31.3.08

DisConcordância

Sou a favor da paz mundial, da luta contra a fome, do fim dos toques polifónicos em locais públicos, da lei do tabaco, da ASAE, da chacina indiscriminada de pombos e da proibição da utilização de manga cava em homens fora de recintos desportivos e zonas de obras.
Agora que já ficou estabelecido que sou um indivíduo de convicções e que até alinha pela maioria em assuntos de nomeada vamos ao reverso da medalha, que tem que ver com uma certa comichão, diria até eczema palpitante, que me é provocado pela espiral de desequilíbrio opinativo que existe por aí.

Não se pense que este é um post de ofensas gratuitas, esses são só às terças e quintas. Este é um post que lida com o facto de haver uma malta (uma classificação interessante, que serve para tudo de ministros a taberneiros) que cada vez mais se resume a dois padrões de opinião: dizer mal sem critério e o elogiar sem mérito.

Poderão vocês dizer: “Mas, meu pulha, não é este pasquim um exemplo de maledicência e verve de índole duvidosa?” É, mas tem um critério – o meu. E, visto que têm a clara vantagem de não termos andado juntos na escola, não há entre nós nenhum laço que vos impeça de me dizer abertamente para ir pentear símios ao deserto, caso leiam algo que não vos agrade.

O que me importa realçar é que, com a hipocrisia e o individualismo a fazerem cada vez mais parte do quotidiano, obter uma opinião realmente honesta começa a ser tão raro como descobrir um futebolista da Primeira Liga com bigode.
Se é para bater num ceguinho, toda a gente bate, até trazem amigos para ajudarem à festa, mesmo com o ceguinho já estendido no chão. As posições de poder, como o Governo, o patrão ou o professor (com mais de 1,60m para excluir epísódios tipo Carolina Micaelis), são claros exemplos disso. Quem nunca disse mal de qualquer um destes sem se preocupar muito em fundamentar as suas razões muito possivelmente também trata o Carlo Collodi por paizinho.

Por outro lado, muito em voga temos o igualmente sensaborão elogio sem mérito, também conhecido por elogio com falta de tomates. A honestidade e a frontalidade às vezes doem e como, tirando uma % de gente que gosta muito de cabedal e espigões, o ser humano não aprecia muito a dor, especialmente a que atinge o ego, é bem mais fácil dizer que o trabalho está bem feito (para quem quer ir para o desemprego), que o filho realmente tem jeitinho para a guitarra (pelo menos tem unhas compridas), que este foi o poema mais bonito que eu já li (alguém pague o resgate ao poeta preso dentro de ti), que o jantar (com lavagem ao estômago de sobremesa) foi divinal e que sim, que esta foi a minha primeira vez (num dia par de Março) e que foi fantástico (por comparação com extrair um siso). Com sorte, alguém depois dirá a verdade e, visto que muito possivelmente será o único, rapidamente se arrependerá e aprenderá a lição.

Não tenho crédito suficiente para concorrer para moralista, nem estou isento em culpas no cartório, no notário, no arquivo civil, etc. Mas também evito fazer fretes, prefiro não opinar a elogiar por favor e respeito o valor de uma boa crítica.
Como é óbvio, o facto de sermos (maioritariamente) humanos vem com as bolas extra do livre arbítrio e da imperfeição, o que não deveria servir apenas como justificação para não sair da cepa torta, mas também como forma de ter orgulho em ser uma ovelha negra no meio de um rebanho de mansidão encapotada.


Por falar em moralismo – Kanye West, Flashing Lights (o vídeo não sei é moral ou se dá moral, depende)

27.3.08

A propósito da descida do IVA

Visto que é de palhaçada que falamos, por culpa deste senhor, esta tarde uma música estranha e alarvemente irritante começou a soar nos meus ouvidos. Escravo da curiosidade como sou, fui desencantar ao recanto da minha mente, mesmo por detrás de uma porta onde uma caveira e dois ossos cruzados escondem as coisas que a minha memória se esforça por apagar, mas que não o faz totalmente de forma a prevenir desastres nucleares.

Foi assim que cheguei a este lixo, que nem as moças voluptuosas que lá constam servem para atenuar uma dor que se funde entre a memória e o aparelho auditivo.

E, como não gosto de sofrer sozinho…

26.3.08

A leste do para riso

Tenho uma empregada de leste que é muito simpática e faladora. É o que se chama uma armena cavaqueira.



