30.4.08

Falo agora ou calo-me para sempre?


Quando alguém que conhecemos bem nos aborda e nos diz: "Epá, tu que até escreves bem umas merdas, não me queres safar o convite de casamento?", qual a atitude correcta a tomar:

a) Dado que ele é mais baixinho, devo intimidá-lo e forçá-lo a clarificar a expressão "umas merdas".

b) Dado que ele é mais baixinho, devo intimidá-lo e forçá-lo a clarificar a expressão "casamento".

c) Sorrir cinicamente, agradecer o elogio e, sem querer, falar com a noiva sobre a conotação merdas-casamento.

d) Aceitar na hora, a troco de poder usar um bigode falso e teclar músicas rústicas um Casio durante a boda.


São dilemas como este que podem estragar o meu fim de semana de 4 dias, mesmo aqui à porta.


Animando o casório - Kaiser Chiefs, Everyday i love you less and less

29.4.08

Filosofia de Mak, capítulo III – O síndrome cebola

Tendo a desconfiar de gente que insiste em manter capas de plástico e afins em tudo, da película do visor do telemóvel aos sofás, para além de um período extra-protector normal para coisas novas, que estimo em cerca de duas semanas.
Fazem-me sempre pensar que são aquele tipo de pessoas que fazem a conta do que vão gastar num restaurante antes de começarem sequer a comer, que interrompem uma sessão de amor caliente para ir buscar algo como uma toalhinha turca, não se vá sujar o edredon e que têm um serviço de loiça premium para as visitas especiais, que muitas vezes não é usado durante uma vida inteira.

A todos os familiares, amigos e outros que possa ter ofendido com esta dissertação, deixo três palavrinhas: Estavam a pedi-las.

Envolvido em celofane - Radiohead, Fake Plastic Trees

28.4.08

Espera aí que o bus já vem.

Há já algum tempo que o pessoal da Carris achou que os transportes em si não eram motivo suficiente para gozar com a malta. Vai daí que, depois de alguns almoços da administração alguém avançou uma ideia, entre duas garfadas de doce da avó: “Então e se aproveitássemos para lhes atanazar a vida, até mesmo antes de eles entrarem num autocarro e lhes vendêssemos a coisa como um benefício”.

E foi assim que nasceram os placards com o tempo de espera até ao próximo autocarro. Não é preciso ser um génio para ver que o tempo é algo de muito relativo para aqueles placards. Dois minutos podem ser na prática dez e oito minutos de repente transformam-se em 1 minuto e logo em seguida em desilusão quando vemos que o autocarro que passou afinal não era aquele que pretendíamos e enquanto olhávamos para o motorista, o placard voltou a doze minutos.

É engraçado ver como muito mais gente fica mais dócil enquanto espera, quando tem um marcador para olhar, mesmo que este tenha a fiabilidade do Santana Lopes. Pelo que posso deduzir, o funcionamento da coisa tem a ver com uma estimativa da distância que separa o autocarro da paragem convertida em tempo de percurso. Ora, se isso até pode funcionar em condições óptimas, coisa que em Lisboa sucede com a mesma frequência da visita do Cometa Halley, nas situações comuns implica que dois minutos possam ser na realidade quinze, já que o Bus pode estar ali ao virar da esquina, mas o motorista ainda está a ser espancado por dois indígenas ou a tentar descolar um idoso da grelha da frente do veículo.

Por mim, dispensava a ajudinha. Gosto de me sentir enganado à moda antiga, sem suportes digitais.

Quanto a ti, leitor que há muito faz do cu tremido uma arte e sabes tanto de transportes públicos como de literatura afegã, deixo-te uma metáfora que sintetiza sumariamente a coisa: Sabes aquelas pessoas que chegam sempre atrasadas e te telefonam de dois em dois minutos a dizer: “Estou quase aí”, “Falta pouquinho” ou “Estou mesmo, mesmo, mesmo a chegar” e entretanto quase que já deu para ver um filme do Manuel de Oliveira? É a mesma coisa, mas sem teres que dares beijos ou abraços quando se encontram.

