28.2.08

Pode indicar-me o melhor caminho para a sua carteira?

Este episódio pode funcionar como metáfora moderna ao processo utilizado por muitos governantes para esmifrarem o cidadão comum. É tudo feito de uma maneira tão natural, de forma tão educada, que não só ficas sem carteira, como ainda agradeces. E no fim de contas, é bem provável que te sintas parvo sem perceber bem porquê. Ou então percebes... só que já é tarde demais.

26.2.08

You've come a long way baby




O espírito de revolta e a maturidade podem conviver.
Às vezes precisam é de tempo para se conhecerem.

Este país não é para alguns velhos

Como o título indica, começo o texto com um pequeno apontamento cinematográfico. Tem a ver com o facto de os senhores da TVI não perceberem muito bem para que serve um compacto dos “Óscares”. Por norma, um compacto é um resumo do essencial da cerimónia, transmitido para que ratos como eu, que abandonam o barco do directo às primeiras horas da madrugada, possam ter a satisfação requentada de ver o que toda a gente já sabe no dia seguinte.
Transmitir esse compacto à uma e meia da manhã é idiota, não só porque não serve os meus propósitos, mas também porque se um directo até às cinco da manhã ainda seduz alguns, um compacto até às três e tal… Por isso, obrigadinho ó Moniz e desejo para ti e para os teus um penteado igual ao do Javier Bardem no filme premiado no certame. O que, para alguns, ainda deve ser uma clara melhoria.

Noutro registo, este título tem a ver com o facto de nas próximas chuvas diluviais eu estar disposto a juntar uma carrinha de eternos insatisfeitos com tudo e mandá-los para a ribeira mais raivosa que se destacar.
Quando Moisés caminhava junto às águas, o Senhor falou-lhe dos transportes colectivos e deu-lhe algumas regras básicas para o funcionamento dos mesmos, que Moisés apontou nas costas do seu cartão Lisboa Viva. Não sabendo muito sobre religião, sei que um dos mandamentos dos transportes diz:
“Mandarás pararar o autocarro que se aproxima, se nele desejares viajar”.
Se é verdade que muito mudou, esse princípio continua em vigor, pelo que tive dificuldades em perceber um episódio a que assisti ontem. Estava eu numa paragem, quando se aproxima um autocarro, em marcha lenta. Não me interessando o destino do mesmo, permaneci imóvel, tal como o resto do pessoal na paragem. Só quando o dito cujo já vai a passar a paragem é que uma senhora entradota e anafada, portadora do típico botim a la Robin dos Bosques, decide parar de galhofar e fazer um gesto, seguida por outra que decide saudar a traseira do autocarro, levantando-se. Como é óbvio, ficaram à espera do próximo.
Até aí tudo bem, tirando que pelos vistos a senhora dos botins era tia do Carvalho da Silva. Toca de começar a dizer que era uma vergonha, que só lhe tinha faltado pôr debaixo do autocarro para ele parar, que já não havia respeito e eu a ver que ela já estava a tirar uma pá da mala para desenterrar o Salazar logo a seguir.
Apesar de pensar que todos tinham visto que, neste caso, a culpa era mesmo da distracção das velhotas, levantou-se o óbvio burburinho típico destas ocasiões, em que o que é preciso é linchar verbalmente alguém para animar o dia. Só a velhota que se tinha levantado tardiamente permanecia calada. Pensei, coitada, esta que até está caladinha na volta é a que mais transtorno lhe faz e não está a reclamar, nem que fosse para aquecer. Pensei cedo demais…
De repente, como se possuída pelo espírito de Chucky, o utente dos transportes públicos diabólico, a velhota levanta-se novamente e começa a vociferar alto e bom som:
“O problema é que eles são mal amados em casa e depois vingam-se nas pessoas. As mulheres não lhes dão o que eles querem e depois quem paga somos nós. Não souberam escolher, são mal amados e vêm para a rua desforrar-se”.
Silêncio na paragem, atmosfera Freudiana ao rubro e tudo a entrar à pressa no próximo autocarro, tendo eu ideia que muitas pessoas nem se preocuparam a ver para onde é que este ia.
Ficou apenas para trás a velhota Chucky. Que num ano em que tanto vilão foi destacado nos Óscares, tinha potencial para ombrear com qualquer um. E mostrar-lhes quem é que é mal-amado à bruta…