Por falar em abuso de químicos - Chemical Brothers, Surface to Air

25.3.08

O Bom da Páscoa, o Mau das Fitas e o tradutor Vilão

O bom da Páscoa para mim é que tudo tem a ver com ressuscitação. Ressuscitam-se os fins de semana com três dias, as procissões de toscos até ao Algarve, as reportagens desinteressantes sobre folares gigantes e afins, os filmes do mofo recorrente e o meu ódio sobre legendagens mal feitas.Visto que acidez em níveis exagerados faz mal ao estômago, vou respirar fundo e abordar apenas os dois últimos pontos.

Ben Hur, Os 10 Mandamentos, Quo Vadis e Spartacus. Se passar uma Páscoa sem que um destes filmes épicos passe na televisão, preparai-vos pecadores, porque o fim do mundo está próximo. É como se na sala de controlo da programação existissem umas Bobines dos Mandamentos que dissessem “Passarás o mesmo filme pascal anualmente até ao final dos dias, para que a ira do Senhor não caia sobre ti e Portugal tenha mais hipóteses de ter alguém no Guinness por saber as falas todas do Quo Vadis de cor”. Obviamente o mandamento possui também uma alínea natalícia para a Música no Coração.

Para além disto, decorre também uma conspiração inter-canal, que se expande aos exclusivos da TVCabo, que visa tornar o Armageddon o filme que mais vezes rodou no última década. Para onde quer que faça zapping, há 38,4% de hipóteses de encontrar Bruce Willis a tentar salvar o mundo, Liv Tyler a fazer beicinho e Ben Affleck a fazer o que faz melhor, ou seja, de mono. Dá-me vontade que caia um meteorito ou pelo menos um calhau de dimensões consideráveis na cabeça da gente que ainda não percebeu que esse filme já era mau no cinema e que não precisamos de uma 143ª vez para tentar mudar de opinião.

Finalmente, a legendagem. É certo que em todas as áreas há incompetentes e que errar é humano. Na área da legendagem de filmes (tv e cinema) sou levado a crer que há gente muito humana, embora também possa dizer que a miséria é ligeiramente menor que há alguns anos. Mesmo com atenuantes que possam haver, o nível médio continua a ser muito fraquinho e embora por vezes a legendagem seja o único ponto de comédia num filme dramático, não é demais pedir para haver um pouco mais de atenção. Ou então que continuem a deixar o email do responsável pela legendagem em letras bem visíveis no fim da película, para que indivíduos de má índole como eu próprio tenham alvos bem mais precisos nas suas comunicações, em vez de servirem como desculpa para gente que gosta de perder tempo a ler baboseiras online.

Por falar em película e em mofo – Duran Duran, Girls on Film

20.3.08

Três boas razões para não casar

Há dias em que penso como seria se algum dia passasse por um cerimonial de matrimónio convencional e há dias em que penso como seria se me depilasse por completo com cera. Como o primeiro pensamento, depois do desempate nos penalties, é mais agradável que o segundo, permitam-me umas breves linhas sobre o assunto.

Antes de mais, vou saltar a chamada "despedida de solteiro". Para perderem tempo com cenários corriqueiros de álcool, deboche e poesia lírica, encontram muito melhor na Internet.

Mas, esperem, a cera já está quente e portanto as minhas prioridades mudaram. Deixo-vos então com um pequeno apontamento, que consulto religiosamente quando me surgem estas ideias nupciais delirantes. No fim, só tenho um lamento - é que se fosse mesmo assim, era já amanhã.

18.3.08

Cardinali, roi-te de inveja




Chegou à minha atenção que se cumpriu ontem o 30º aniversário de funcionamento ininterrupto de uma actividade circense em Portugal. A Mestre Alberto João Jardim e sua troupe, os meus votos de parabéns. Não é todos os dias que se atingem três décadas de sucesso a fazer contorcionismo político, equilibrismo democrático, magia orçamental e apontamentos de palhaçada ao mais alto nível.


PS - Mostrando a minha generosidade pascal, a Cabine de Som disponibiliza em edição limitada um tema do último álbum de Nick Cave. Aceitam-se bilhetes para o concerto como gratificação.

16.3.08

Uma mini maratona mais tarde...

Solto o queniano que havia em mim (e que terminou com um tempo substancialmente melhor que o meu), eis uma primeira verdade absoluta a retirar da edição deste ano da Meia Maratona de Lisboa:

Tal como a água e o azeite não se misturam, o mesmo se devia aplicar aos gordos e à lycra.

