30.9.08

Música e actividades amorosas em viaturas

Em dados serões profissionais, não raras vezes me vejo a procurar música de cariz duvidoso para me ajudar na árdua labuta. Ontem, dei por mim viajando por entre os acordes românticos de Amadeu Mota, artista luso que já me tinha supreendido pelo seu hino quase pedófilo “Ela tem apenas 15 anos de idade”.
Desta feita, foi o seu “Amor no Carro” que me levou a reflectir um pouco sobre o sofrimento que ele nos transmite e que, sem dúvida alguma, nos deixa presos numa malha de agonia musical e sentimental.

Mas, oiça-se o tema e comente-se depois.



Então, vejamos o início: um órgão com um ligeiro mood litúrgico mostra-nos que estamos perante um tema respeitoso, mas a guitarrada seguinte diz-nos que lá por haver respeito não deixa de também constar rebeldia neste tema. O tom psicadélico do Casio de feirante que entra em cena serve apenas para provar que estamos perante alguém que toma medicação.

Amadeu começa por nos referir que passou a semana sozinho obcecado por alguém, que esta noite anseia por encontrar. Nota vinte pela motivação e pela garra que certamente terá no encontro, mas também a clara indicação que podemos estar a lidar com um stalker ou, pior ainda, um desempregado com muito pouco que fazer.

Movido pela saudade, Amadeu mostra alguma incongruência gramatical ao referir “Preciso te ver, não me digas que não”. Isto, para além de alguma falta de atenção na tradução do cancioneiro mostra que, quando contrariado, Amadeu pode tornar-se ameaçador, passando de algum distanciamento às exigências no tratamento por tu.

“Paro o meu carro em frente ao teu portão. Ajeito meu cabelo no retro-visor”. Amadeu não se sente à vontade para entrar na casa da sua amada. Pontos negativos para ele. Isto significa que ou tem panca com automóveis ou os pais dela não aprovam o seu penteado, coisa que tenta disfarçar com uma penteadela de última hora, enquanto que reflecte sobre a necessidade de quebrar a palavra retrovisor para não estragar a rima.

A rima seguinte é um claro indício de que Amadeu não tem telemóvel, já que ainda recorre à buzina para chamar a sua miúda. Pontos contra na modernidade, que podem ser rebatidos se tiver uma buzina com um toque rítmico peculiar. A insistência em ver a sua moçoila para lhe entregar o seu coração poderá indicar que estamos perante um dador de órgãos. O outro órgão, o psicadélico, continua a indicar que a medicação está em falta.
Começa o ritual amoroso. Vencendo o enjôo do perfume excessivo da sua amada, Amadeu tem tempo para fazer considerações sobre a Lua antes de mostrar mais uma faceta perturbante ao referir o efeito da Lua “iluminando nós TRÊS”. O nosso artista tem de facto um grande apreço pela sua viatura ou então, esqueceu-se de deixar um amigo em casa antes de ir ter com a miúda. A opção regabofe a três parece não encaixar com o carácter respeitoso da música.

Já não é segredo quando Amadeu nos revela o que se passa no seu veículo “Amor no carro” grita ele a plenos pulmões, acrescentando “Carinho que não é pecado”. Aí, a doutrina divide-se, já que o facto deste jovem estar envolvido em grande Tetris humano dentro do seu carro, mesmo em frente aos portões de casa da moça não parece ser daqueles actos com a chancela de aprovação do Vaticano.Isto para não mencionar que Amadeu nunca nos fala em casamento, nem há indícios que não tenha andado a dar duas buzinadelas pela rua inteira.

No entanto, o verso seguinte tira algum brilhantismo à fogosidade que acreditamos estar a testar as suspensões da viatura. No meio do pagode, Amadeu indica que alguém se diverte a escrever o nome da moça no vidro embaciado. Se for ela, é mau sinal para o jovem garboso, já que pode denotar alguma falta de engenho nas artes do amor da parte deste. Já se for Amadeu o escritor de janelas, isto pode aludir a um estratagema para se certificar que não se engana no nome da moça...

O solo de guitarra a seguir leva-nos para ambientes idílicos, talvez para nos distrair da javardice que se deve seguir ao referido “Amor no carro”. Mas, para quem tenha dúvidas sobre o que se tenha passado, Amadeu faz um reprise na segunda parte da música, começando logo na parte do portão, focando-se assim no essencial.

A verdade é que, depois de ouvir Amadeu Mota, invade-nos uma sensação de tranquilidade. É bom saber que há por aí gente com estofo para amar em qualquer lugar. Mesmo que seja estofo manchado por música duvidosa e não só...

6 comentários:

  1. Gosto da garra do Amadeu! Amadeu, tu foge dos senhores do BCP, das seguradoras e das novelas do Moniz, que eles não podem ouvir uma melodia assim a puxar para o sentimento... apanham-na logo!

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  2. Não conhecia o Amadeu e tenho saudades desse tempo (há sensivelmente 1m e 15s atrás). Agora não há retorno. A minha vida não vai ser igual, largarei, também eu nesses momentos de vácuo espiritual, esse sr cantor de seu nome Paulo Alexandre, que pretere infortúnios amorosos e trova alegremente aliciando ao consumo de vinho verde e dedicar-me-ei a esse ícone de bigode farfalhudo.

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  3. Mas dá bem ideia de que este bonito encontro se há-de ter passado originalmente algures no Ceará ou coisa que o valha...:)

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  4. Sou só eu a achar irónico que o Amadeu Mota prefira "Amar no carro"?

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  5. É sem dúvida alguma uma boa questão, embora no caso do Armando eu ache que se ele conseguir amar, qualquer lugar é digno de nota...

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  6. Vê-se mesmo que é uma música de outros tempos... Hoje para chegar com o carro a um sítio discreto gasta-se mais em Gasolina que numa ida ao Requinte, ou ao Ibis da A5!

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