20.2.08

A exemplo da roda quadrada

É certo e sabido que a Humanidade é dada ao regabofe da criatividade de quando em vez. Como tudo o que sai da mente humana, umas vezes essa criatividade contribui positivamente para a evolução/bem estar da espécie ou mais especificamente do tipo que teve a ideia, outra vezes é aquilo que alguns definem como “não tem ponta por onde se lhe pegue”.
Serve esta introdução estilo darwinista para falar de um artefacto com que me tenho cruzado numa base diária. É esse artefacto uma cadeira vibratória-relaxante, sem dúvida um passo em frente para todos os calões que pretendem retirar o benefício máximo de ficar de cu sentado durante uma eternidade.
Não pondo em causa o já duvidoso valor de um artefacto desta espécie, atentem ao seguinte: esta sedutora cadeira vibratória-relaxante está no meio de um corredor de uma pseudo-mini superfície comercial (vá lá, um aglomerado de lojas). Para além disso, tem uma ranhura para inserir moedas, de forma a que um transeunte possa beneficiar de alguns minutos de relax contra pagamento.
Uma abelha Maia para os putos? Vá lá. Uma máquina de Trivial Pursuit para aqueles que se recusam a ver programas de conhecimento apresentados pelo Jorge Gabriel? Admite-se. Até um daqueles macacos que insistem em saber mais sobre nós tipo “Como te llamas?”, uma vez mais a troco de dinheiro, até isso eu concebo.
Agora, num sítio frequentado maioritariamente por idosos para os quais montanha russa ou cadeira vibratória-relaxante são sinónimos, com cerca de 10 a 20 lojas, sem qualquer privacidade, quem é que vai ser o idiota a recorrer a tão brilhante jogada comercial?
Eu diria que ninguém, mas da maneira que isto me enerva, até já estou a ponderar passar por lá hoje ao fim da tarde e descobrir o segredo que vibra por detrás da cadeira-vibratória-relaxante-no-meio-do-corredor-do-pseudo-espaço-comercial.

18.2.08

O 1º Blog Submarino




Numa iniciativa que considero inédita, escrevo-vos a partir do túnel do Campo Grande e a imagem que acompanha estas linhas foi tirada com a câmara do portátil. Como devem calcular, as circunstâncias impedem-me de dizer que isto tem sido uma seca, até porque os tipos da Protecção Civil e dos bombeiros são uns porreiros e até já me fizeram chegar uns óculos sub-aquáticos e um tubo de snorkel.

O trânsito debaixo de água é diferente e aqui não faz sentido dizer "Passa por cima", porque desde que aqui estou já passaram dois Corsas e um estafeta já fizeram isso, aproveitando a corrente. Também não existem buzinadelas incómodas, já que debaixo de água só se vêem umas bolhinhas tipo aquário, que frustram mais do que aliviam os típicos trompeteiros do Apocalipse.

Apesar dos romenos de escanfrando que me tentam vender a CAIS e o borda d'água com as marés, isto até é sossegado. Já utilizei o telemóvel e no restaurante japonês já me garantiram que fazem entregas só do molho e do arroz, já que o peixe cru eu tenho facilidade de arranjar.

Quem vai ficar a perder creio que é o Oceanário, pois mais uns tempos e a biodiversidade marítima dos túneis de Lisboa vai pôr os amigos da Expo a ver navios. Só me incomodou ter começado a ver o Waterworld enquanto esperava. Ainda não estou convencido que essa história de beber urina reciclada é saudável.