Sala de Espera - The animals, We gotta get out of this place

24.4.08

Vamos deixar o 25 de Abril para amanhã

Numa semana em fui vitima da ditadura do patronato, algo que me impediu de debitar disparates com a regularidade desejada, deixo-vos um pensamento para a viagem que certamente estão a começar rumo a um fim de semana alargado em Armação de Pêra, Quarteira ou talvez Póvoa de Santo Adrião.

O 25 de Abril de 1974 deu-se a uma 5a feira. Foi a nossa sorte. Será que se tivessem esperado mais um dia, entretanto metia-se a 6a feira, há sempre quem tenha de sair mais cedo porque vai para fora ou tenha um jantar, era capaz de não dar jeito.

Depois, ao fim de semana é que não ia dar de certeza. Se uma pessoa não aproveita estes dias para descansar mais um bocado, depois chega ao início da semana sem energia. Como tal, até era melhor deixar para 2a, que era para começar uma nova semana com uma revolução cheia de energia. Isto é o que se pensaria no sábado.

Depois chegaria o domingo. Só havendo a RTP, de certeza não ia estar a dar nada de jeito na televisão. Ora em Abril ainda não era altura de Jogos Olímpicos, nem do Mundial da Bola na Alemanha. Ainda bem que falei em bola, porque nessa altura era certamente um programa para a família que não implicava gastar metade do orçamento. Ainda por cima o Benfica ganhava com mais regularidade, o que significa que havia menos mulheres a precisarem de cuidados médicos na 2a.

Mas, enquanto se estava na bola, aproveitava-se o intervalo para comer uma queijada de Sintra, cujo vendedor era ainda um jovem em início de carreira, que visava ser dono de uma roulotte de bifanas num futuro próximo. Demorou 34 anos, mas conseguiu-o, à custa de muito trabalho, suor, a maior parte do cabelo e a capacidade de conjugar a maior parte dos verbos correctamente.

Nesse intervalo, olhava-se para o céu e viam-se algumas nuvens. A sabedoria popular, que era das poucas coisas que a PIDE não proibia, lembrava logo o ditado "Em Abril, águas mil". E isso era chato, para quem queria começar uma revolução logo à 2a feira. Talvez fosse melhor para 3a, depois de ver como estava o tempo na 2a. Boa ideia, sim porque os revolucionários normalmente são gente com boas ideias.

Não preciso de continuar para perceberem porque é que temos o 25 e não o 26 de Abril. Mas, por outro lado, será que temos o 25 de Abril, porque não tivemos o 18 ou o 11, por razões bastante semelhantes? Ou será que já se andava a adiar a coisa desde Março?

Dúvidas importantes se levantam. Tal como eu, que vou andando para o fim de semana de três dias. Adeuzinho e fiquem bem.


Sons da revolução por água abaixo - PJ Harvey, Down by the water

21.4.08

Match Poingggg

Acartasses tu baldes de cimento, a ver se desistias meu madraço

Dando por findo o meu périplo tenístico, conclui que os responsáveis do Estoril Open fizeram um pacto com o Diabo. Só isso explica a sorte que tiveram, pois numa semana em que tanto choveu, só a espaços tiveram de interromper jogos e foi tudo certinho até à final. Até, digo bem...
Só que o Diabo às vezes gosta de fazer cobranças rápidas e toca de estragar logo a final, tornando Davydenko no primeiro ucraniano em Portugal que se recusa a trabalhar. Tudo bem, o rapaz lesionou-se e desistiu quando ainda estava tudo em aberto. O facto do torneio de Monte Carlo estar aí à porta também não deve ter pesado nada.

