23.10.08

É-Vidente que não



Entre aqueles que efectivamente têm capacidade para prever o futuro, haverá certamente uma expressão que lhe surgirá na mente ao lerem estas linhas – “Eu já sabia”. A verdade é que depois de este mês ter sido apresentado à Maya, senti que a minha espiritualidade está atingir novos patamares, quase ao nível do meu bom senso.

O meu problema é com a escola de videntes portuguesa, e deixo assim já de fora a classe colegial africana de Metres, Professores, Doutores e outros grandes académicos publicados nos mais reputados suplementos de classificados e em cartões distribuídos à saída do Metro.
Entre grande parte dos videntes portugueses há toda uma espécie de estratégia que me leva a pensar que, ou esta gente vê mesmo o futuro ou então não vê um palmo à frente do nariz. Vejamos este exemplo que se passou perto de mim:

José M. é vidente ou pelos menos pensa que é. Usando o seu talento visionário, vislumbra um espaço numa pequena superfície comercial no centro de Lisboa. Deve também ter visto que nesse espaço já tinha funcionado recentemente um quiosque Vodafone e uma sucursal de unhas para madames, ambas com fracos resultados ou melhor, nenhuns resultados.

José M. terá então amaldiçoado o facto de não ter trocado o seu baralho de Tarot enquanto estava na garantia, já que a visão que este lhe proporcionou estava bastante turva. Decide então arriscar e tornar-se ele próprio o “dono” desse espaço, para exercer o seu mester.
È nessa altura que José M. amaldiçoa também o facto de ter usado um abrasivo na limpeza da sua bola de cristal, que não lhe permitiu ver que o espaço não reunia a privacidade necessária para dizer à Dona Laurinda que o filho não é sensivel, mas sim homossexual. Vai daí, José M. monta uma tenda de campanha dentro do centro, com a discrição que só as cornucópias de diversas cores e feitios conferem. Não contente, resolve queimar incenso na sua tenda/gabinete de atendimento, o que faz com que cada vez que a abre saia de lá uma bruma deveras mística.
Nas primeiras semanas, o entusiasmo de José M. era bem visível, através dos inúmeros cartazes que afixou em todo o centro. Apesar de amaldiçoar os búzios retidos na alfândega tal não lhe retirou vivacidade, já que insistia em falar sozinho como se estivesse a dar uma consulta dentro da sua tenda, uma estratégica comercial inovadora que merece louvor mas que, quando analisada num ponto de contra-luz, se pode revelar pouco produtiva.

E assim, ao fim de um mês, o vidente José M., ter-se-à porventura dedicado a outra actividade quase tão nobre como essa – dar milho aos pombos, uma vez que desmontou a tenda e se fez à estrada, na primeira atitude clarividente que o vi ter. Certamente que, se lhe tivessem perguntado, a previsão da crise do Sub-prime teria sido fácil. Tentar fazer a vida com o futuro das pessoas sem ter condições para isso, isso sim é difícil, especialmente dentro de uma tenda e enebriado pelo fumo do incenso.

2 comentários:

  1. O meu "videntismo" diz-me que esse espaço é algures no Centro Comercial da Mouraria, ao lado, do quiosque do senhor Azad.

    AR

    www.antonioraminhos.blogspot.com

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  2. Nesse caso, caro Raminhos, mantenha-se a salvo no ramo da comédia, porque se é certo que José M. teve um Azad do caraças, o seu espaço era algo distante da Mouraria, embora à distãncia de uma linha de metro...

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