7.8.08

RIP Cavalheirismo (Algures no tempo dos contos de fadas-2008)



É certo e sabido que o cavalheirismo foi inventado por um homem. Nós, os machos, temos por hábito criar coisas que não percebemos muito bem e que mais cedo ou mais tarde acabam por se voltar contra nós. Daí que seja justo que seja um homem a desligar a máquina que mantém o dito cujo ligado à vida.

Há muito que o cavalheirismo, no sentido romancista da coisa, deixou fazer sentido numa sociedade que se diz igualitária e em que há pouco tempo a perder. Como é óbvio, há que separar o cavalheirismo do facto de ser educado e da paixão. A educação é válida para todos e a paixão torna os actos mais estúpidos justificáveis, tanto para o homem (incluindo imprimir este texto para mostrar à namorada) como para a mulher.

Homens e, especialmente, mulheres que ainda sejam adeptos intransigentes do cavalheirismo é gente que ficou congelada em glaciares sociais há já algum tempo. A emancipação feminina tornou-a mais sofisticada (embora o bigode não esteja erradicado), com um nível de educação superior (em Portugal há mais mulheres licenciadas do que homens e entre a população empregada com curso superior elas também dominam) e nivelou um pouco mais a balança social. No entanto, curiosamente ou não, as mulheres continuam a considerar um exclusivo masculino o chamado acto cavalheiresco.

Nos dias que correm, enquanto muitas outras coisas seriam consideradas machismos, continua a ser essencialmente dos gajos a responsabilidade de oferecer flores (no hospital não conta e em funerais muito menos), abrir portas de carros, puxar a cadeirinha para sentar ou assegurar o pagamento da conta do restaurante.
Bradarão, indignadas, algumas senhoras - É educado, só te fica bem e aumenta as probabilidades do cavalheiro não adormecer abraçado apenas à almofada (isto para os casos com intenções marotas como pano de fundo).
Concordo plenamente, mas isso devia ser válido para meninos e meninas. Experimentem ser cavalheiras e fazer algumas das coisas que referi anteriormente, nem que seja uma vez (ok, troquem as flores por uma garrafita de vinho) e vão ver como a rapaziada fica reconhecida e, na volta, até cora (antes do efeito do vinho).

Se a coisa não correr bem pelo menos tentaram, e ficam a ter uma pequena amostra das figuras que os homens andam a fazer há séculos só para ficarem bem na fotografia. Da minha parte não vai haver problema, sei muito bem que não há almoços grátis, mas não digo que não a jantares gratuitos.

Gentleman Sounds – Gogol Bordello, Start wearing purple

10 comentários:

  1. e que nome se dará a esta atitude das mulheres? damismo? ou abole-se definitivamente? grande música:)

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  2. Agora é que me apanhaste na minha duvida hipocrito-existencialista. Eu que me considero uma mulher moderna, muito pouco romantica, despachada e defensora da igualdade entre géneros (na vida doméstica e laboral), confesso que fico incomodada quando um homem entra primeiro que eu num elevador, ou qualquer outro tipo de porta. E deito fumo pelo nariz e orelhas quando não tomam a iniciativa de me ajudar quando estou carregada. Ou quando se servem primeiro à mesa. Também já me perguntei se seria hipocrisia minha e cheguei à brilhante conclusão que não. Nem sequer é cavalheirismo: é educação. Porque sei que sou bem capaz de oferecer garrafas de vinho e outras coisas bem boas e pagar uma conta de restaurante com muito gosto. Por isso meninos, vá lá, esta desculpa já é velha. E não se desleixem que não vos fica bem.

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  3. @ moyle - Creio que reciprocidade tb é um termo bonito.

    @ macaca - Confesso, eu até sou educado. No edifício onde trabalho, as senhoras de uma empresa de consultoria dizem que distinguem os homens da minha empresa dos do call center pelo facto de nós as deixarmos passar para o elevador, segurar a porta, etc, já que o mau aspecto é idêntico.
    Mas, por exemplo, vamos ver - o caso da porta do carro fazia muito mais sentido na altura em que era maioritariamente o homem que conduzia, hoje em dia imagina que a mulher conduz, estaciona, eu vou abrir-lhe a porta e sou colhido por um camião TIR visto estar do lado da via... ;)

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  4. há muitos anos que ando a defender essa mesma perspectiva, mas infelizmente parece que a noção de igualdade se ficou pelas coisas nas quais as mulheres eram 'prejudicadas'. No caso dos benefícios, igualdade para quê, dizem elas? Deve ser dos direitos adquiridos, ou o camandro e uma coisa qualquer dessas...;)

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  5. Olhem, olhem, meus meninos, mexam-se! Alguma vez alguém vos viu a fazerem MANIFs pela igualdade?Querem flores, querem jantares grátis?Então queimem boxers na rua, façam congressos e greves!Ou vamos ter de ser nós, assim com postzinhos ou comentários do género "ai eu tb ando a defender isso há anos", que vamos mudar?Isto quando vocês deram e dão um trabalho do caraças... Vá, vá, toca a levantar o rabinho do sofá...;)

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  6. Isso do queimar boxers na rua parece-me engraçado, de facto...

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  7. Desde que não os estejas a usar na altura, calculo eu..;)

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  8. No dia em que um homem me fizer a cama em condições, lavar bem a loiça sem ter nojo da esponja, for ao supermercado sem eu pedir, despejar o lixo proactivamente e arrumar toda a tralha que recolhe na rua, aí sim, começarei a ser cavalheira. Até lá, não há mais conversa!...

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  9. Bem...há aqui mulheres com muito azar...LOL Eu posso considerar-me um homem de sorte...já m pagaram jantares e ofereceram garrafas de vinho...

    Quanto ao resto não é só uma questáo de educação, há o requinte, a excelência, o detalhe. Para vulgaridade basta estar vivo. Nos tempos que correm convém ter em atenção , certas vezes , um pouco de pragmatismo, um TIR faz muita mossa :)mas como eu sou um tipo fora de época, apesar de pelintra, ainda tenho esta coisa temnperamental de pagar o jantar e ficar com a conta a zeros... e ainda ter que dormir agarrada à almofada...

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  10. Há cavalheirismo advindo da educação e há o cavalheirismo estudado. E são tãaao distintos

    E quanto às mulheres, concordo que me irrita "quando um homem entra primeiro que eu num elevador, ou qualquer outro tipo de porta", flores também já ofereci, pagar, 80% das vezes, eh pah..."cavalheira" não soa bem e raramente equivale a "romantismo", mas nem sempre temos que optar pelo conto de fadas

    E abrir a porta do carro...?Essa é que já não se vê. Mas fica bem.
    Assim como andar no lado fora do passeio! :-)))))

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