Como prova de que tenho sangue na guelra e me sinto como peixe na água, prometo continuar a mandar relatos desta experiência de vida, até que este país deixe de meter água, o que pode demorar um bocadinho...

14.2.08

Neste dia seja original, invista em plásticos

Por esta altura, milhares de enamorados pelo mundo inteiro aprestam-se a cortar os pulsos ou, na pior das hipóteses, ver o Benfica a jogar durante uma hora e meia, punindo-se por não terem encontrado a prenda perfeita para o seu mais que tudo.

A caça aos peluches é hoje em dia uma actividade só para duros e há até avisos nos jardins infantis para que os pais não deixem crianças sozinhas com um peluche nas mãos dado o risco de, tal como as focas bebés, levarem uma paulada na cabeça por parte de um entusiasta de S.Valentim.

Quanto aos chocolates, estão para a mulher como a cerveja está para o homem, em termos de danos corporais a médio prazo. Por isso, se não está a planear já o próximo disfarce de Carnaval como barril de imperial ou como clone da Valentina Torres, é melhor deixar as guloseimas para uma próxima ocasião. Isto, se já tiver escoado o stock de chocolates que as suas tias lhe deram no Natal de 2003.

Para quem sorri porque ainda não mencionei os jantares a dois, podem dar descanso ao marfim. Se o jantar for num restaurante, quer mesmo correr o risco de encontrar o seu marido/mulher no mesmo sítio onde vai com o seu par romântico? Se não corre esse risco, pense na grande probabilidade da ASAE interromper o mesmo e estragar o clima, para condizer com a carne que estava a comer. Se planeia jantar em sua casa, vai ter que pedir à sua mãe para vir mais cedo preparar os ingredientes, confeccionar o menu caladinha, não comentar a roupa do seu amor e ver a novela sem som, enquanto os dois tentam aproveitar o espaço que sobra no sofá para andar na marmelada.

Finalmente, o grande segredo de S.Valentim: o poder das rosas. Tal como o mítico Segredo, que vem passando ao longo dos tempos por alguns das mentes mais brilhantes da humanidade, as rosas são a chave do sucesso para o dia 14 de Fevereiro. Não só trarão felicidade à sua cara metade, como à do vendedor das mesmas, que fará neste dia o lucro de dois meses à conta de devotos do arranjo floral. Mas, pensando bem, será uma boa ideia fazer recair a sua escolha num espécime mercenário, que se vende a qualquer tipo de evento, desde a remoção do baço da prima Carminda, ao funeral do avô Libório, ao casamento da vaca da Cesaltina ou a eleição da Miss Famões? Deixo a escolha ao vosso critério, mas vendo bem as coisas, o último milagre com rosas em Portugal já tem alguns séculos.

Por isso, se quer investir no sucesso de uma relação, dê ao cavalheiro um nariz e à dama uma lipoaspiração. Segundo as últimas notícias, as lipoaspirações devido à “tendência para as coxas largas e barriga grande das mulheres portuguesas” batem largamente os implantes de silicone em termos de número de intervenções, ao passo que nos homens é a rinoplastia a operação dominante. Segundo o talhante consultado, isso deve-se: “à carga importante do nariz do homem, que talvez tenha a ver com aspectos relacionados com a masculinidade e virilidade”. Ah, Pinóquio meu malandro, tu é que a sabias toda.

Como podem ver, o sucesso no dia dos Namorados pode ser fácil e marcar para toda a vida o seu parceiro. A solução está nos talentos do plástico, tanto os do cirurgião, como o do cartão que vai pagar por isso tudo.

12.2.08

Pequenos sinais que nos indicam que o fim do mundo é relativo e a imbecilidade é absoluta

Tempos houve em que por apenas mais X, se comprava o jornal e se recebia um DVD. Hoje em dia, já existem filmes em DVD que oferecem jornais como o Correio da Manhã ou o JN por apenas cerca de 1 euro.

Tempos houve em que o Pavilhão Atlântico só servia para receber concertos de grandes bandas. Agora serve para enterrar outras que, segundo os princípios do que é música, nunca deviam ter nascido.