Estranhei que a maior parte do público tivesse ficado mais chateada com a presença do Ministro da Economia na cerimónia de encerramento do que com o facto de só ter visto meio jogo. Quando senti o cheiro a croquete quente vindo da tenda Vip, percebi que estavam com pressa…

No entanto o speaker/entrevistador de jogadores, que o João Lagos deve ter salvo de uma carreira no Karaoke, era o gajo que merecia a maior vaia da tarde. Uma mistura de servilismo perante o prazenteiro nº1 do mundo Roger Federer (o qual tratou a dada altura por Rogers), um humor manhoso e um enviezamento de perguntas que meteu quase tanto dó como a tentativa de convencer o suiço a emborcar o distinto champanhe das Caves Aliança.

Exemplo:
Pergunta: Roger, acha que o Estoril Open seria melhor se tivesse um estádio maior e que fosse permanente?
Resposta totalmente inesperada e pouco previsível: Sim

Logicamente, esta resposta foi usada como ferramenta de pressão em todas as notícias publicadas. Não está mal pensado, mas é como perguntar a um jardineiro se gostava de ver jardins maiores…

A terminar, confesso que menti quanto à maior vaia da tarde. A título pessoal iria dedicá-la às duas aventesmas sentadas na fila atrás de mim. Depois de ter ficado a saber quase tudo sobre a sua vida pessoal e profissional durante a final feminina, vê-las a protestar iradas com dois jovens que passaram à sua frente durante a final masculina com frases como “É uma falta de respeito. Não têm educação” foi quase tão degradante como vê-las a explicar o que fariam ao Rogers se ele fosse com elas para casa.

Pontos positivos – Tentando lixar a vida a esta senhora ao meu lado esquerdo na final, mascando pastilha de boca aberta ruidosamente o tempo todo e ver que o Benfica e o Sporting arranjam sempre maneira de lixar mais pessoas do que quem foi ao Jamor e queria mais.

Something for the quitters – Boy George, Crying Game

18.4.08

Antes quebrar…



Homem autoritário “`à antiga”, desde que me lembro o meu avô foi sempre contra a televisão.
Nunca compreendi porque é só depois de partir dois aparelhos é que finalmente percebeu que precisava de óculos.

17.4.08

A acústica da refeição

O meu gosto pela vida leva-me a ingerir alimentos em alturas específicas do dia. Uma delas, que muitos de vocês conhecem como “almoço”, situa-se convenientemente a meio do dia, permitindo-me galhofar com parceiros de profissão sobre o pouco que fizemos de manhã, o muito pouco que planeamos fazer à tarde e ainda sobre temas importantes da actualidade. Como é óbvio, dou-me maioritariamente com mentirosos e maldizentes, o tipo de pessoas que vêem em mim um exemplo a seguir.

Mas, se tudo isto pode parecer trivial, há um factor científico que tenho vindo a verificar num restaurante que costumo honrar com a minha presença. A acústica do mesmo melhora consoante o tema de conversa na nossa mesa.

Senão vejamos o Ensaio A, efectuado esta semana:

Em dois dias diferentes, o restaurante tinha essencialmente o mesmo número de clientes, resultando numa casa composta.

Dia 1 – Tema de conversa: Coscuvilhice profissional, educação e vida para além da morte.
Acústica – Péssima. Tendência normal para aumentar o volume da voz, ajustando-o ao nível da sala. Pratos e talheres, fundindo-se de forma pouco harmoniosa numa sinfonia com coro de pedido de empregados.

Dia 2 – Tema da conversa: Concepções de homens e mulheres sobre sexo com/sem preservativo, a banalização do swing e das orgias e ofensas gratuitas contra o patronato.
Acústica: Perfeita, dava para ouvir uma azeitona cair a 50 metros de distância. Excepção para um cidadão senior, cuja placa o impedia de comer sem ruído, desculpável pelo facto de usar aparelho auditivo.

Conselho: Se gostam de comer sem gritarias, escolham bem o tema de conversa. Faz milagres acústicos.