É arrepiante ver o resultado da fusão entre o entusiasmo pelo desporto, a falta de prática regular do mesmo e um calçãozinho apertado que ameaça explodir a qualquer momento, tal é a deslocação de massas existente.

Dado o elevadíssimo número de visões dantescas, cheguei a pensar que a prova terminava no 6º Círculo do Inferno e não nos Jerónimos. Restou-me fechar os olhos e correr guiado pelo odor a suor, coisa que só costumo de fazer de manhã, quando a caminho dos transportes.


Mais uma corrida, mais uma viagem - Run DMC - It's like that

14.3.08

Quilos de piada


Tenho um amigo tão gordo, tão gordo, mas mesmo tão gordo que o médico lhe disse para esquecer a banda que aquilo só ia lá com uma orquestra gástrica.

12.3.08

Sei o que fizeste ao cabelo no teu passado



Nos intervalos da minha actividade profissional, que chegam por vezes às 8 horas diárias, sou um ávido compilador de estatísticas inúteis. Sendo esse um hobbie que combino facilmente com raciocínios idiotas, não foi difícil chegar à temática deste post.

Com o apoio do Gabinete Técnico de Sondagens da Universidade de Badmington, posso afirmar com alguma prepotência que, na franja da população feminina entre os 26 e os 30 e poucos anos de idade (ligeiras variações), cerca de 8 em 10 mulheres fizerem, entre os seus 12 e 16 anos, uma horripilante permanente, que as transformou durante algum tempo numa espécie de cruzamento entre um caniche e uma Mariah Carey pré recauchutagem.

Rompendo tabus e explorando territórios proibidos, este estudo concluiu que não é algo de que se orgulhem, nalguns casos há indícios de abuso de dicas por parte das mães, ou excesso de consumo de gomas, revistas Bravo e afins. Existem algumas que possuem álbuns fotográficos com zonas secretas onde ocultam as provas desse erro e outras vivem ainda com o temor de que o Carlitos, garboso e promissor moço com que namoraram no 8º ano e agora talhante, ponha na Internet aquela foto tirada nos Pasteis de Belém, em que o bocado de massa nos dentes é ofuscado pelo penteado “a la Slash”.

As razões para a fatídica permanente divergem, o grau catastrófico da mesma também, mas o facto é que ela existiu e haverá certamente quem ao ler estas linhas core vergonhosamente com essa lembrança. A modernidade dos cortes no Bairro Alto e noutros sítios trendy por aí espalhados há muito que serve como antídoto para essa imagem, que possivelmente causou danos mais duradouros no interior da cabeça do que no exterior.

Nada temam, o protocolo com a Univ. de Badmington obriga-me ao sigilo sobre a identidade de todas aquelas que confirmaram o seu sofrimento às mãos da “Permanente”. No entanto, pelo enriquecimento do espólio desta instituição pública e do meu divertimento privado, estamos abertos à recepção de provas fotográficas.

Quanto a mim, nada temo, abençoado que fui na minha juventude com farfalhudos caracóis que faziam do Marco Paulo clássico um menino de coro. O meu destino ficou aí traçado e, felizmente, não foi com risco ao meio.

Back to the basics - Tracy Chapman - Baby can i hold you tonight (slow que levou ao sufocamento de muito jovem incauto, afogado numa permanente não vigiada).

10.3.08

Quando a cabeça não tem juízo, a ver o Festival da Canção é que se sofre

Sim, quebrei a promessa, investi no erro, desafiei a lógica, quebrei barreiras (com a cabeça), em suma - vi o Festival da Canção. Com uma ou duas excepções, sofri imenso, naquilo que me pareceu uma reunião de antigos alunos da Operação Triunfo, mas não cheguei a precisar de lavagem ao estômago.

A minha única satisfação? Saber que há na Bulgária quem sofra bastante mais do que eu.

6.3.08

A (in)validez do palavreado

É certo que a língua portuguesa evolui (ou regride) com o passar do tempo. Nalguns casos essa mutação é de estilo Chernobyl, noutros é simplesmente um adequar de expressões e palavras aos tempos modernos. De qualquer forma, nem sequer querendo entrar no acordo ortográfico para a unificação da língua portuguesa, incomodam-me certas “modas” que fazem com que determinadas palavras se tornem um must ou até mesmo top of mind, o que nos levaria ao passo seguinte que é o abuso de anglicismos desnecessários. Mas isso, for the time being fica em standby.

