27.10.08

As balelas públicas dos condomínios privados


Como o mercado imobiliário já era pouco especulativo (e que se lixe a facada da Subprime party), de alguns anos para cá foi-se implementando a bela estratégia do condomínio privado a granel.
Se, em teoria a ideia de um condomínio privado tem algum cabimento, embora importada certamente de cenários além fronteiras onde a grandeza (falo também de espaço físico) é mais comum, na prática já chegámos ao ridículo.
Condomínio privado, para mim, é sinónimo de habitação de luxo em espaço reservado, que pelas suas características tem algo que a valoriza e distingue das demais. Seja pela localização de eleição, seja pelos pormenores de construção, seja pelo facto de 80% das habitações estarem reservadas a supermodelos nórdicas. E, por isso tudo e mais um par de botas, os condomínios privados eram caros, muito caros, fora da dimensão comportável aos mortais mais comuns,

Mas, a lógica empresarial inverteu o cenário. Alguém se lembrou que se podia continuar a utilizar a nomenclatura “condomínio privado”, enquanto espelho de habitação distinta e admitamos – elitista, mas agora apenas como chamariz. Ao início, reduziu-se apenas um pouco no luxo, na localização, que agora já não tinha de ser bem perfeita, na % de modelos finlandesas, que também já só era preciso ser para aí de 40%. Tudo isto discretamente, continuando a gritar “condomínio privado”, já que a coisa se vendia e a bom preço.

O consumismo desenfreado, a mania das grandezas e a estupidez em doses generosas fizeram o resto. Hoje em dia temos condomínios privados a 10 minutos do centro de Lisboa (percursos feitos em F-16 é certo) e a 2 minutos de bairros sociais (e gente perigosa, daquela que convém ter muros para evitar). Temos condomínios literalmente debaixo da ponte, temos “Quintas”, “Jardins”, “Terraces” e outros nomes pomposos que escondem projectos feitos às três pancadas e antigas Charnecas e outros lugares de nome bem menos atractivo. Temos construção de segunda a preço de primeira e têmo-la em catadupa, até que a malta perceba que por vinte condomínios que nascem, só um ou dois têm mesmo potencial para o ser e olhem que estou a ser generoso.

Mas, tal como os carros de luxo, os condomínios privados continuam a ser vendidos muito mais facilmente, do que muita habitação mais fiável, mas certamente muito menos chique. É o que dar viver numa era onde mais importante do que pensar se a corda aperta no pescoço, é saber se se vai ficar bem na fotografia quando se for enforcado.

Madness, Our house

9 comentários:

  1. "Privado" só se for porque não é do Estado: se eu vivesse num Condo com 1500 fracções como é habitual, não lhe chamaria privado mas sim gregário...

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  2. Não podia concordar mais. E gostei da parte do "a 10 minutos de Lisboa". Também eu me pergunto qual o meio de transporte utilizado para cumprir os 10 minutos. Só mesmo F16. :-D

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  3. Cheira-me que querias comprar um apartamento em condomínio privado e te recusaram...

    "Better luck next time"!

    Ab

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  4. Tenho mtas ideias da trampa na cabeça meu caro, comprar uma casa num condomínio felizmente não é uma delas ;)

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  5. Preferes a tua casinha social que a CML te deu, não é? Eu sei...

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  6. Mas os sociólogos andam preocupados com isso. Diz que esses condomínios desprezam as cidades, fecham-se em si próprios, e depois os moradores nao comunicam com a cidade... e a cidade que tem tanta coisa para dizer...

    Maryana

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  7. A minha casa é muito pouco social... e aquilo que a Câmara me deu de maior valor foi uma multa...

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  8. Antes de mais, não sou tão caro assim...

    E se, como dizes, pululam ideias de trampa na tua cabeça, obviamente que nelas não se incluem a compra de casa num condomínio, que isso não pode ser considerado uma ideia de trampa.

    Ou pode?

    Agora fiquei indeciso...

    Seja como for, de vez em quando vai arejando essas ideias que pelo menos eu vou gostando de ler o resultado...

    Ab


    (/Noicus)

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  9. Se for um condomínio da tanga, como alguns q descrevi, então é de facto uma ideia assim para o tramposa lol

    Se for num condomínio "a sério", então no meu caso, é apenas irrealista :)

    Abraço

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