Prato do dia - Clutchy Hopkins, Rocktober

16.4.08

Televisão da madrugada – A 5a Dimensão está de volta

O meu mester (não confundir com o Mister da bola) obriga-me, de quando em vez, a regressar a casa naquele período a que convencionou chamar noite avançada. Na maioria das vezes o meu corpo vai em piloto automático cumprir as tarefas necessárias para que rapidamente possa cair que nem um cepo na cama. Mas, ocasionalmente, sou levado a fazer algo diferente, como preparar uns crepes Suzette, fazer um jogo de Mikado ou ver quantos me filmes me faltam para ver antes de morrer num livro que lá tenho.

A noite passada, a pontinha de masoquista que há em mim, segredou-me: “Anda, vem ver 10 minutitos de televisão, só para ver o que está a dar”. Como a minha faceta sádica já estava a dormir, acedi.

Desiludido pelo facto de não ter encontrado canais onde moças voluptuosas e prestáveis recebem muito amigavelmente o carteiro ou por ver que o Teleshop já não reserva surpresas para mim, foi na SIC e na TVI que descobri o que está na berra em termos de televisão da madrugada.

Pelos vistos, a velha fórmula do liga para cá que eu dou-te uns cobres ridículos, está de volta. Só que, de maneira a agradar aqueles que decidiram que a vida é curta demais para perder tempo a dormir, especialmente quando a televisão está a dar coisas tão boas, algumas regras mudaram. Os concursos estão cada vez mais básicos e imbecis e, para manter uma certa coerência, foram buscar apresentadores à medida, isto para não falar dos operadores de câmara com Parkinson que estavam livres desde que o José Figueiras foi proibido de usar calções de tirolês.

Se na SIC, a jovem de serviço combinava um certo look inocente e simpático, com um ar maroto e irreverente, dúbio o suficiente para agradar à diversidade de taras do público noctívago, foi na TVI que descobri uma nova mescla de entertainers. De um lado, aquilo a que em linguagem de andaime se chama “uma febra” – jovem loira, bom porte atlético, ar amistoso, sorriso que brilha a cada euro que pinga e passível de ser inserida no eixo modelo-actriz-relações públicas de bar em Serra das Minas. Do outro lado, simpático saguim, com uma graçola sempre no bolso, um gosto particular por simular actos que são realçados por divertidos efeitos sonoros da regie e um claro sentido de oportunidade, agarrando-se à febra sempre que pode.

Resultado destes 10 minutos de TV – uma dúvida. Será que, não se podendo esperar muito mais, é isto que é necessário para prender uma cambada de anormais (nos quais me incluo, a título honorário) à televisão de madrugada? Ou, pelo contrário, é um serviço público que é prestado, já que com certeza muita gente corre para a cama, mesmo que não tenha sono, para evitar um pesadelo que se tem sem ser preciso estar a dormir?

A dúvida subsiste. O sono também.

14.4.08

Vamos ao ténis, Exmo. Sr. Filhinho

Portador de uma curiosidade social ávida e de uma unha encravada num dedo do pé, rumei este fim de semana à abertura do Estoril Open. Não tendo eu amigos condizentes (ou melhor, não tendo amigos, ponto) com a fauna que esperava por lá encontrar, tentei levar companhia que me fizesse sentir integrado no meio. Passei numa pastelaria e lá entrei eu nos courts do Jamor com um queque em cada mão. Não foi brilhante, mas desde que verifiquei o BES lá vende pipocas, deixei de me preocupar com o ridículo.

Verifiquei também que grande parte das pessoas que lá estão não vão ver encontros de ténis. Vão ser vistos por outras pessoas, que muito provavelmente lá estão pelas mesmas razões. E comer, também vão lá para comer, de borla claro está. Aliás, se fosse feito um estudo social, muito provavelmente se verificaria que se não fossem os eventos sociais e afins, a chamada classe alta e a socialite morreriam à fome num prazo inferior a dois anos.

Depois de ver que bolas de ténis gigantes são um óptimo engodo para conhecer miúdas (e idosas, e famílias, e crianças, e marmanjões e tudo o que tenha fixação com objectos gigantes gratuitos), descobri um jogador croata com o qual me identifiquei na plenitude. Fala sozinho, grita e reclama com e sem razão, parece ter amigos imaginários de índole violenta, ameaça aqueles que o rodeiam, tem algum potencial e é desconhecido do grande público. Só há uma diferença, o gajo tenta o sucesso usando uma raquete, já eu ando a ter aulas de acordeão.