A palavra que me tem feito mais comichão do que as palavras do ministro Jaime Silva fazem ao Paulo Portas tem origem nos transportes colectivos. Antigamente, quando eu era pequenino, fascinava-me o termo “valide o seu título de transporte”. Dava assim um certo ar cerimonial a uma coisa que os comuns mortais motoristas traduziam por “pica lá o módulo pequenote ou ponho-te lá fora”.

Pois, tal como eu cresci, também o termo “validar” ganhou nova dimensão e é hoje um gigante na linguagem empresarial, uma espécie de Belmiro de Azevedo das palavras do mercado nacional.
Nada se faz sem ser previamente validado e tudo é inválido se a validação não corre bem. Os termos “confirmar”, “vê se está tudo bem” ou “verificar” perderam claramente quota de mercado e ponderam alguns deles concorrer à reforma antecipada. Se esta for validada é claro.

Para mim, “validar” continua a ser linguagem histórica de autocarro, eléctrico ou Metro. Aplicá-lo como se não houvesse amanhã na conversa de escritório ou no palavreado profissional para mim tem a mesma “validade” de uma porteira que ande todos os dias a lavar as escadas envergando vestidos Versace. Ou seja, é possível, mas claramente despropositado.

Como tal, surpreendam-me com termos inusitados, invalidem as minhas palavras à bruta, estilo malho da Feira Popular nos joelhos, mas poupem-me a “validar” argumentos. Para esse peditório eu já (invali)dei.

4.3.08

De boas intenções está a arte cheia

Apesar de ter desistido da carreira de leiloeiro de obras de arte cerca de três minutos depois de ter pensado em começá-la, o meu interesse por esta temática encontra rival apenas no Subbuteo.
O que me fascina na arte, especialmente na contemporânea/moderna é o facto da premissa ser cada vez mais focada na “intenção” do artista. Se o episódio do lavatório rachado que também era obra de arte, cujos bocados foram posto no lixo de uma galeria por uma empregada da limpeza é conhecido por muitos e ainda hoje me faz rir, o processo como esse lavatório se transforma em obra de arte será também porventura risível.
Não pretendendo pôr em causa o valor de instalações inovadoras, incluindo a famosa “Racha” de Doris Salcedo, sobre a qual já divaguei lá mais para trás, não são as peças em si que me chateiam, são as intenções.

Digamos que um artista resolve começar a fazer instalações com peças de fruta com a marca de uma dentada. Ok, estranho mas aceito, pode ser inusitado além de dar dores de barriga. O jovem decide dar uma intenção à obra, classificando-a como “O desperdício de recursos pelos povos abastados, que preferem deitar fora os seus excedentes e inutilizá-los com a sua marca, ao invés de partilhá-los com aqueles que deles têm falta”. Aí o caldo já começa a entornar, pois é tão fácil dizer isto como por outro lado alegar que são “Os danos infligidos pela humanidade à Natureza, que fazem com que seja impossível voltar atrás, rumo à destruição progressiva do meio que nos garante a sobrevivência”.
Nos meus circuitos algo danificados a questão passa por isto: é mais fácil criar uma intenção, de forma a fazer com que as pessoas se identifiquem com uma peça, do que deixá-la simplesmente ser e cada um que decida o seu valor/interesse. Nem toda a arte tem que ser coerente digo eu e se existem coisas nesta vida que podem ter valor sem ter significado concreto, porquê trivializá-las com conceitos que qualquer mafarrico com imaginação pode inventar na hora.

No entanto, visto que me assumo como mafarrico com imaginação e fechando o círculo em relação ao tema dos leilões de arte e à fortuna pessoal que pretendo acumular, deixo uma proposta. Se és artista e pretendes dar significado aos potes de cerâmica ligeiramente defeituosos que fabricas no forno da tua avó ou fazes bonitas obras com aparas de lápis mas não fazes porra de ideia do que aquilo pode representar, contacta-me. Vais ver que tão facilmente vendo os meus princípios, como as tuas obras vão começar a sair como pãezinhos quentes, assim que a tua intencionalidade se reflicta como “A forma como a ausência de transmissão do conhecimento de geração em geração, faz com que a imagem do que é tradicional seja cada vez mais deformada pela falta de envolvimento das novas gerações” ou “Os despojos, a floresta e o homem. O cruzamento do progresso com os materiais que em tempos constituiram a riqueza da Natureza rumo a um futuro sem forma”.

Como vêem é fácil, diria até muito mais fácil do que dar a qualquer post deste blog uma intenção que lhe confira algum valor acrescentado. Nesse aspecto, acho que não há arte nem engenho que me valha.