7.11.08

Aldeia dos Artesãos - Reserva Natural para Profissões em vias de extinção


Olho à minha volta e denoto uma certa preocupação com o futuro de certas espécies animais, cada vez mais ameaçadas de extinção. Tendo em conta que nos planos do catolicismo não há ressurreição para a bicharada, tal atitude vê ainda mais reforçada tanto a sua necessidade como a sua nobreza.
No entanto, não vejo preocupação semelhante em Portugal quando penso no maior animal de todos, vulgo nós, e em algumas das suas espécies mais exóticas. E, antes que algumas mentes divaguem, não me refiro a strippers e a maus actores, espécies essas que me parecem em claro crescimento.

Falo dos sapateiros e dos amoladores, de marceneiros e outros que tais, cujos últimos exemplares já se contam quase pelos dedos das mãos e, nalguns casos, só já os avistamos a serem torturados em reportagens de noticiário com música de fundo melodramática. Diria mesmo que as hipóteses da maior parte desses artesãos encontrar um discípulo que seja e assegurar “descendência” são quase proporcionais às chances de eu me tornar campeão nacional de breakdance .

Por isso, não percebo porque não se criou ainda um parque semelhante, por exemplo, ao Badoka Park onde estivessem reunidos alguns dos artistas que restam nos mais diversos mesteres, homens e mulheres, num cenário tipo Aldeia dos Artesãos onde pudessem conviver com jovens rústicos e rústicas, sem aspirações pós-modernas, tendo em vista a sua reprodução controlada em ambiente vigiado.

As cri(anç)as sorveriam todo um ambiente de artes tradicionais, a par de umas boas chapadas para uma educação à antiga, aumentando assim exponencialmente as hipóteses de sobrevivência da raça. O parque seria aberto às visitas de crianças e adultos, mas apenas os primeiros teriam contacto directo com os artesãos. Primeiro, porque é muito mais divertido descobrir por si só, espécies estranhas sobre as quais só ouvimos os nossos avós falar. Segundo, para evitar que empresários do Norte e jovens freaks com a mania que são muito retro perturbassem os rituais dos espécimes protegidos.

A Aldeia dos Artesãos daria ainda a hipótese aos pais de, no final da visita, doarem os seus filhos para património da aldeia, caso tivessem comprovativos financeiros que atestassem a sua falência técnica, o sobreendividamento ou a hipótese clínica de que o miúdo nunca viesse a ser jogador da bola. Deste modo, não só se aumentava o número de potenciais artesãos adoptivos, como se reduziria o número de crianças a caminho de uma adolescência que não augura nada de bom.

É certo que ainda faltam alguns pormenores a este projecto, mas se algum governante deste país faz deste blog a parte mais útil do seu dia, é bom que esteja a tirar notas. É que, com uma ideia deste gabarito a germinar, depois ainda se admiram quando eu me rio quando oiço dizer que faltam ideias para o país...

The Tokens, The lion sleeps tonight

2 comentários:

  1. E rendas de bilros??
    Nunca ninguém fala nas rendas de bilros!
    **

    Ps. Fiquei bastante desgostosa com a ideia de não te ver no campeonato nacional de Breakdance...

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  2. É uma lesão (cerebral) antiga que me afasta desses grandes palcos...

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