Finalmente, o que contribui para me dar alguma volta ao estômago, para além dos quilos de pipocas à conta do BES. O número assustador de pais a tratarem as criancinhas por você ou pelo seu distinto nome de aspirações heráldicas. Não quis crer que se tivessem acabado de conhecer e ainda estivessem numa fase de quebrar o gelo ou que fosse exigência das criancinhas, ressentidas depois de um debate acalorado sobre a temperatura da água do banho.

Acredito no respeito (apesar de não ser praticante regular), mas neste aspecto só me faz sentido se for o filho a tratar os pais na 3a pessoa e, mesmo assim, isso tem muito a ver com o ambiente de educação. Tratar um filho por você é, no meu pouco modesto entender, criar uma barreira de respeito falso que tem apenas a ver com concepções estranhas de estatuto e tradições tão válidas como a história de cumprimentar com um beijo ou dois.

Mas, bem vistas as coisas, tomara eu conseguir tratar o ténis por tu. O resto, é problema dos respeitáveis pais e seus excelentíssimos filhos.

On the backcourt – Air, Kelly watch the stars

9.4.08

24 Horas de Le Mânfios


Ninguém me tira da cabeça que uma razão não revelada para a escolha da nova ponte no eixo Chelas-Barreiro. Aliás, já que estamos em clima de teorias da conspiração, sempre achei interessante a lenda que conta que só não há Metro em Lisboa até ao Aeroporto da Portela (seria uma extensão lógica da linha do Campo Grande) porque isso magoaria de forma grave os sentimentos e a carteira da classe taxista.

Tendo isto em conta, relatórios do LNEC e protestos de estorninhos e outra fauna natural à parte, a questão é: que grupo beneficiaria mais com uma ligação Chelas- Barreiro, tirando aquela massa disforme a que se chama população da área metropolitana de Lisboa?

Estamos portanto a falar com alguém com um poder económico avassalador para a nossa indústria automóvel e também para os cofres das autoridades. Um grupo que, entre outros feitos, mudou o conceito da partilha de som em andamento e salvou da extinção a cor amarela em carros.

Deixo mais umas pistas: foto acima, bonés e brilhantes à Cristiano Ronaldo da loja dos 300 e discotecas no porta bagagem.

Como vai ser bom, ter uma pista mesmo à porta de casa. Gentleman, start your engines!

Troando nas colunas – Cake, The distance

7.4.08

Ben Hur-off



Adeus Charlton Heston. Não sei porquê, mas creio que nos continuarás a visitar todas as Páscoas.

PS – O título é uma piada lamentável; o blog também; o autor nem se fala. É este o pilar de coerência que mantém isto vivo. E, com a palavra pilar também se podem fazer posts. Talvez amanhã, se não morrer mais ninguém que propicie piadas infames.

Separando as águas - Queens of the Stone Age, Go with the flow

4.4.08

Justiça Postiça

Desde a antiguidade ou, pelo menos, desde que um indivíduo de barba, sandálias e fama de milagreiro foi condenado, é comum ouvirmos uma frase proferida por muitos suspeitos de crimes – “Acredito na Justiça” ou, para o arguido dotado de maior vocabulário “Acredito plenamente na Justiça”.
É certo que esta bonita frase tinha na sua génese uma premissa bastante simples – Fui acusado, mas estou inocente. Sendo a justiça, como o nome indica, justa, basta-me acreditar nela, para saber que vou ser ilibado.
Tudo isso é muito bonito, mas o criminoso, que pela sua natureza é indivíduo dado a trafulhice, rapidamente percebeu “Espera, se eu, mesmo culpado até ao tutano, disser que também acredito na justiça, pode ser que pensem que estou inocente, incluindo a senhora da balança e dos olhos vendados.

