição a sério - Carlos Paredes, Verdes Anos

8.5.08

Ponto de v(m)iragem

Quando uma jovem, aparentemente pouco mais nova do que eu, numa situação que dispensa formalidades se dirige a mim com os termos “O senhor isto”, “O senhor aquilo”, quer dizer que alguns cabelos brancos e a capacidade de articular um discurso correcto e palavras com mais de três sílabas me confere uma aparente maturidade?

Ou, por outro lado, deverei entender isto como um sinal que o meu potencial de enganar pessoas atingiu uma tal respeitabilidade que está no ponto certo para me poder começar a dirigir a bancos e instituições semelhantes ou até enveredar por uma carreira política?

É difícil ser cínico, quando as pessoas não são explícitas.


Conferindo (pouca) maturidade sonora – Violent Femmes, Gone Daddy Gone

5.5.08

LegoKea

Já muito se falou sobre o Ikea. Desde o conceito, à pronunciação do nome da firma, passando pelas procissões ao estabelecimento, pelos momentos de diversão proporcionados pela montagem de mobília chez nous ou até pelo facto do velhadas sueco que se lembrou de juntar as palavras design, mobília e barato estar nos 10 primeiros entre os mais ricos do mundo.
No entanto, aproveitando este fim de semana grande, resolvi conhecer melhor a localidade de Alfragide e descobri que não é preciso entrar no IKEA para experienciar a essência do humor nórdico.

Para quem não sabe, é no parque de estacionamento desta serralharia sueca que se passam grandes momentos. E com esta expressão não me refiro a vidros embaciados e espectáculos de contorcionismo. Tem tudo a ver com a junção entre dois símbolos da Escandinávia: Lego e IKEA.

Comprem pipocas, escolham um bom lugar e depois vejam como famílias inteiras tentam dobrar a avó em três para caber no banco de trás junto ao aparador Svandall. Ou como os pais explicam ao filho de 4 anos porque razão vai ter de ir de autocarro até ao Prior Velho, pois as cadeiras Monstrig e a mesa Olofund não sabem comprar módulos.

Esperem mais um pouco e a emoção não pára. Um jovem com dotes de matemático/engenheiro tenta convencer a namorada, de que o Clio tem espaço suficiente para levar toda a mobília de quarto que compraram. Infelizmente, ela não responde, já que o seu crânio foi perfurado por umas calhas Dimvig que o moço tentou enfiar através da bagageira. Apenas a 10 metros de distância, a estante Porkfund mostra toda a sua versatilidade, servindo de maca para o avô Fagundes, que tentou mostrar a sua boa forma e força para encaixá-la entre o andarilho da esposa e o tejadilho do Fiat Uno e falhou miserávelmente.

Finalmente, depois de tanto tempo, percebi que essa história do “Vá para for a cá dentro” pode realmente ser divertida. E nem sequer é preciso passar da porta.

Ecoando nos Fiordes - Royksopp, Remind me