Tempos houve em que conotar escuteiro e parvo era algo tolerado pacientemente pelos parvos. Hoje em dia são os escuteiros fazem suspender campanhas em que se sentem ofendidos por poderem ser identificados como parvos. Têm razão, isso só prova que na realidade são imbecis.

Tempos houve em que o provérbio que dizia “O carro e a mulher não se emprestam a ninguém”. Hoje, com o advento do swing, mais facilmente se dá uma volta na mulher do amigo do que no carro do mesmo.

Tempos houve em que esta arrepiante introdução fazia parar famílias em frente à televisão depois do jantar. Agora o mais provável é isso acontecer numa das 42mil séries em que entra um cadáver, um indivíduo com muita sapiência e maquinaria que conjuga o melhor da BIMBI e da tecnologia científico-criminal.


6.2.08

Arrenda-se, por preço módico



Espaço temporariamente cedido a restaurante de uma estrela na escala de um fabricante de pneus com um boneco gordo no logotipo, bons espaços, boa localização e vistas largas, renda mensal acessível - 500 Euros.

Disponível daqui a perto de 16 anos, contactar funcionário camarário.


PS - A Porta 69 aqui não funciona. No Parque Eduardo VII esse esquema só funciona em áreas mais recônditas.

4.2.08

Quem é que não é parvo?

Confesso que não vou muito à bola com escuteiros, isto não pondo em causa os predicados que o escutismo possa ter, já que no meu caso é mesmo uma questão de embirração pessoal. E não, não fui molestado por nenhum escuteiro quando era pequeno.
Mas, à parte a minha posição pessoal, que é que isto tem a ver com o MediaMarkt? Pelos vistos tudo, na sequência de uma campanha publicitária que tem como tema central um país fictício (até ver) chamado Parvónia.
Antes de me alongar mais, eis os dois anúncios de televisão:





Ora, parece que os mesmos anúncios têm causado viva indignação junto de escuteiros, seus familiares e duas misses no concelho de Sintra. Dizem os mesmos que um dos personagem retrata de forma ridícula (ou seja, ainda mais do que na realidade) um escuteiro e é exigida a retirada da campanha e um pedido de desculpas do Mediamarkt, instituição que já nos deve outro desde que se atreveu a colocar uma campanha com o Fernando “Preço Certo sem pescoço” Mendes nas ruas.
O tom da campanha é evidentemente humorístico, arrisco eu a dizer num desafio lógico com um grau de dificuldade de cerca de zero. Quem não quer ser parvo, não lhe veste a pele e, se de facto os escuteiros não se identificam com aquele personagem, porque raio é que vão credibilizá-lo?
Ainda não vi os políticos, os militares e as misses a reunirem-se em catadupa, para se munirem de archotes e irem queimar o Mediamarkt mais próximo, talvez porque até esses saibam que a melhor maneira de fazer morrer uma piada (seja ela de bom ou mau gosto) é ignorá-la.
Ao mostrar uma lustrosa tacanhez mental, o que os escuteiros estão a fazer é puxar para si o personagem, que agora sim está conotado de perto com estes marialvas de calção e lencinho. Ele é petições, indignações, é levar a história do “sempre alerta” ao absurdo. O Ricardo Araújo Pereira que se cuide, porque depois da rábula do bombeiro e do INEM, se se corta em casa ou tem um incêndio no quintal, basta o exemplo dos escuteiros começar a ser seguido e o rapaz bem pode tentar apagar o fogo com o sangue.
O humor, como quase tudo, é passível de ser discutido, mas se eu já achava alguma piada aos anúncios (mais ao primeiro que ao segundo), acho hilariante a reacção desmedida e desnecessária dos discípulos de Baden Powell.
Deixa lá ver até onde isto vai, mas visto que rir faz bem, é continuar com este tipo de boas acções diárias. E isto vale tanto para o Mediamarkt como para os escuteiros.