Como é óbvio, perdeu-se o critério. Qualquer indivíduo acusado ou suspeito a primeira frase que diz mal lhe põem um microfone à frente começa por “acredito ou confio” e acaba em “justiça”. Quem se lixa são os juízes que, para além de mal pagos, são agora obrigados a desiludir gente que deposita total confiança nas suas decisões, desde que estas digam que são inocentes.

No entanto, em Portugal algo está a mudar. Há mais honestidade por parte dos realmente culpados, que agora podem dizer de forma completamente franca que acreditam na Justiça. Não porque sejam inocentes, mas porque sabem que a Justiça portuguesa há de arranjar maneira de os absolver. Seja por prescrição, escuta ilegal, facto inadmissível, catástrofe natural ou porque os acusadores são queixinhas, vale a pena acreditar na Justiça, porque ela é a melhor forma de sair em liberdade.

Visto isto, quem está agora lixado é o inocente que seja acusado ou dos lesados por crimes. Porque a estes também só lhes resta dizerem o mesmo que o verdadeiramente culpado, acender uma velinha e sujeitar-se ao olhar de desdém deste “Olha, já viram a lata destes. A usarem os mesmos truques que nós, depois não admira que demoremos anos a ser ilibados”.

Jovem crédulo e inocente que sou, eu também ainda acredito na justiça, mas ponho-a na mesma categoria que os casinos. É certo que há quem consiga sair a ganhar, mas são muitos mais os que ficam a perder. É tudo uma questão de sorte.

Transitando em julgado - Curtis Mayfield, Superfly

3.4.08

Bocas do Inferno

Dizem-me que coisas estranhas andam a acontecer pela calada da noite nas matas de Sintra. Contam-me que grupos de vegetarianos e, imagine-se, adeptos da macrobiótica se juntam para derramar gotas de limão sobre tofu, dizimar ninhadas de rebentos de soja e sacrificar Bambus inocentes, tudo ao som de música étnica que não lembraria ao próprio demo.

É triste e eu não queria, mas face a estes relatos, vejo-me finalmente obrigado a acreditar em rituais seitanicos.


Tocando na alma - Soul 2 Soul, Back to life

2.4.08

Nova vida para os objectivos de vida


Diziam os clássicos que, para uma pessoa obter uma sensação de plenitude e dever cumprido da sua existência, era necessário plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Ora os clássicos são gente que não conhece os dias de hoje, caso contrário fariam parte dos modernos e pouco tempo teriam para filosofias bacocas.
Mas, se é possível criar uma adaptação desta trilogia de género “Guia Michelin para quem precisa de Orientações de Vida”, ela provavelmente teria por base estes três pilares:

1. Corta a árvore que o teu pai plantou e guarda a madeirinha em local seguro – O mundo já está lixado de qualquer maneira, por isso mais vale que tenhas a madeira pronta para uma jangada, prevenindo a subida das águas. Se o teu pai não plantou uma árvore, esquece o Wall Street Institute e investe na natação.

2. Tem um cérebro – A parte de ter um filho não tem segredo. Fora pormenores, esse é um processo que não sofreu grandes alterações ao longo da História. Pronto, surgiram as instituições bancárias de fluídos corporais, o álcool e o banco traseiro dos automóveis, mas essencialmente o processo mantém-se. Já o facto de ter um cérebro (activo) continua a ser algo bastante mais difícil de provar para muitos o que, paradoxalmente, muitas vezes se traduz na concepção de muitos filhos.

3. Ler mais de um livro – Há que ter consciência da realidade. Escritores encontram-se por aí a pontapé (violência bem merecida face a algumas atrocidades literárias), leitores de qualidade tendem a escassear. Nalguns casos talvez a culpa seja da conjuntura adversa ou de uma conspiração extra-terrestre, noutros será pura inépcia.
Este blog é uma excepção, leitores vão havendo, escritores nem vê-los.


Tocando por objectivos - The Roots, The Seed (2.0)